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Não tenho do que me queixar. A vida tem sido generosa para comigo no que se refere à presença de pessoas que são verdadeiros dons de Deus na minha vida. Desde o âmbito familiar, passando pelo ambiente das escolas e da universidade, na Igreja, na Ordem Franciscana à qual eu pertenço, tenho sido constantemente presenteado com a presença de pessoas que tornam a vida mais leve, mais bem-humorada e mais saudável. Mais humana, enfim. Afinal, existe coisa mais desumana do que o sentimento e a consciência de abandono a que muitas pessoas são submetidas?
Entre todos esses companheiros e companheiras, no entanto, há uma que sempre está por perto. É uma presença discreta e silenciosa. Mas, é quem está próxima nos momentos mais difíceis. Nos momentos de tomadas de decisões importantes, ela está ao meu lado para o que der e vier. Ela não emite palpite algum, apenas me apóia discretamente. Quando a vida me faz passar por situações de perda, seja de pessoas que aprendi a amar, seja de pedaços da minha personalidade que foi necessário abandonar, é ela quem me consola. Naqueles momentos únicos da nossa vida, em que os nossos olhos se abrem para a bondade de Deus, presente no nosso meio, tudo o que desejamos é ter junto de nós as pessoas que amamos, para partilhar com elas esse momento, ela é a única presença por perto. Essa presença amiga… é a solidão.
É difícil falar sobre a solidão. Mais difícil ainda é entender o que a ela diz respeito. É que a solidão é muito mal compreendida. No nosso mundo atual, com as pessoas concentradas nas grandes cidades, ligadas umas às outras através dos modernos meios de comunicação como a telefonia móvel ou a Internet, mais difícil ainda é compreendê-la. Como não a compreendemos, exorcizamo-la, afastamo-la com mil artifícios: música alta, telefonemas a meio da noite, busca contínua da presença de pessoas. Até mesmo, reparem bem, as pessoas casadas, que parecem ter encontrado um remédio para a sua própria solidão (como se a solidão de um mal se tratasse). Em alguns momentos vão poder perceber, bem no meio do leito conjugal, a solidão de um e do outro.
Se a solidão é essa presença constante, não nos resta outra coisa senão fazermos as pazes com ela e descobrirmos como esse relacionamento pode ser frutuoso. É o que parece ter descoberto Alberto Caeiro, que confessava encontrar na sua própria solidão a razão dos seus versos:
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
Alguém já me afirmou certa vez: precisamos aprender a conviver com a solidão, sem, entretanto, nos tornarmos solitários. Mas, onde reside a linha divisória entre uma e outra realidade?
A solidão é, antes de mais nada, um estado de espírito, mais do que o isolamento da própria pessoa. Posso viver rodeado de pessoas queridas e, no entanto, posso cultivar a minha própria solidão. Em alguns momentos da nossa vida, a solidão impõe-se quase como uma necessidade. Ela torna-se a condição necessária para colocarmos em ordem os nossos juízos, afetos e sentimentos. Por isso, quem não aprende a cultivá-la, dificilmente consegue encontrar-se consigo mesmo. E, quem for incapaz de se encontrar em profundidade com a sua própria realidade humana, com o seu emaranhado de limites, altruísmos, desejos, pulsões de vida e de morte, dificilmente vai ser capaz de se encontrar em profundidade com as pessoas que povoam o seu próprio quotidiano. Os encontros tornam-se superficiais e banais: uma noite de sexo entre marido e mulher, um copo de cerveja com uns amigos, uma noite de festa e de dança e, nada mais… Quando tudo isso se poderia converter em algo mais, graças à intensidade de busca que a solidão provoca em nós.
A pessoa solitária, entretanto, isola-se a si mesma do convívio das demais pessoas. Vive num mundo à parte, o mundo das suas leituras, do seu trabalho e dos seus hábitos. A solidão educa-nos para vivermos com intensidade os nossos encontros quotidianos. O solitário evita tais encontros e presenças.
