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«Jesus Caritas»: com essa afirmação singela e profunda, resumo da sua própria vida, Charles de Foucauld assinava as suas cartas.
No filme «Agnes de Deus», ambientado em um mosteiro feminino no Canadá, a abadessa do mosteiro desabafa com a psicóloga interpretada por Jane Fonda: “Nos nossos dias, há muitas pessoas boas no mundo. Entretanto, pessoas excepcionalmente boas…” As reticências da abadessa deixavam transparecer uma nostalgia e um desejo de presença de pessoas excepcionalmente boas no nosso meio: os santos. Nós, que vivemos neste tempo conturbado, temos necessidade, mais do que nunca, de pessoas que, com a sua vida, nos mostrem o caminho a seguir, que sejam como luz na noite escura do mundo e que despertem em nós a saudade da casa paterna-materna de Deus. Charles de Foucauld ou, simplesmente, o Irmãozinho Carlos, é uma dessas pessoas.
Em meio a tantos outros testemunhos de santidade, a vida do Irmãozinho Carlos deve ser colocada ao lado de figuras do porte de Francisco de Assis ou Madre Teresa de Calcutá: pessoas que levaram o seu testemunho cristão e a sua comunhão com Deus a um grau muito acima da média dos demais santos.
Nascido numa rica família francesa em 1858, o Irmão Carlos atravessou uma vida inquieta e desregrada enquanto fez parte do exército francês. A sua vida começou a mudar quando empreendeu expedições exploratórias clandestinas pelo deserto do Marrocos. O deserto e o contato com a fé dos muçulmanos foram o início de um caminho de busca interior que o levaram a tornar-se monge trapista, uma das ordens monásticas mais austeras da Igreja. Mas, mesmo a austeridade do Mosteiro Trapista na Síria não foi suficiente para domar o fogo que ardia no coração do Irmão Carlos. Desejando seguir os mesmos passos de Jesus, ele deixou o Mosteiro Trapista em direção a Nazaré, o lugar onde Jesus viveu com seus pais a sua infância e a sua preparação para a sua missão. Pouco tempo depois, querendo ocupar o penúltimo lugar no meio dos homens – impossível desejar o último lugar, ocupado definitivamente por Jesus –, regressou ao deserto argelino em 1901 e foi viver no meio dos Tuaregues, tribo de nômades do deserto. No meio desse povo, o Irmão Carlos viveu até ser assassinado, em um ataque no ano de 1916.
Durante todo o seu tempo de solidão no deserto, o Irmão Carlos fez planos para uma vida comunitária com outros companheiros que desejassem viver o mesmo ideal de oração silenciosa, de adoração eucarística e presença fraterna no meio dos muçulmanos no deserto. Esses irmãos tão desejados e esperados pelo Irmão Carlos, entretanto, jamais chegaram. Com a sua morte, a sua vida parece ter sido um imenso fracasso: morreu solitário, sem fazer conversões no meio dos muçulmanos e sem ver nascer o projeto de criar uma fraternidade de oração no deserto. Como alguém já disse, o sucesso não é um dos nomes de Deus.
Um pequeno milagre, entretanto, começou a acontecer depois da sua morte: os seus escritos espirituais foram publicados na França e um pequeno grupo de jovens começou a se reunir em torno da sua espiritualidade. Esse pequeno grupo regressou ao deserto e, nos mesmos eremitérios erguidos pelo Irmãozinho Carlos, deram início, postumamente, à fraternidade de oração tão desejada por ele.
O último capítulo dessa «legenda» aconteceu quando os seguidores do Irmão Carlos, depois de discernirem a sua intuição fundamental – ser uma presença fraterna no meio das pessoas e grupos mais esquecidos, serem os últimos no meio dos últimos –, deixaram os eremitérios na Argélia e se espalharam pelo mundo, levando uma vida de contemplação silenciosa nos lugares mais improváveis para uma ordem de vocação contemplativa: na Favela da Mangueira, no Rio de Janeiro, no meio dos pescadores e ciganos, dentro de presídios, nas estradas junto com os peregrinos, no meio dos grupos empobrecidos dos países dos hemisférios norte e sul. Junto com essas pessoas com quem convivem, levam o mesmo estilo de vida: no trabalho assalariado nas fábricas, na moradia, nas alegrias e nas dores dos empobrecidos.
Podemos nos perguntar o que uma ordem religiosa, nascida no meio da solidão e da austeridade do deserto há cem anos, pode trazer de luz para nós hoje, filhos da tecnologia, do barulho e da cidade.
