Carrego com uma nitidez reconfortante a primeira celebração eucarística dominical na qual eu tomei parte no continente africano. Era o dia 6 de setembro de 1998, na igreja São Francisco, uma comunidade cristã no bairro de caniço, na zona costeira de Maputo, capital de Moçambique. À parte a acolhida fraterna dos membros da comunidade a mim, recém chegado ao país, algo me marcou profundamente: o momento em que os batuques começaram a ser tocados. Ao ouvir o som dos batuques e dos chiquitizes, um chocalho feito de caniço e sementes, acompanhando o cântico de entrada, a constatação óbvia brotou-me imediatamente: eu estava, finalmente, no continente africano. Aquele era o som da África. E, naquele momento, invadiu-me uma alegria despretensiosa e um sentimento de gratidão por estar ali, em Moçambique, após cinco anos de preparação e espera. Aquele foi o meu primeiro contato com os ritmos, os sons, os batuques, os cânticos, a dança e a alegria da cultura e da Igreja moçambicana. Aquela foi a primeira de tantas celebrações dominicais festivas na qual eu tomei parte. Em sete anos de presença no país, nunca perdi a capacidade de me encantar e de me deixar enfeitiçar por aqueles ritmos e aquela alegria contagiante.
Há um estereótipo relacionado com os países africanos onde os mesmos são mostrados unicamente sob a perspectiva de misérias, guerras, lutas tribais, doenças e corrupção. Infelizmente, tais estereótipos escondem a riqueza cultural, religiosa e humana presente nesses países. Se é verdade que tais iniquidades se fazem presentes de uma maneira mais ou menos intensa no dia a dia dos países africanos, também é verdade que esses povos não perdem a capacidade de celebrar com intensidade e alegria os acontecimentos quotidianos. O que se opõe à alegria é a tristeza, não o sofrimento. A iniquidade presente no dia a dia não é obstáculo para a celebração da alegria do triunfo do Crucificado-Ressuscitado sobre tais iniquidades.
Em nenhum outro momento essa dimensão pascal das celebrações eucarísticas da Igreja em Moçambique se manifesta de maneira tão clara como na vigília da ressurreição. Essa é uma celebração que começa a ser preparada quase um mês antes, bem no início da quaresma. É a celebração onde os grandes protagonistas são os próprios catecúmenos: grupos de cinquenta, setenta, cem ou mais jovens e adultos que irão receber os sacramentos da iniciação cristã – principalmente o batismo e a eucaristia – na noite da vigília pascal.
A sociedade africana é uma sociedade musical. A música, juntamente com a sua irmã, a dança, permeia a cultura africana. A Igreja em Moçambique, num passo inicial e básico de inculturação dos ritos cristãos, incorporou os ritmos e a dança já presentes no meio do povo. Assim, os catecúmenos passam a quaresma a ensaiar os cânticos e as danças da vigília pascal. Afinal, não há festa que não seja organizada e preparada com esmero e antecedência. Os ensaios sucedem-se, até que, finalmente, chega a grande noite da ressurreição.
Por volta das 21 horas, as igrejas já estão cheias. Os catecúmenos vestem roupas brancas. O fogo é abençoado, o círio pascal é levado para o interior da igreja, o Exultet é entoado, tudo de maneira sóbria. Nada parece indicar a explosão de alegria que virá em seguida.
A liturgia da palavra transcorre, também, de maneira sóbria. A leitura da Palavra de Deus é algo sempre solene. Os salmos são cantados. A liturgia é bilíngüe. As leituras são feitas em português e na língua local de cada diocese ou, como no interior do país, apenas na língua local. Na diocese de Maputo, ouve-se a proclamação do evangelho sentado. É assim que, na cultura tradicional dessa região, os mais velhos instruem os mais novos. Os jovens sentam-se na esteira, aos pés dos anciãos, para ouvi-los. De maneira análoga, na proclamação do evangelho é Deus a instruir os seus filhos.