Os Evangelhos narram que, com freqüência, Jesus se afastava da multidão e mesmo dos seus discípulos para orar. No nosso imaginário religioso, é fácil vê-lo ajoelhado a recitar o Pai-Nosso, ou o Shemá, a oração e profissão de fé judaica. Mais difícil é percebermos que foram nesses momentos, quando Jesus se entregava à solidão da sua oração, que ele aprendeu a discernir o rosto paterno-materno de Deus e em quem Ele encontrava a força e o sentido da sua missão. Na solidão da sua oração, Jesus descansava no Pai. A experiência do Pai, entretanto, não o deixava descansar, e Jesus retornava à sua missão.
Nos primórdios do cristianismo, houve gerações de cristãos que se dirigiram para as regiões afastadas dos centros urbanos, para aí se entregarem, na solidão dos lugares ermos, à prática de uma espiritualidade que unia, de uma maneira muito profunda, o autoconhecimento da própria natureza humana e a experiência de Deus. Eles legaram-nos uma sabedoria preciosa, principalmente através de "apotegmas", isto é, breves sentenças, utilizadas para instruir os seus discípulos no caminho da espiritualidade do deserto. O estilo de vida de muitos desses eremitas do deserto atravessou séculos e permanece vivo ainda hoje.
A solidão vivida nos eremitérios era um dos centros da vida franciscana. Francisco de Assis passava longos períodos em eremitérios espalhados pela região da Úmbria. Ele chegou mesmo a escrever uma pequena regra de vida para os irmãos que fossem viver nos eremitérios: deveriam ser quatro frades que se revezariam no papel de Marta e de Maria.
Amar as pessoas como elas são e olhar com misericórdia todos aqueles que de nós se aproximam: eis o grande desafio da nossa vida. Somente será capaz de tal feito quem for capaz de se aceitar a si mesmo naquilo que se é e souber usar de misericórdia para consigo mesmo. A condição para esse aprendizado e essa reeducação do olhar é a solidão, por meio da qual podemos perceber a nossa própria realidade. A partir desse ponto, é possível fazer algo mais.
Assim, por causa da inevitabilidade da solidão e por causa do bem que ela pode operar em nós, é que eu aconselho: faça as pazes com ela. Você vai perceber que ela é uma grande companheira.
Entre todos esses companheiros e companheiras, no entanto, há uma que sempre está por perto. É uma presença discreta e silenciosa. Mas, é quem está próxima nos momentos mais difíceis. Nos momentos de tomadas de decisões importantes, ela está ao meu lado para o que der e vier. Ela não emite palpite algum, apenas me apóia discretamente. Quando a vida me faz passar por situações de perda, seja de pessoas que aprendi a amar, seja de pedaços da minha personalidade que foi necessário abandonar, é ela quem me consola. Naqueles momentos únicos da nossa vida, em que os nossos olhos se abrem para a bondade de Deus, presente no nosso meio, tudo o que desejamos é ter junto de nós as pessoas que amamos, para partilhar com elas esse momento, ela é a única presença por perto. Essa presença amiga… é a solidão.
É difícil falar sobre a solidão. Mais difícil ainda é entender o que a ela diz respeito. É que a solidão é muito mal compreendida. No nosso mundo atual, com as pessoas concentradas nas grandes cidades, ligadas umas às outras através dos modernos meios de comunicação como a telefonia móvel ou a Internet, mais difícil ainda é compreendê-la. Como não a compreendemos, exorcizamo-la, afastamo-la com mil artifícios: música alta, telefonemas a meio da noite, busca contínua da presença de pessoas. Até mesmo, reparem bem, as pessoas casadas, que parecem ter encontrado um remédio para a sua própria solidão (como se a solidão de um mal se tratasse). Em alguns momentos vão poder perceber, bem no meio do leito conjugal, a solidão de um e do outro.
