O RABO DA PORCA

on 02/10/2011

 




“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer.”

Guimarães Rosa


Gratuidade e reciprocidade, duas realidades aparentemente inconciliáveis. Quando uma entra em cena, a outra deixa o tablado. A gratuidade é via de mão única em direção ao outro. A reciprocidade trafega em estrada de mão dupla. O amor é o transeunte dessas duas vias. Trafega ora em uma, ora em outra via, em uma tensão permanente.


Na dinâmica dos relacionamentos humanos, a reciprocidade tem predominância. Desde cedo fomos condicionados (ao mesmo tempo em que condicionávamos nossos pais) nessa dinâmica de dar e receber algo em troca: estripulias por palmadas na bunda, bom comportamento por um brinquedo, boas notas por passeio. Crescemos e as nossas necessidades e desejos tornam-se mais sofisticados: afeto, diálogo, encontro, escuta, ombro amigo. A expectativa por sermos atendidos nesses novos desejos é transportada do núcleo familiar para o círculo de amizades e de outras formas de relacionamentos, como o namoro e o casamento. Neste ponto, a porca torce o rabo.


Primeiro, porque, se a reciprocidade tem predominância nos relacionamentos, a gratuidade deve ter primazia. Um amor que não seja gratuito, qualquer que seja o relacionamento em questão - familiar, de amizade, namoro, casamento - não se sustenta. Relacionamentos baseados predominantemente na reciprocidade podem até subsistir em sua aparência ou formalidade. Entretanto, correm o risco de carregar não o calor do amor e do afeto, mas a frieza da indiferença e da formalidade.


Segundo, porque ainda que o outro responda a um gesto ou sentimento nosso, essa resposta nunca será satisfatória. As medidas de um nunca serão do mesmo tamanho das medidas do outro. Haverá uma discrepância por deficiência ou por excesso naquilo que se recebe de volta. Algumas vezes, uma diferença grande. Outras, pequena.


Em terceiro lugar, porque a gratuidade em seu estado puro é algo demasiadamente elevado para a nossa condição tão humana de amar. Por detrás do gesto mais altruísta e gratuito há um latente e silencioso desejo de algo em troca. Para exemplificar apenas com um caso extremo, aquele que deu a sua vida pela vida de outro em um campo de concentração, fê-lo, em última instância, pela fé e pela certeza de uma bem-aventurança na eternidade. Não se trata de algo bom ou ruim. Trata-se apenas de uma constatação de uma realidade dos nossos relacionamentos.


Se a gratuidade deve ter primazia nos relacionamentos, ao mesmo tempo em que ela é algo por demais distante, qual é o segredo da permanência, por anos a fio, de relacionamentos de amizade intensa ou de uma vida matrimonial viva? Quais são as possíveis razões para que uma amizade ou um casamento sejam mantidos vivos e acesos ao longo dos anos? E, de maneira inversa, quais são os motivos para que tais relacionamentos findem de maneira silenciosa ou ruidosa? Talvez uma das respostas esteja em um sadio equilíbrio (ou na falta dele) entre gratuidade e reciprocidade.


Para nos atermos apenas ao âmbito da amizade, é natural dela, como canta Renato Teixeira, o abraço, o aperto de mão, o sorriso, o saber entender o silêncio e manter a presença, mesmo quando ausente. É a natural alegria do contato periódico, ainda que demorado para se realizar. É a alegria antecipada do principezinho do Exupéry quando o amigo anuncia que está para chegar. É a pergunta serena do amigo: como vai você? Guimarães Rosa definiu-o bem em Grande sertão: veredas:


Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.


É engraçado como uma amizade gratuita tem justamente a capacidade de despertar gestos mútuos de reciprocidade, que acontecem com naturalidade, sem cobranças. Neste ponto, a gratuidade e a reciprocidade dão-se a as mãos. O coração sabe de uma maneira intuitiva quando isso acontece. Sabe que, mesmo no silêncio e na ausência do amigo, a amizade permanece acesa sob as cinzas. Mas, sabe, também, quando a amizade finda ou está a caminho de findar.


Talvez a grande lição a aprender de uma amizade que finda seja justamente esta: guardar no coração o bem operado em nós pela amizade que findou. E continuar sendo feliz. Simples assim.