23 de fev. de 2013

AO FECHARMOS OS NOSSOS OLHOS







       Escrevo estas palavras sob o efeito de uma dor: alguém partiu... Não há esperança de seu regresso. Resta somente a certeza do reencontro com essa pessoa, quando também eu caminhar em direção ao mesmo destino que ela finalmente alcançou. Morrer é um processo doloroso. Algumas vezes mais, outras vezes menos, mas, dolorido sempre, para os que partem e para os que ficam. A violência humana e da natureza que ceifa vidas, a imprudência nas estradas, uma fatalidade qualquer, uma enfermidade que nos consome lenta ou rapidamente, ou mesmo a inexorável degradação física, acompanhada da degradação mental, que nos chega quando conseguimos sobreviver a esses ardis da existência. A dor do morrer, sempre. Dor provocada pelo amor. Dor advinda da saudade. Dor com raízes em alguma forma de remorso. Dor alimentada por algum tipo de revolta. A dor de acompanhar o lento extinguir da vida de pessoas que amamos: as mãos outrora calorosas cada vez mais frias, o olhar amoroso cada vez mais apagado, os lábios, que tanto instruíram e rezaram, cada vez mais mudos, a memória que se vai apagando até o irreconhecimento dos próprios filhos. A dor de uma presença sufocante de quem partiu, manifestada na sua ausência: nunca antes a sua presença se fez sentir de maneira tão forte. A dor paradoxal da dor que abranda: invade-nos uma sensação difusa de culpa pela dor que diminui com o tempo, como se estivéssemos esquecendo e abandonando a pessoa que partiu em virtude de já não chorarmos tanto pela sua partida. A dor, sempre.

       Paulo, em sua Carta aos Romanos, afirma que, com o pecado, a morte entrou no mundo. Uma lógica rasa da nossa parte poderia concluir que, sem o pecado, seríamos naturalmente imortais nesta forma humana de vida. Nada mais errado. Somos constitutivamente e naturalmente mortais para esta forma de vida. O que o pecado talvez tenha introduzido seja a forma traumática como vivemos a morte, não mais compreendida como o natural caminhar em direção ao Criador. Ou, talvez ainda – o mais grave – o pecado tenha apagado de nossos corações a imagem amorosa e acolhedora de Deus, substituindo-a pela imagem de um Deus rigoroso, que "irá nos punir severamente" no dia do juízo, como afirmado na homilia de um jovem padre recentemente. Diante de um ídolo assim – pois não se trata de Deus, mas de um falso deus imposto a gerações de cristãos –, não nos resta outra atitude a não ser o medo. Assim, à dor advinda da partida de pessoas que amamos, soma-se a angústia advinda da incerteza acerca do destino final daqueles que partiram. Nada mais triste.

       Para aplacar a dor, buscamos remédios. Também eu faço uso deles. O remédio de que eu faço uso, entretanto, não se encontra em farmácias. O meu remédio são palavras.

       A primeira palavra que alivia a dor de meu peito foi escrita com os caracteres dos sábios e dos filósofos gregos. Às portas do nascimento de Cristo, cerca de cinquenta anos do início da era cristã, um sábio da comunidade de judeus em Alexandria, no norte do Egito, afirmou pela primeira vez, com clareza, na história do povo de Israel, a crença na vida pós-morte e a recompensa para o justo. Nascia o livro da Sabedoria, rejeitado como inspirado pelos judeus, que definiram a lista de livros considerados sagrados para o judaísmo, e seguido pelos cristãos da Reforma. Os cristãos de tradição católica e oriental, entretanto, tiveram a sabedoria de ver nele o prenúncio daquilo que se tornou certeza em Cristo: a ressurreição. No livro da Sabedoria, encontramos as seguintes palavras: “A vida dos justos, ao contrário, está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos, aqueles pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado como desgraça. Os insensatos pensavam que a partida dos justos do nosso meio era um aniquilamento, mas agora estão na paz.” (Sb 3,1-4). Os justos estão em paz, mesmo que tenham vivido uma vida difícil e que tenham morrido repentinamente. Se hoje essa afirmação tornou-se um dos elementos centrais da fé cristã, não foi fácil ser afirmada há mais de 2.000 anos. Os justos estão em paz. Uma afirmação simples que ecoa repetidamente em nosso coração e ajuda a aliviar a dor. Uma certeza simples, como simples é o amor de Deus por toda a sua criação.
Outra palavra que alivia a minha dor é um fragmento de um dos sonetos de amor de Pablo Neruda, poeta chileno. Em “A dança”, ele diz à sua amada:

               Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
               te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
               assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

               Se não assim deste modo em que não sou nem és
               tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
               tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

       “Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho”: o fechar dos olhos de um é o sonhar do outro. O toque de um se torna o toque do outro. A dor de um se converte na dor do outro. A alegria de um se confunde com a alegria do outro amado. Um só coração. Uma só alegria. Uma só dor. Uma única e mesma comunhão. Um só olhar.

       É assim o Amor e a Comunhão Trinitária. Sem perder as individualidades, o amor da Comunhão Trinitária une Pai, Filho e Espírito em uma só vida. O amor da Comunhão Trinitária não fica fechado nela mesma: ele extravasa em direção a toda a criação. Para nos comunicar melhor esse amor, o Verbo se fez carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. A compaixão – fazer seus a dor e o sofrimento alheio – foi a força do agir e do pregar de Jesus. Pela sua encarnação e humanização, Jesus fez-se nosso irmão, de acordo com o autor da Carta aos Hebreus. Ao irmanar-se com a nossa debilidade humana pela encarnação, o Verbo de Deus nos agraciou não apenas com a solução temporária da cura de uma doença ou de um mal psíquico, com a saciedade provisória possibilitada por um pedaço de pão e de peixe e por um gole de vinho, com a alegria efêmera da volta de Lázaro da morte para esta vida ainda mortal. Ele agraciou-nos com a solução definitiva da alegria da participação de todos no banquete da bem-aventurança eterna.

       Ressurreição: um abrir e um fechar de olhos. Fechamos os nossos olhos para esta forma de vida e os abrimos para a vida eterna. Nada mais, nada menos. Nem três dias, nem sete dias depois: toda a radical transformação pela qual todo o nosso ser irá passar em apenas um piscar de olhos. Radicalmente transformados pela ressurreição, seremos, radicalmente, nós mesmos. Ouviremos, então, aquele convite irrecusável: “Vinde, benditos de meu Pai! Tomai posse no Reino que foi para vós preparado!”. E, então, seremos lançados ao fogo do Amor Trinitário, que nos consumirá. Esse fogo será o responsável pela nossa transformação final. Como a metáfora da chama viva de amor, de São João da Cruz, que faz arder a lenha até transformá-la em brasa, não mais lenha e fogo, mas uma só coisa – a brasa – onde não é possível distinguir um do outro, assim seremos transformados até atingirmos a perfeição do Amor Trinitário. Alguns começam essa transformação ainda em vida e muito progridem nela. Outros, pouco caminharam nesse itinerário de transformação. Mas, para uns e outros, a mesma conformação final.

       À eternidade e à ressurreição chegaremos todos juntos. A vida eterna é, pelo seu próprio significado, atemporal. Eternidade não quer dizer algo que se prolonga indefinidamente em direção ao futuro. Eterno significa a suspensão e a ausência dessa realidade humana experimentada como tempo: um passado para trás, um presente diante dos nossos olhos e um futuro à nossa frente. A eternidade é atemporal. Isso significa que aquilo que experimentamos como um antes e um depois nesta presente forma de vida não é experienciado na vida eterna. Aqueles que partiram antes e aqueles que partirão depois chegam juntos à vida eterna com aqueles que partem agora. A ressurreição de Cristo é, simultaneamente, a ressurreição de todos aqueles que vieram a esta vida antes, juntos ou depois d’Ele. O fechar dos olhos de Jesus crucificado para esta vida e o abrir dos olhos do Cristo Jesus glorificado no seu retorno à Trindade é o fechar e o abrir dos olhos de toda a humanidade, que morre e ressuscita junto com Ele. A travessia é feita juntos, de mãos dadas com Jesus, feito nosso irmão pela sua encarnação, paixão, morte e ressurreição. Não é uma travessia solitária e fria, mas calorosa e conjunta com a multidão de toda a criação.

