A DOENÇA DE PENSAR

on 19/04/2009


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Nada é perfeito. Foram necessários cerca de dois milhões de anos de evolução para que uma minúscula célula - à qual os cientistas dão o nome de Áries - se desenvolvesse lentamente e resultasse no ser humano. Entre essa célula primordial e o corpo humano, processou-se uma longa história de seleção e adaptação, de tentativas e erros, de vida e de morte até chegarmos ao corpo humano, com todas as suas características biológicas, psíquicas, afetivas e espirituais. Dois milhões de anos depois, entretanto, há sempre alguém a reclamar que o nosso organismo poderia ter se desenvolvido desta ou daquela maneira, de forma a tornar mais cômoda nossa existência atual. Por exemplo, a evolução já poderia ter eliminado os dedos dos pés. Estaríamos livres das micoses e das unhas encravadas. Um pouquinho de clorofila nas nossas células ajudar-nos-ia imensamente a processar a nossa própria fonte de energia, sem necessidade de parasitarmos os nossos parentes mais distantes, ou mais próximos, na cadeia alimentar. Uma terceira orelha e o respectivo aparelho auditivo adicional talvez fossem a solução para o nosso vício de falarmos muito e de escutarmos pouco. Além do mais, seria uma verdadeira dádiva para os cultores do piercing, sempre ávidos por encontrar mais um lugar exótico no corpo, onde espetarem os seus acessórios.

Eu, que faço parte desse numeroso grupo de palpiteiros da criação, penso que o nosso corpo peca apenas pela falta de um mecanismo que, existindo, nos seria muito útil. No nosso organismo, falta um botão do tipo stand by, como o dos modernos equipamentos eletrônicos. Basta um toque nesse botão e os aparelhos entram em estado de hibernação e de baixo consumo de energia. Falta um botão desses para colocar em hibernação os nossos pensamentos. É que, algumas vezes, pensamos demais. E pensar é estar doente, como já disse Alberto Caeiro:


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…


Não pensar é a única coisa que desejamos algumas vezes na vida. Quantas vezes vamos para a cama sem conseguirmos dormir, apesar do cansaço do nosso corpo? O nosso corpo pede repouso, enquanto os nossos pensamentos, em vivo protesto, nos agitam freneticamente.

Há pensamentos de idéias, pensamentos de amores, pensamentos de rancores, pensamentos de ansiedade, pensamentos de beleza, pensamentos de medo... A lista é longa. E não me interessa que tipo de pensamento me assalta: desejo apenas não pensar. Mas, existe coisa mais desobediente que o pensamento? Nós pensamos que somos donos dos nossos pensamentos. Não somos. Se fôssemos donos, eles nos obedeceriam e se calariam prontamente à menor ordem nossa.

Conta-se que, certa vez, um jovem se aproximou de Poimen, um sábio eremita dos primeiros séculos do cristianismo, e lhe pediu ajuda: "Pai, tenho inúmeros pensamentos e eles me põem em perigo". O patriarca conduziu-o para fora e disse-lhe: "Estufa o peito e pára os ventos!". Ele porém respondeu: "Eu não consigo fazer isso!" Então o ancião acrescentou: "Se tu não consegues fazer isso, também não és capaz de impedir que os pensamentos se aproximem de ti".

Pensamentos demais são um dos problemas das pessoas que sofrem de algum tipo de esquizofrenia. Quando um cancro se instala no nosso corpo, as células cancerosas adquirem autonomia e começam a multiplicar-se desgovernadamente. As quatro letras com as quais são formadas as palavras do nosso código genético ganham autonomia e passam a compor um script próprio, deixando de seguir o minucioso roteiro da vida que faz com que essas quatro letras se combinem para gerar mãos, pés, órgãos e tecidos. Acredito que algo semelhante se passa com os que sofrem de esquizofrenia. Os pensamentos no indivíduo esquizofrênico multiplicam-se desordenadamente, deixando de seguir qualquer roteiro lógico, criando um mundo distante da realidade, resultando daí a desorientação e a alienação do doente. Um dos antigos tratamentos para conter a avalanche de pensamentos e idéias do esquizofrênico consistia em induzir o indivíduo ao estado de coma com a aplicação de elevadas doses de insulina, como já foi mostrado no filme "Uma mente brilhante", que narra a história real de John Nash, que chegou a ganhar o Prêmio Nobel.

Na minha cruzada pelo direito de não pensar quando julgar conveniente, porém, que eu não seja mal interpretado. O que eu desejo é apenas colocar em pé de igualdade o pensamento e a contemplação, a luminosidade das idéias e o escuro do vazio, o trabalho de raciocinar e o repouso de não pensar. Não prego, de forma alguma, o retorno à nossa condição pré-humana, quando a centelha do pensamento ainda não havia ateado fogo no espírito humano.

É que eu, pessoalmente, já encontrei muitas pessoas que abdicaram por completo o exercício de pensar e de tomar decisões. Os casos mais clássicos são os das pessoas apaixonadas. A paixão é uma caricatura do amor. Vinícius de Morais dizia que o amor é eterno enquanto dura. Errado. A paixão é que é eterna enquanto dura. Paixão é coisa de momento e amanhã já não o é mais. O amor é algo que se constrói, dia após dia, no quotidiano da vida. Acontece que os apaixonados não pensam um mínimo sequer. Argumentar com pessoas apaixonadas é jogar palavras ao vento. Outros passaram uma procuração para os meios de comunicação social, dando a estes a total liberdade de pensar e de decidir pelo indivíduo.

Talvez, em nenhum outro momento, os diferentes pensamentos nos assaltem de maneira tão intensa, quando nos dispomos a nos silenciarmos para rezar. Nesses momentos, em que tentamos recolher todos os nossos pedaços para nos colocarmos com inteireza diante do Absoluto, os pensamentos fazem tropelias em nós. É uma loucura. E Riobaldo já disse no Grande sertão: veredas: "O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura". Da loucura de pensar demais. Mas, essa é uma outra estória sobre a qual vale a pena pensar.

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