Se a solidão é essa presença constante, não nos resta outra coisa senão fazermos as pazes com ela e descobrirmos como esse relacionamento pode ser frutuoso. É o que parece ter descoberto Alberto Caeiro, que confessava encontrar na sua própria solidão a razão dos seus versos:
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
Alguém já me afirmou certa vez: precisamos aprender a conviver com a solidão, sem, entretanto, nos tornarmos solitários. Mas, onde reside a linha divisória entre uma e outra realidade?
A solidão é, antes de mais nada, um estado de espírito, mais do que o isolamento da própria pessoa. Posso viver rodeado de pessoas queridas e, no entanto, posso cultivar a minha própria solidão. Em alguns momentos da nossa vida, a solidão impõe-se quase como uma necessidade. Ela torna-se a condição necessária para colocarmos em ordem os nossos juízos, afetos e sentimentos. Por isso, quem não aprende a cultivá-la, dificilmente consegue encontrar-se consigo mesmo. E, quem for incapaz de se encontrar em profundidade com a sua própria realidade humana, com o seu emaranhado de limites, altruísmos, desejos, pulsões de vida e de morte, dificilmente vai ser capaz de se encontrar em profundidade com as pessoas que povoam o seu próprio quotidiano. Os encontros tornam-se superficiais e banais: uma noite de sexo entre marido e mulher, um copo de cerveja com uns amigos, uma noite de festa e de dança e, nada mais… Quando tudo isso se poderia converter em algo mais, graças à intensidade de busca que a solidão provoca em nós.
A pessoa solitária, entretanto, isola-se a si mesma do convívio das demais pessoas. Vive num mundo à parte, o mundo das suas leituras, do seu trabalho e dos seus hábitos. A solidão educa-nos para vivermos com intensidade os nossos encontros quotidianos. O solitário evita tais encontros e presenças.
Os Evangelhos narram que, com freqüência, Jesus se afastava da multidão e mesmo dos seus discípulos para orar. No nosso imaginário religioso, é fácil vê-lo ajoelhado a recitar o Pai-Nosso, ou o Shemá, a oração e profissão de fé judaica. Mais difícil é percebermos que foram nesses momentos, quando Jesus se entregava à solidão da sua oração, que ele aprendeu a discernir o rosto paterno-materno de Deus e em quem Ele encontrava a força e o sentido da sua missão. Na solidão da sua oração, Jesus descansava no Pai. A experiência do Pai, entretanto, não o deixava descansar, e Jesus retornava à sua missão.
Nos primórdios do cristianismo, houve gerações de cristãos que se dirigiram para as regiões afastadas dos centros urbanos, para aí se entregarem, na solidão dos lugares ermos, à prática de uma espiritualidade que unia, de uma maneira muito profunda, o autoconhecimento da própria natureza humana e a experiência de Deus. Eles legaram-nos uma sabedoria preciosa, principalmente através de "apotegmas", isto é, breves sentenças, utilizadas para instruir os seus discípulos no caminho da espiritualidade do deserto. O estilo de vida de muitos desses eremitas do deserto atravessou séculos e permanece vivo ainda hoje.
A solidão vivida nos eremitérios era um dos centros da vida franciscana. Francisco de Assis passava longos períodos em eremitérios espalhados pela região da Úmbria. Ele chegou mesmo a escrever uma pequena regra de vida para os irmãos que fossem viver nos eremitérios: deveriam ser quatro frades que se revezariam no papel de Marta e de Maria.
Amar as pessoas como elas são e olhar com misericórdia todos aqueles que de nós se aproximam: eis o grande desafio da nossa vida. Somente será capaz de tal feito quem for capaz de se aceitar a si mesmo naquilo que se é e souber usar de misericórdia para consigo mesmo. A condição para esse aprendizado e essa reeducação do olhar é a solidão, por meio da qual podemos perceber a nossa própria realidade. A partir desse ponto, é possível fazer algo mais.
Assim, por causa da inevitabilidade da solidão e por causa do bem que ela pode operar em nós, é que eu aconselho: faça as pazes com ela. Você vai perceber que ela é uma grande companheira.

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