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Cada morte é uma inexperiência única. Depois de passar uma, duas, três vezes pela experiência de ver partir pessoas que amamos, acreditamos que, na próxima vez, estaremos melhor preparados. Triste ilusão. A irmã morte mostra sua face no rosto de mais uma pessoa que amamos e nos descobrimos tão inexperientes e despreparados neste assunto como da primeira vez, talvez até pior. É que, se as pessoas são únicas, também é único o amor que devotamos a cada uma delas e também é única a dor que advém nesses momentos. Mas, lá estão a mesma sensação de palavras de ternura não ditas atravessadas na garganta e a vertigem do vazio momentâneo que se cria no nosso interior.
Nenhuma outra realidade marca com maior força a existência humana que a morte. É certo que a morte, o fim da existência tal qual a conhecemos, marca toda a criação. A árvore colossal definha pouco a pouco, assiste a suas folhas misturarem-se ao solo para gerarem nova vida. As nuvens carregadas morrem no ar, desfazem-se em chuva sobre a terra, ora gerando vida, ora gerando mais mortes. Também o cosmos participa dessa implacável dinâmica de vida e morte. As estrelas e as galáxias, em um ritmo próprio à sua grandiosidade, formam-se, brilham, geram vida, consomem-se e morrem. Assim, toda a criação, e a humanidade como parte dela, torna-se solidária naquilo que lhe é comum: a morte.
Mas, não nos enganemos. O ser humano é o único a enfrentar sua existência com uma dupla característica: a consciência da própria morte e a crença em alguma forma, ora mais, ora menos sofisticada, de continuidade pós-morte. E se em meio à sociedade humana há tantas formas distintas e desiguais de viver, a morte, embora comum a todos, é vivida também de formas distintas. Há morte agonizante e morte serena; morte matada e morte morrida; morte afrontada e morte exorcizada. Há também morte de velhice e morte de SIDA, morte hospitalar assistida e asséptica e morte severina, tão bem descrita nos versos de João Cabral de Melo Neto:
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)
Como aceitar que as palavras do poeta fiquem mudas, que o abraço caloroso do filho nos pais se torne gélido e que os santos não mais nos recordem que somos continuamente visitados pela bondade de Deus? A visita inesperada da morte somente aguça essa sensação de perplexidade. É que a irmã morte costuma ser uma senhora temperamental. Com alguns, ela trava um demorado diálogo. Para outros, entretanto, ela apenas oferece o seu apressado beijo na face e o seu curto imperativo: vem.
Eu já deveria estar um pouco mais amigado com a morte, com a minha própria e com a dos outros. Aqui em Moçambique, a morte parece ser o pão-nosso de cada dia, é o arroz com feijão dos brasileiros: duas vezes por dia, de domingo a domingo. À medida que vamos nos adentrando no dia-a-dia deste povo, damo-nos conta desta triste realidade. Recordo-me dos meus primeiros dias de recém-chegado à Beira. Da varanda da nossa casa, vi passar um cortejo de carros apinhados de pessoas amontoadas umas sobre as outras, todas a cantar, na língua local, um canto com melodia em forma de lamento. Era um funeral. Foi o primeiro de tantos outros que continuam a se suceder.
É triste notar a facilidade com que se morre aqui. Fora daqui morre-se de cancro, de enfarto, de acidente, de velhice. Aqui, morre-se por morrer. Jovens, pais, filhos, crianças, a morte colhe a todos indistintamente. No decurso natural da vida, os filhos enterram seus pais. Aqui, com freqüência, os pais enterram seus filhos. E existe tragédia maior na sociedade africana do que um pai enterrar um filho, onde o culto prestado pelos vivos aos seus antepassados assume um caráter central no meio dessa sociedade? A morte de um filho encerra a possibilidade de que o pai, após a sua morte, seja recordado pelos seus descendentes.
Neste ponto, proponho uma estratégia para acolher com serenidade o beijo da irmã morte na nossa própria face, quando essa hora chegar - ou seja, deste momento em diante: antes que a irmã morte nos beije em nosso rosto, beijemos nós a face da vida.
Beijar a vida significa amar todos aqueles que nos são confiados com toda a força do nosso entendimento e do nosso coração. Significa perceber o prenúncio da eternidade no pôr-do-sol da baía à nossa frente, sentir prazer em comer nos dias de festa e jejuar para serenar o irmão corpo no tempo oportuno. Beijar a vida significa a renúncia a perder o humor por causa de frivolidades. Para aqueles que amam a vida, o bom humor cede lugar à ira apenas quando ela se faz necessária.
Para uma vida que dá constantes sinais da sua fragilidade e brevidade (você já reparou nisso hoje?), não soa insensatez desperdiçarmos nossas energias e nosso humor com tantas frivolidades? Para os cristãos, de um modo especial, que têm consciência da grandiosidade da sua vocação e da sua meta - a própria vida em Deus - tudo o mais se torna relativo quando confrontado com Deus mesmo e com tudo aquilo que, verdadeiramente, coloca resistência ao pleno desabrochamento do Reino em nosso meio.