       Mas, e os ímpios?

       Pela travessia proporcionada pela morte, eles estarão reunidos e face a face com as suas vítimas. E receberão o veredicto final: o amor, a misericórdia e o perdão do próprio Deus e de todas as vítimas. Esse face a face dos algozes com as suas vítimas talvez provoque neles uma transformação ainda mais radical do que a ocorrida com os justos. Ou, talvez, provoque neles um fechamento definitivo: a vergonha autoimposta diante desse último e inesperado gesto das suas vítimas. Não a condenação e a rejeição, mas o perdão e a acolhida. Então, talvez, eles se afastem e caiam no frio e solitário vazio da vida que passa pela morte sem se completar no fogo e no crisol da ressurreição. E permanecerão no gelo de uma solidão eterna, sem princípio, sem fim, presente, sempre. Talvez seja assim. Mas, poderá alguém fechar-se à última e definitiva oferta do Amor de Deus e dos justos?

       Uma última palavra consola-me. Essa palavra vem escrita com o sobe e desce das notas de uma música em um pentagrama, as cinco linhas por onde caminha a gramática da música. Para os não entendidos, compreender a linguagem dos músicos expressa na partitura musical pode ser algo difícil. Mas, sorte nossa, mesmo que para ignorantes ou eruditos na arte da linguagem musical, o resultado da execução dessa gramática musical é facilmente acessível a todos. É que a música é algo que fala diretamente ao coração. Os seus acordes se adentram nas fissuras da nossa alma, provocando em nós diferentes sentimentos e reações. É uma compreensão direta, cordial, que não passa tanto pela intelectualização daquilo que chega a nós pela nossa percepção, como tanto prezava o guardador de rebanhos e de palavras Alberto Caeiro. A palavra em forma de música que me consola é a seguinte:

       A essa melodia acrescenta-se a palavra cantada com a voz humana, que, por divina inspiração, assim afirmou no Livro do Apocalipse:

               Bem-aventurados entre os mortos
               Quem adormeceu no Senhor
               Repousar de suas fadigas vai
               Quem por Deus viveu no labor.

       É uma melodia que não esconde a dor que se instala com a morte. Mas, ao mesmo tempo, as notas nos sinalizam uma esperança, uma alegria serena ao fim de tudo. Suavidade é um dos nomes de Deus. E é isso o que a melodia nos comunica: a suavidade do morrer daqueles que adormecem em Cristo. Esse canto, cantado repetidas vezes pela voz humana ou pelo silêncio do nosso coração, converte-se em um acalanto que faz a nossa dor abrandar. Acalanto: aconchego, carícia, afago, cantiga para embalar. Adormecidos por este acalanto, sonhamos com a nossa infância, quando fomos maternalmente e paternalmente embalados nos braços de nossos pais. Nesses colos seguros adormecemos tantas vezes. Agora, é o próprio Deus quem nos toma em seus braços e nos embala em nossa dor, pedindo de nós o abrir dos nossos olhos para esta verdade definitiva: são bem-aventurados entre os mortos aqueles que adormeceram no Senhor, pois irão repousar de suas fadigas, quem por Deus viveu no labor do seu Reino.



       E é isso, minha cara Ana Cláudia, um pouco da verdade em que acredito e pela qual eu vivo. Mas, em se tratando da vida após a morte, tudo o que dissermos pode estar distante daquilo que é e que se revelará plenamente a nós algum dia. Não erramos, porém, quando afirmamos o Amor entranhado de Deus por nós, que nos consumirá e nos transformará definitivamente, um dia, ao fecharmos os nossos olhos para esta vida...

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