E LIVRAI-NOS DO MAU HUMOR

on 19/04/2009



É inevitável: todos nós temos os nossos conselhos a dar a Deus. O Pedro Malasarte, personagem brasileiro com raízes no século XIX e primo distante de Macunaíma, também tinha lá os seus conselhos para o Criador. Conta-se que um dia em que ele se encontrava a sonecar debaixo de uma jabuticabeira, pensou com os seus botões: "Fosse eu o Criador do Mundo, faria as coisas diferentes. Onde já se viu uma árvore frondosa como essa jabuticabeira a dar frutos tão pequeninos como esses, ao passo que estas enormes abóboras aqui perto rastejam pelo chão presas a esses caules frágeis? Pois eu colocaria as abóboras a nascer no tronco da jabuticabeira e as jabuticabas a rastejar pelo chão na aboboreira." Pois mal terminou de falar, uma jabuticaba desprendeu-se do tronco e caiu-lhe sobre o nariz. Foi o suficiente para ele mudar de idéia. Fosse uma abóbora a cair-lhe sobre a cabeça e ele encontrar-se-ia em apuros. A experiência de uma abóbora a cair sobre a própria cabeça pode ser um acontecimento raro, mas já aconteceu. Pela dor que eu senti, não o desejo a ninguém.


Assim, cada um de nós está pronto para partilhar com o Criador, caso seja solicitado, um pouco da sua própria sabedoria, oferecendo-lhe conselhos muito úteis para que o mundo seja um pouco melhor. Para uns, o pôr-do-sol no horizonte demorar-se-ia um pouquinho mais, dada a sua beleza. Os amantes de pêssegos - a fruta mais sensual que existe - desejariam que os pessegueiros dessem fruto durante todo o ano. Para outros, não haveria guerras ou fome no mundo. Outros ainda estão prontamente dispostos a oferecer ao Criador uma lista de pessoas que deveriam partir imediatamente para a vida eterna em troca de outras que deveriam ter ficado.


Eu também tenho cá os meus conselhos. Simples e modestos, reconheço, mas de grande alcance. Um deles partilho com você, leitor e leitora amigos. Se eu fosse Jesus, no momento de ensinar aos discípulos a rezar o Pai-nosso, eu teria acrescentado uma petição final. Após o "…mas livrai-nos do mal", eu acrescentaria: "e do mau humor".


Não ria, falo com seriedade. Você consegue imaginar como o mundo hoje seria melhor se umas boas dúzias de pessoas responsáveis pela condução das nossas políticas e economias vivessem com um pouquinho de bom humor ao invés do azedume quotidiano? Se Hitler tivesse sido uma pessoa bem-humorada, ele não teria sido o bárbaro que foi. Já pararam para pensar que um dos momentos de maior fecundidade evangélica da nossa Igreja deu-se durante o pontificado de João XXIII, um papa bom e bem-humorado, que trouxe à nossa Igreja a coragem e a frescura dos tempos primitivos?


A eficácia de minha petição reside no fato de que o humor é a outra face da bondade. Alguém já definiu muito bem: humor, amor com h. E se Deus é amor, então Deus é também humor. Se o amor não é apenas mais um atributo de Deus, mas o próprio Deus na sua essência, então Deus também é essencialmente humor.


Outra pessoa já afirmou: o homem pensa, Deus ri. Não desejo com isso parecer leviano com o próprio Deus. Escrevo com seriedade e com serenidade. E se na minha busca me torno leviano momentaneamente, o bom Deus, na sua misericórdia, ri-se serenamente da minha leviandade. O leitor e leitora amigos alguma vez já conseguiram flagrar o sorriso sereno e confiante no rosto do pai ou da mãe ao verem os erros dos seus filhos e ao saberem que, mais cedo ou mais tarde, o filho aprenderá com as lições que a vida lhe fornece, ainda que isso lhes cause sofrimento? Penso que com Deus se passa algo parecido. Diante dos desvios pelos quais a humanidade caminha, Deus sorri serenamente, sorriso que brota da certeza de que ao fim e ao cabo todos os caminhos levam a Ele: impossível fugir em direção oposta.


É certo que Deus também sofre com nossos descaminhos. Além do mais, a imagem de Deus que emerge do Antigo Testamento não é lá das mais simpáticas. Volta e meia encontramos um Deus encolerizado, irado, aborrecido com a dureza de coração do povo que ele havia reservado para si. E pode-se esperar outra imagem de Deus proveniente da cultura patriarcal do Oriente Médio? Mas Jesus começa a operar uma mudança na imagem de Deus. Sai de cena o Deus de cara fechada e mal-humorado, o contabilista das leis que o homem cumpria ou deixava de cumprir. Entra em cena um Deus próximo, amoroso, paizinho, que abraça como o pai misericordioso da parábola, que carrega a ovelha ferida aos ombros, que faz festa pela moeda reencontrada e que sacia a fome de seu povo com palavras e com pão.


Há rumores de um pergaminho apócrifo, contemporâneo dos primeiros escritos neotestamentários, que conta a história bem-humorada a respeito da multiplicação dos dois pães e dois peixes, narrada de forma mais ortodoxa nos evangelhos. Conta-se que, quando Jesus perguntou o que havia disponível para alimentar toda aquela multidão, lhe apresentaram três pães e três peixes. Um dos discípulos, porém - Pedro? o pergaminho não precisa o nome - subtraiu egoisticamente um pão e um peixe somente para si, com medo de ficar sem ter que comer. Mas, bastou Jesus pronunciar a bênção para que não apenas os dois pães e os dois peixes que estavam consigo se multiplicassem milagrosamente, mas também aqueles que haviam sido subtraídos pelo discípulo, que se viu de repente diante de um enorme monte de peixes e de pães a denunciar-lhe o egoísmo. Tentem imaginar a cena e a cara do infeliz discípulo.


E por falar em comida, é importante lembrar que o bom humor tem as suas raízes no estômago, enquanto o mau humor tem as suas raízes na doença. Condição essencial para o bom humor é o estômago satisfeito. A fome dificilmente é companheira do bom humor. Tampouco a violência, a guerra e a injustiça. Por isso, o bom humor não dispensa a ira, a indignação e a luta por um mundo melhor e mais bem-humorado. É que o bom humor é evangelizador: impossível experimentá-lo sem desejar que outros o façam.


O mau humor, por sua vez, alimenta-se de nossas doenças. As nossas doenças, por sua vez, são alimentadas pelo nosso mau humor, fechando-se assim o círculo vicioso. O sintoma do resfriado a seguir ao nariz entupido e aos espirros é a perda do humor. A dor também nos rouba o humor e a inteireza. Coisa estúpida: basta ferirmos suficientemente um dedo de um pé para deixarmos de ser nós mesmos, com toda a nossa carga de intelecto, afetos, sentimentos nobres e pulsão pela vida e nos convertermos num mísero dedo do pé que reclama toda a nossa atenção para si. Mas há também um outro tipo de doença que alimenta o mau humor: as fendas na nossa personalidade. Há pessoas que vivem num eterno azedume, povoadas de enxaquecas, dores pelo corpo e mal-estar constante. Você já conheceu um hipocondríaco bem-humorado?


E se o mau humor alimenta doenças, o bom humor ajuda a curá-las. E mesmo para aquelas enfermidades para as quais não há cura, resta-nos uma última esperança, a esperança de partir com um sorriso no rosto, testemunho silencioso e mudo de quem diz: meu caro, a vida é bonita e vale a pena. É pedir muito?

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