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Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
(Prece - Fernando Pessoa)
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
(Prece - Fernando Pessoa)
A solidão, novamente. Em meio à festa e ao riso, ela chega sorrateira, despretensiosa. Não pede licença: instala-se. Em alguns momentos, é companheira de caminhada. Noutros, é inquilina indesejada. Num e noutro caso, somos convidados a cessar o nosso canto e a obedecer o toque de recolher que chega junto com a noite: mais sós para sermos mais nós.
Em algumas situações, ela vem acompanhada de um mal-estar difuso, uma impaciência em relação a tudo e a todos, apatia. Sem motivos aparentes, os outros convertem-se em verdadeiros estorvos, motivando-nos a nos retrairmos mais e mais. Os limites alheios tornam-se cada vez mais insuportáveis. As amizades? Decepções. Momentos de pura graça vividos? Passado. A alegria e o riso? Retratos guardados na gaveta. No ar, fica a sensação de podermos contar apenas com nós mesmos. Quem está próximo a nós percebe a mudança. Eles bem que tentam ajudar. Mas, não há ajuda possível: somos apenas eu, a viola e Deus.
Neste ponto, corremos o risco de nos enganarmos na identificação da verdadeira raiz do problema. Não se trata tanto de retraimento causado pela convivência com os limites alheios, mas da incapacidade em sabermos lidar com esses mesmos limites, manifestados de maneiras diferentes, na nossa própria personalidade. Neste momento, a solidão pode ser o espaço necessário de aprendizado de convivência com nossos limites e, mais importante, de aprendizado de superação.
Saber conviver com a solidão não é tarefa fácil. Não é lição que se aprenda numa única manhã. É que a solidão é o palco de uma luta surda contra nossa própria natureza e contra Deus. Afinal, Ele é o primeiro a sair de cena, o primeiro a calar a sua voz. Nem mesmo n'Ele conseguimos encontrar a consolação e a presença desejadas. Juvenis no trato com Deus, esperneamos, gritamos, reclamamos atenção, amaldiçoamos. Em vão. Do outro lado, apenas o silêncio. Os sábios dizem que a sabedoria está em não lutar ou violentar a própria natureza, afinal, quer queiramos ou não, somos continuamente carregados pela bondade silenciosa de Deus. A sabedoria, entretanto, é prato que se sorve somente após longos anos de caminhada, não é prato que possa ser saboreado pelos neófitos.
Tempos difíceis.
……..
Entre os escritos de Francisco de Assis, há uma pequena carta que, talvez, seja a mais reveladora do espírito, da cordialidade e da psicologia do santo de Assis. A carta é a resposta de Francisco a uma interpelação de um dos ministros da Ordem naquela altura. O contexto em que a carta foi escrita pode ser facilmente apreendido pela carta do próprio Francisco. Um dos ministros da Ordem vê-se profundamente aborrecido pelos problemas provocados pelos seus próprios confrades e, também, por pessoas de fora dos conventos, que lhe causavam inúmeros transtornos. Diante de tais transtornos e aborrecimentos, o referido ministro deseja tão-somente afastar-se da convivência com os seus irmãos e permanecer isolado em silêncio e oração num dos vários eremitérios da Ordem. Aparentemente, nada mais louvável.
A resposta de Francisco a esse ministro, entretanto, vai numa direção oposta: "O melhor que te posso dizer em relação às dificuldades de tua alma é isto: Considera como uma graça tudo quanto dificultar o teu amor a Deus nosso Senhor, bem como as pessoas que te causam aborrecimentos, sejam irmãos ou gente de fora, mesmo que cheguem a te fazer violência." Continuando na mesma linha, Francisco exorta: "Ama aos que assim contra ti procedem, não exigindo deles outra coisa senão o que o Senhor Jesus te der. E justamente nisso deves amá-los, nem mesmo desejando que eles se tornem cristãos melhores."
Aqueles que amam conseguem entender o sentido profundo dessas palavras. No amor, sempre há transformação. O aprendizado do amor gratuito deixa marcas, molda o nosso olhar, transforma a nossa percepção da vida. Mas, é uma transformação natural, motivada pelo próprio ato de amarmos. Não amo aqueles que amo para que eles se tornem melhores ou mais semelhantes a mim, como é comum em muitos relacionamentos. Amo-os naquilo que são, nos seus limites e nas suas falhas. Esse amor desinteressado e gratuito, entretanto, não fecha os olhos aos limites do outro, da mesma forma que não nos deixa arredios diante das correções do outro feitas a nós. O amor verdadeiro cria o espaço de confiança onde as transformações são possíveis. O que Francisco pede ao seu irmão ministro é que ele exercite esse mesmo amor com as pessoas que ele ainda não consegue amar, nem mesmo minimamente, na esperança de que, de uma maneira natural, esse amor ajude a transformar o outro.
Diante dessa maneira de proceder e amar, Francisco conclui: "E isso te valha mais do que a vida em eremitério". Os eremitérios franciscanos, encravados nas rochas e montanhas da Itália, foram berços de grandes santos na Ordem Franciscana. Quando Francisco dizia que enfrentar as dificuldades da convivência fraterna era mais válido que a santificação no silêncio e mortificação dos eremitérios, ele sabia do que falava, pois ele mesmo passava longos períodos durante o ano em retiro nos eremitérios espalhados pela região da Úmbria.
E, finalmente, numa cordialidade e ternura que comove a todos quanto lêem esta carta, ele diz: "Não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a não poder mais, que, após ver os teus olhos, se sinta talvez obrigado a sair de tua presença sem obter misericórdia se misericórdia buscou. E se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se não na quer receber. E se depois disto ele se apresentar ainda mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, procurando conquistá-lo para o Senhor."
……..
Ser seguidor de Francisco de Assis significa enfrentar o desafio de conviver e amar pessoas diferentes (muito diferentes…) de si próprio. Não é uma tarefa fácil (não tem sido desde o início, como bem demonstra a carta de Francisco). Entre as pessoas reunidas por Jesus à sua volta, havia um zelote e um cobrador de impostos. Alguém que conheça o ambiente e a cultura judaica daquele tempo consegue imaginar uma combinação mais explosiva? Entretanto, eles conseguiram renunciar às suas diferenças em nome de algo maior. E é essa busca de um amor fraterno radical que nos marca como franciscanos.
Tenho trinta e cinco anos de idade. Em Divinópolis, tenho um irmão de noventa e oito anos. Ele tem a idade para ser o meu avô. Mas, não é o meu avô. É o meu irmão mais velho. Tenho, também, outros irmãos que já têm cabelos brancos, da mesma idade do meu pai e da minha mãe. Com meus pais, experiencio um amor e um respeito paterno e materno próprios. Com os meus irmãos de cabelos brancos, vivo relações horizontais de comunhão fraterna. É esse o lado saudável da vida franciscana.
O lado sombrio da nossa vida manifesta-se quando, apoderando-nos da graça que, despretensiosamente, nos foi concedida e que nos faz ser o que somos, tornamo-nos arrogantes, impacientes e aborrecidos com os outros à nossa volta. Nessas circunstâncias, desejamos tão simplesmente distância de tudo e de todos.
Quando tivermos aprendido, minimamente, a amar e a sermos misericordiosos como Francisco propõe na sua carta, a solidão dos eremitérios ou das estradas encontrará o seu sentido e a sua razão: a solidão se torna sinônimo de comunhão.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
(Prece - Fernando Pessoa)

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