A primeira grande intuição do Irmão Carlos diz respeito ao mistério da Encarnação da Palavra de Deus no meio da humanidade: o Verbo se fez carne no seio de Maria, aprendeu a ganhar a vida como carpinteiro na oficina de José e veio habitar no meio de nós, numa obscura aldeia chamada Nazaré, perdida na periferia do Império Romano. Acostumados com os relatos dos grandes milagres e da pregação de Jesus, quase nos esquecemos dessa dimensão «oculta» da sua vida. Mas, se a morte de Jesus nos salva, é porque a sua morte foi conseqüência da sua vida, dos seus gestos e palavras, da sua revelação do verdadeiro rosto de Deus. Por isso, também a vida de Jesus nos salva. Não somente os três últimos anos da sua vida, mas toda a sua vida, desde o momento da sua Encarnação, passando pela sua vida oculta em Nazaré, é salvação. A grande lição de Nazaré trazida à tona com toda a força pela vida do Irmão Carlos é que a salvação acontece no quotidiano da nossa vida, na nossa labuta por pão, em meio aos pequenos gestos de fraternidade. E, não menos importante, a salvação principia lá onde ela parece não existir: no meio dos mais esquecidos e abandonados. Num mundo cada vez mais excludente, essa é uma grande luz.
A segunda grande luz que a mística do Irmão Carlos traz para a nossa vida é fazer-nos lembrar que há em nós um arquétipo que não pode ser ignorado: o deserto. O arquétipo do deserto, que habita as profundezas do nosso inconsciente coletivo, é o que nos faz, vez por outra, ter saudades da solidão e do vazio. Essa não é uma nostalgia exclusiva dos místicos e dos solitários. Todos nós a temos em diferentes graus, da mesma forma que a abafamos de diferentes maneiras. Os arquétipos não têm fronteiras culturais: são uma herança comum dos seres humanos. Na superfície, podem assumir diferentes roupagens culturais e sociais. Mas, nas profundezas, é o único e mesmo rio subterrâneo que alimenta as fontes de água na superfície. Abafar essa aspiração do espírito humano pode ser fonte de sérios desajustes na nossa personalidade. Nas periferias dos centros urbanos ou em outras periferias do mundo, os irmãozinhos e as irmãzinhas seguidores da mística do Irmão Carlos nos fazem recordar a necessária reconciliação com o silêncio e com o vazio interior, para que se estabeleça a comunhão com o Sagrado que nos envolve e com as pessoas que nos rodeiam.
A terceira grande luz que os irmãozinhos e irmãzinhas de Carlos de Foulcauld trazem para nós hoje, que vivemos num mundo de crescente violência, é fazer-nos lembrar da delicadeza e da cordialidade que Deus utiliza no seu diálogo conosco. Nisso, mais uma vez, o Irmão Carlos, do deserto em Tamanrasset, se assemelha ao Irmão Francisco, da cidadezinha de Assis. A vida de Francisco de Assis é marcada por gestos de cordialidade e de ternura para com todas as criaturas, homens e mulheres que com ele conviveram. Numa noite de rigoroso jejum em que ele e os seus primeiros companheiros dormiam amontoados num exíguo espaço, um dos frades acordou e manifestou a Francisco – aos gritos, dizem as fontes franciscanas – que ele estava a morrer de fome e que o jejum era, naquele momento, demasiado. Com um dos gestos de delicadeza que é a marca característica dos santos, Francisco acordou todos os demais irmãos, apanhou o pouco de pão que havia disponível e partilhou-o com todos, para que o irmão que padecia de fome não se sentisse envergonhado por comê-lo sozinho na frente dos demais.
Um dos escritos do Irmão Carlos deixa transparecer esse mesmo espírito: «Nós nos esforçamos para ter uma infinita delicadeza em nossa caridade; não nos limitamos aos grandes serviços, mas cultivamos aquela terna delicadeza capaz de cuidar dos detalhes e que sabe derramar, com gestos de nada, uma montanha de bálsamo nos corações. ‘Dai-lhes de comer’: diz Jesus. Da mesma forma nós, com aqueles que vivem ao nosso lado, entramos nos pequenos detalhes de sua saúde, de sua consolação, de suas orações, de suas necessidades: consolamos, damos alívio com as atenções mais diminutas; para com aqueles que Deus põe ao nosso lado esforçamo-nos por ter aquelas ternas, delicadas, pequenas atenções que teriam entre si dois irmãos cheios de delicadeza, e mães cheias de ternura por seus filhos.»
Olhando para essas grandes figuras do cristianismo, reaviva-se em nós a aspiração de termos o nosso espírito pacificado como eles o tiveram, bem como o desejo de nos reconciliarmos com todos os nossos demônios. À distância, olhando para Francisco de Assis e para o Irmão Carlos, é difícil não sentirmos saudades de Deus.
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