A SOLIDÃO, A BELEZA E O MISTÉRIO.

on 01/05/2010






Caraça, Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Entre tantos títulos atribuídos àquela que gestou em seu ventre, carregou no seu regaço e amamentou no seu seio aquele por quem todo o cosmos foi criado, no Caraça ela é venerada como “Mãe dos Homens”, mãe da humanidade. Foi sob essa invocação que Irmão Lourenço, o ermitão e irmão franciscano fundador do Santuário do Caraça, em Minas Gerais, colocou a proteção desse importante santuário na história da Igreja do Brasil. Visitar esse santuário é sempre uma experiência revigorante. Em primeiro lugar, graças ao ecossistema que compõe a Reserva Particular de Patrimônio Natural que circunda uma grande área em volta da sede do santuário. Em meio às montanhas, às rochas, à mata e às cachoeiras, conseguimos reencontrar a inteireza e a serenidade por vezes esquecidas no quotidiano de nossa vida. Em segundo lugar, graças ao templo neogótico no centro do complexo de edificações que compõem a sede do santuário. Infelizmente, é necessário dizê-lo: em não poucos templos católicos sentimos a vontade de sair deles para podermos rezar. Não encontramos neles o ambiente de silêncio, de beleza e de mistério pelos quais ansiamos. No templo do Caraça, felizmente, ocorre exatamente o contrário. Ao nos adentrarmos no seu interior, feito de pedra e de vidro, respiramos silêncio e sacralidade: Deus habita esse lugar. A pedra talhada, usada no pórtico de entrada, nas colunas e na ornamentação do templo, nos faz pensar: se mãos humanas conseguem extrair tamanha beleza de material tão bruto, não poderá fazer o mesmo Deus conosco? Os vitrais das janelas e das rosáceas dão leveza à pedra usada na sustentação e na ornamentação do templo.


Sozinhos no interior desse templo, a invocação a Maria como “Mãe da Humanidade” ressoa em nossa oração. O cristianismo, antes de ser uma experiência religiosa que nos eleva aos céus, é um caminho religioso que nos atira à terra, ao quotidiano da nossa vida. Deus, quando quis nos salvar, não nos levou para junto dele, mas fez o caminho inverso: desceu à nossa humanidade, veio ao encontro da nossa humana realidade, com tudo aquilo que ela tem de grandioso e de mesquinho, para somente então, com a sua ressurreição, introduzir a nossa humanidade na comunhão trinitária. O Verbo de Deus encarnado no ventre de Maria é o humano por excelência. Nele não habitou o pecado, pois o pecado é justamente aquilo que nos desumaniza. Pecar não é humano. Pecar é desumano. E se Jesus é o humano por excelência e ele é o caminho que nos conduz a Deus, não há salvação fora da nossa humanização.


Ao assumir a nossa condição humana, Jesus assumiu uma realidade que carregamos ao longo da nossa existência: a solidão. Criados à imagem e semelhança de Deus Trindade, de Deus Comunhão, estaremos inquietos enquanto não estivermos plenamente mergulhados na comunhão desse Amor Trinitário. A solidão humana não é o vazio de uma ausência, mas a saudade e o desejo de uma comunhão apenas timidamente experienciada nesta nossa presente realidade. Como Teilhard de Chardin, em sua “Missa no Altar do Mundo”, elevamos a Deus a nossa súplica: Senhor, fazei-nos um!


Na vivência da sua solidão, Jesus estabeleceu o seu relacionamento único com o Pai, transformando a sua solidão em oração profunda e comunhão com o Pai. Nesses momentos de solidão, Jesus encontrou a força e o discernimento necessários à sua missão e ao enfrentamento dos conflitos decorrentes da sua pregação e da sua prática. Finalmente, no alto da cruz, Jesus precisou enfrentar a solidão derradeira de um aparente abandono.


Neste oceano de solidão em que navegamos, enquanto não chegamos ao porto seguro do nosso destino final, experienciamos breves paragens, pequenos ancoradouros onde atracamos o barco da nossa existência e do nosso navegar. Aí repousamos e nos reabastecemos para, logo em seguida, prosseguirmos viagem. Esses breves momentos de descanso e de ancoragem são os encontros que a vida nos proporciona de maneira gratuita. É a graça. Essa graça se manifesta no encontro e no estabelecimento de amizades duradouras. Manifesta-se quando, sozinhos, contemplamos o ocaso do sol ao entardecer. Manifesta-se quando a beleza e a simplicidade do espaço, do canto e da ação litúrgica nos introduzem no mistério no qual estaremos plenamente mergulhados um dia. Manifesta-se quando, no pináculo de uma montanha, fazemos a experiência da nossa própria fragilidade e da fragilidade do ecossistema à nossa volta.


Mas, com brevidade, toda essa graça se esvai. Deixamos o Caraça. Despedimo-nos dos amigos. O sol finaliza o seu ocaso e vem a noite. A ação litúrgica é concluída e regressamos ao nosso quotidiano. Descemos a montanha. Desamarramos nossa existência desses portos seguros e retomamos nossa viagem. Regressamos ao oceano. Mas, voltamos transformados. A certeza da amizade mantém aquecido nosso coração. O mistério vivenciado na ação litúrgica educa o nosso olhar para percebermos esse mesmo mistério de amor e de bondade em meio ao quotidiano e à iniquidade da comunidade humana. A experiência de comunhão com o ecossistema e a sua fragilidade despertam em nós o desejo de cuidado para com a nossa casa terrestre. O sol findando a sua jornada diária no horizonte nos recorda o nosso destino final.


Ao entardecer, o sol abranda o seu fulgor. O azul límpido e intenso do céu no cume da montanha cede lugar à tonalidade ocra-avermelhada do sol. O sol, antes de uma intensidade que nos impedia de contemplá-lo diretamente, cessa o seu fulgor e nos concede a graça de podermos contemplá-lo diretamente sem ferir o nosso olhar. Vagarosamente, ele toca a linha do horizonte, até desaparecer por completo. Também nós, no entardecer da nossa vida, estaremos face a face com o sol da nossa existência. A intensidade do Amor Trinitário não mais será incômoda à nossa presente fragilidade. Poderemos, finalmente, ficar face a face com Deus, extasiados pela beleza desse amor que nos é oferecido em toda a sua plenitude. Saberemos, então, que chegamos, finalmente, ao nosso destino final. Guiados por esse amor, cruzaremos a linha do horizonte. E lá, para além da realidade desta presente existência, reencontraremos as pessoas amadas que nos antecederam nesse cruzar de horizontes. E aguardaremos, com ansiosa serenidade, a chegada de todos os conhecidos dos portos onde atracamos para podermos viver, todos juntos, aquilo que nesta vida vivemos como mistério, mas que, além do horizonte, é uma realidade de amor e de comunhão plenos.

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