Quebram-se os vidros do vitral. Mas, em nossa memória e em nosso coração, permanecerão as imagens coloridas e únicas que conseguiram traduzir de maneira harmoniosa tudo aquilo que se diz de bom a respeito de Deus: "...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." *
* Miguel Sousa Tavares (Escritor português, a propósito da perda de sua Mãe, a escritora e poetisa Sophia de Mello-Breyner)
Nenhuma outra realidade marca com maior força a existência humana que a morte. É certo que a morte, o fim da existência tal qual a conhecemos, marca toda a criação. A árvore colossal definha pouco a pouco, assiste a suas folhas misturarem-se ao solo para gerarem nova vida. As nuvens carregadas morrem no ar, desfazem-se em chuva sobre a terra, ora gerando vida, ora gerando mais mortes. Também o cosmos participa dessa implacável dinâmica de vida e morte. As estrelas e as galáxias, em um ritmo próprio à sua grandiosidade, formam-se, brilham, geram vida, consomem-se e morrem. Assim, toda a criação, e a humanidade como parte dela, torna-se solidária naquilo que lhe é comum: a morte.
Mas, não nos enganemos. O ser humano é o único a enfrentar sua existência com uma dupla característica: a consciência da própria morte e a crença em alguma forma, ora mais, ora menos sofisticada, de continuidade pós-morte. E se em meio à sociedade humana há tantas formas distintas e desiguais de viver, a morte, embora comum a todos, é vivida também de formas distintas. Há morte agonizante e morte serena; morte matada e morte morrida; morte afrontada e morte exorcizada. Há também morte de velhice e morte de SIDA, morte hospitalar assistida e asséptica e morte severina, tão bem descrita nos versos de João Cabral de Melo Neto:
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)
Como aceitar que as palavras do poeta fiquem mudas, que o abraço caloroso do filho nos pais se torne gélido e que os santos não mais nos recordem que somos continuamente visitados pela bondade de Deus? A visita inesperada da morte somente aguça essa sensação de perplexidade. É que a irmã morte costuma ser uma senhora temperamental. Com alguns, ela trava um demorado diálogo. Para outros, entretanto, ela apenas oferece o seu apressado beijo na face e o seu curto imperativo: vem.
Eu já deveria estar um pouco mais amigado com a morte, com a minha própria e com a dos outros. Aqui em Moçambique, a morte parece ser o pão-nosso de cada dia, é o arroz com feijão dos brasileiros: duas vezes por dia, de domingo a domingo. À medida que vamos nos adentrando no dia-a-dia deste povo, damo-nos conta desta triste realidade. Recordo-me dos meus primeiros dias de recém-chegado à Beira. Da varanda da nossa casa, vi passar um cortejo de carros apinhados de pessoas amontoadas umas sobre as outras, todas a cantar, na língua local, um canto com melodia em forma de lamento. Era um funeral. Foi o primeiro de tantos outros que continuam a se suceder.
É triste notar a facilidade com que se morre aqui. Fora daqui morre-se de cancro, de enfarto, de acidente, de velhice. Aqui, morre-se por morrer. Jovens, pais, filhos, crianças, a morte colhe a todos indistintamente. No decurso natural da vida, os filhos enterram seus pais. Aqui, com freqüência, os pais enterram seus filhos. E existe tragédia maior na sociedade africana do que um pai enterrar um filho, onde o culto prestado pelos vivos aos seus antepassados assume um caráter central no meio dessa sociedade? A morte de um filho encerra a possibilidade de que o pai, após a sua morte, seja recordado pelos seus descendentes.
Neste ponto, proponho uma estratégia para acolher com serenidade o beijo da irmã morte na nossa própria face, quando essa hora chegar - ou seja, deste momento em diante: antes que a irmã morte nos beije em nosso rosto, beijemos nós a face da vida.
Beijar a vida significa amar todos aqueles que nos são confiados com toda a força do nosso entendimento e do nosso coração. Significa perceber o prenúncio da eternidade no pôr-do-sol da baía à nossa frente, sentir prazer em comer nos dias de festa e jejuar para serenar o irmão corpo no tempo oportuno. Beijar a vida significa a renúncia a perder o humor por causa de frivolidades. Para aqueles que amam a vida, o bom humor cede lugar à ira apenas quando ela se faz necessária.
Para uma vida que dá constantes sinais da sua fragilidade e brevidade (você já reparou nisso hoje?), não soa insensatez desperdiçarmos nossas energias e nosso humor com tantas frivolidades? Para os cristãos, de um modo especial, que têm consciência da grandiosidade da sua vocação e da sua meta - a própria vida em Deus - tudo o mais se torna relativo quando confrontado com Deus mesmo e com tudo aquilo que, verdadeiramente, coloca resistência ao pleno desabrochamento do Reino em nosso meio.
Quebram-se os vidros do vitral. Mas, em nossa memória e em nosso coração, permanecerão as imagens coloridas e únicas que conseguiram traduzir de maneira harmoniosa tudo aquilo que se diz de bom a respeito de Deus: "...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." *
* Miguel Sousa Tavares (Escritor português, a propósito da perda de sua Mãe, a escritora e poetisa Sophia de Mello-Breyner)

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