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A comunhão, jamais a solidão, é o desejo último da nossa alma. A súplica que se eleva das profundezas do nosso ser inquieto é a mesma proferida pelo Pe. Chardin no momento da sua eucaristia cósmica no deserto de Ordos: Senhor, fazei-nos Um! Criados à imagem e semelhança de Deus-Trindade, o desejo de comunhão está inscrito no nosso código genético e impregna a nossa existência.
Esse desejo de comunhão cresce e se desenvolve em círculos concêntricos à nossa volta: a comunhão do filho com a mãe no seio materno, a comunhão das amizades e dos amores ao longo da vida, a comunhão do marido e da esposa que se unem numa só carne, a comunhão com os poetas que conseguem traduzir com as suas palavras as percepções e os sentimentos comuns a todos nós, a comunhão com os santos dos diferentes credos, que nos fazem ter saudades do único e mesmo Deus, a comunhão e a compaixão com os sofredores e empobrecidos do nosso mundo.
Um importante teólogo já afirmou que o cristão deste século que se iniciou ou será um místico ou não será nada. Mas, quais serão os traços desta mística que nos animará neste século, o qual já nasce marcado pelo secularismo, pela indiferença religiosa e pela separação progressiva entre norte e sul?
A mística do nosso século será aquela capaz de abrir os nossos olhos simultaneamente para as pequenas dores e alegrias quotidianas da humanidade, ao mesmo tempo em que se abre para as grandes perguntas e anseios do espírito humano, colocadas diante de nós não apenas pelo homem religioso, mas, também, pelas ciências e pelos descrentes. Para nós, filhos e filhas deste tempo, não nos bastará sermos piedosos. Deveremos ser piedosos e sábios para poder dialogar com sabedoria com nossos interlocutores.
No fundo, trata-se de retomarmos com vigor renovado os dois mistérios centrais da nossa fé: a Encarnação e a Ressurreição do Filho de Deus. Com a Encarnação, Deus se faz pequeno, na medida das nossas dores e das dores de todos os que padecem. Mas, faz-se pequeno e pobre não para nos consolar nessa condição, mas para nos revelar a nossa verdadeira grandeza. Essa grandeza da nossa vocação Trinitária torna-se manifesta com a ressurreição do Filho de Deus e o seu retorno ao seio da Comunidade Trinitária. A Trindade é, ela mesma, relação dinâmica e amorosa, fonte do relacionamento que une tudo e todos no Universo.
O Irmãozinho Carlos de Foucauld é o testemunho mais visível, no meio de nós, desse cristianismo dos pequenos, da encarnação de Jesus nas realidades terrenas. Por sua vez, a clarividência do Pe. Teilhard de Chardin faz o nosso olhar descentrar-se da nossa pequenez para nos descobrirmos irmanados com todas as forças que regem o Universo. Pela ressurreição de Jesus, o Universo inteiro torna-se transparente a essa presença do Sagrado que se manifesta – mas não se confunde – em cada partícula subatômica ou estrela, verme ou animal, vinho e festa, pão e refeição. O Universo inteiro se converte em sacramento da presença da Trindade e permanece à espera de que eduquemos nosso olhar para enxergarmos essa presença.
Há mais de 800 anos, na cidadezinha de Assis, o seu filho mais ilustre teve essas mesmas intuições: teve o mesmo trato fraterno com os leprosos do seu tempo e com o sol e as estrelas junto de si. É isso o que faz com que Francisco seja um santo sempre moderno: a capacidade da sua vida de despertar em nós desejos adormecidos de Deus e de comunhão.

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