Após as leituras iniciais da vigília pascal e dos respectivos salmos, chega o momento do cântico do Glória. Nesse momento, toda a comunidade cristã irrompe em alegria. Os batuques, calados durante a quaresma e com os couros devidamente esticados e afinados com o calor da fogueira da páscoa, soltam as suas vozes. O Glória, num ritmo festivo, é entoado por toda a comunidade. Devido à cultura musical africana, com facilidade se criam os arranjos harmoniosos entre as primeiras e segundas vozes, entre as vozes masculinas e as femininas. Os cânticos são intercalados entre as solistas e a assembléia, que repete algum refrão breve e de fácil memorização. Não há necessidade de microfones ou de equipamentos de amplificação dos instrumentos: todos cantam, todos dançam. Os gritos festivos de alegria típicos da cultura africana reverbam no ambiente. Impossível descrevê-los. Só mesmo presenciando-os.
Nessa altura, entra, a partir do fundo da igreja e em direção ao altar, o corpo de dança em duas filas paralelas. Na vigília pascal, costumam ser os próprios catecúmenos os dançarinos. Noutras ocasiões, há uma ordem precisa: das mais jovens à frente às mulheres mais adultas, no fim das fileiras. Dois jovens encerram a fila de dançarinas. O colorido e a harmonia visual se fazem presentes através das capulanas – os tecidos coloridos que envolvem as pernas das dançarinas. Ao chegar à frente do presbitério, o corpo de dançarinas se distribui ao longo do mesmo, em um grande abraço de movimento e de dança.
O momento do ofertório é outro momento grandioso. Após o cântico para a coleta das ofertas em dinheiro, o corpo de dançarinas se posiciona, novamente, na entrada da igreja. Inicia-se um novo cântico, mais animado e ritmado. As dançarinas entram trazendo as ofertas que serão depositadas junto ao altar: além das ofertas em dinheiro recolhidas e do pão e do vinho, alimentos, frutas, um ou outro pequeno animal e, algumas vezes, até mesmo cabrito.
Seguem-se os ritos eucarísticos propriamente, num ambiente de solenidade e de silêncio sagrado, até o momento da comunhão eucarística. Após a comunhão, entoa-se o cântico de ação de graças, com o corpo de dançarinas novamente ao redor do presbitério. Nesse momento, outras pessoas da comunidade, contagiadas pela alegria e pelo ritmo, juntam-se espontaneamente à frente do altar para dançar juntos.
Quanto tempo demora toda essa cerimônia? O tempo necessário. Não há pressa. O acento não recai na fala de quem preside a eucaristia. O centro é a Palavra de Deus e a Eucaristia. O canto e a dança dão unidade ao ritual. Passam-se três horas ou mais. O tempo transcorre sem nos darmos conta. Afinal, o mistério que se é celebrado é grandioso demais para ser feito às pressas e de maneira qualquer, sem preparação e de improviso.
Já distante fisicamente do continente africano, a memória da vivacidade das suas celebrações eucarísticas permanecem vivas em mim e afloram com maior intensidade neste tempo de alegria pascal. Aqui no Brasil, há todo um esforço pela valorização de uma pastoral litúrgica de qualidade, nas suas dimensões bíblica, mistagógica, profética, musical, simbólica e arquitetônica, de forma a fazer com que as celebrações litúrgicas, partindo do dia a dia das comunidades, remetam ao mistério central da nossa fé Trinitária. Infelizmente, e, aparentemente, com maior força, vem ganhando terreno nas nossas comunidades um tipo de liturgia “plastificada”, difundida pelo movimento pentecostal católico (RCC) e seus meios de comunicação. Essa liturgia do tipo fast-food, espetacularizada, estridente, rasa de conteúdo evangélico, ideal para destacar os cantores em seu show particular nos momentos celebrativos, pode ser encontrada nos rincões mais distantes do Brasil. É o desmilagre dos meios de comunicação social. Diante dessa realidade, restam uma certeza e uma esperança. A certeza: o mistério da encarnação-morte-ressurreição de Jesus é algo grandioso demais para ser celebrado de maneira tão pouco profética e tanto mais teatralizado. A esperança: há vida, e vida em abundância, fora desses esquemas estreitos que têm tomado conta da nossa Igreja.

0 comentários:
Postar um comentário