Visitar Assis é uma experiência única. Roma é a cidade da imponência fria e suja dos seus mármores. Assis é a cidade das pedras nuas que falam da vida de Francisco, de Clara e dos seus primeiros companheiros. As pedras das ruas e dos lugares santos franciscanos ganham vida quando os mesmos são percorridos na companhia de quem comungamos uma visão de vida inaugurada por Francisco há 800 anos. É essa a verdadeira experiência de Assis: a experiência do dom e da presença do irmão ao nosso lado, a experiência da fraternidade. É a certeza de saber-se compreendido e acolhido naquilo que se é pelo outro. Mais, é o desejo comum de busca, de discernimento e de encarnar o Evangelho na complexidade do nosso tempo. Quando percebemos quão limitados somos nessa nossa busca sincera de vivência do Evangelho, prostrados ali diante do túmulo do Santo de Assis, nada mais nos resta a fazer a não ser balbuciar “miserere, frate” e viver, mais uma vez, a experiência do perdão e da reconciliação.
No pequeno lance de escada que dá acesso à cripta no subsolo da Basílica, bem em frente ao túmulo de Francisco, um pequeno nicho chama a atenção: nele repousam os restos mortais de Jacoba de Setesoli, nobre viúva romana, mulher com quem São Francisco nutria uma profunda amizade. Falecida em Assis em 1239, treze anos após Francisco, ela deixou disposto no seu testamento o desejo de ser sepultada em Santa Maria dos Anjos. Foi ela – e não Clara de Assis – quem ganhou o privilégio de, junto com Fr. Leão, Fr. Bernardo, Fr. Egídio e Fr. Rufino, velar o sono derradeiro de Francisco, repousando na mesma cripta para onde o santo foi transladado em 1230.
A amizade duradoura de Francisco com Jacoba de Setesoli chama a atenção quando conhecemos a disposição e as recomendações do santo em relação ao contato com as mulheres, fruto do contexto cultural do seu tempo e da disposição de Francisco de evitar qualquer situação embaraçosa envolvendo os frades e as mulheres, uma vez que, dado o estilo de vida itinerante, os mesmos não estavam “protegidos” pelas paredes de um claustro.
Quem conhece a ternura e a delicadeza do santo, bem como o seu relacionamento fraterno com Clara, pode ficar perplexo com a prudência que o mesmo recomendava sobre o relacionamento com as mulheres de uma maneira geral. Seus biógrafos nos informam que ele “mandava que se evitassem a todo custo as familiaridades com as mulheres” e que “quando falava com as mulheres, fazia-o em voz alta e clara, de modo a ser ouvido por todos”. Evitava olhá-las diretamente e chegou a dizer que se ele próprio, Francisco, “as olhasse no rosto não reconheceria senão duas apenas. De fato, de uma e outra conheço-lhes o rosto: das outras, não” (2C 112).
Se assim são as suas recomendações, como se explica essa rica relação e profunda amizade de Francisco e Jacoba, na casa de quem ele se hospedava quando se encontrava em Roma? Tomás de Celano nos diz que ela “tinha merecido o privilégio de uma particular afeição do santo Pai”(3C 37).
Na iminência da sua morte, ele ditou um pequeno bilhete e pediu que o mesmo fosse enviado urgentemente a Roma, para avisar a senhora Jacoba da proximidade da sua morte. Suas palavras a ela dirigidas vêm vazadas de uma ternura toda própria: “À senhora Jacoba, serva do Altíssimo, o pobre de Cristo, o irmão Francisco, saúda no Senhor, em união com o Espírito Santo. Sabes, estimada irmã, o Senhor, por sua graça, revelou-me que o fim da minha vida está próximo. Pelo que, se ainda me queres ver em vida, logo que recebas esta carta, apressa-te a vir a Santa Maria dos Anjos. Se não vieres até Sábado, já não me encontrarás vivo. Traz contigo um pano escuro, com o qual possas envolver o meu corpo, e cera para a sepultura. Peço também que me tragas aquele doce, que tu me preparavas, quando estava doente em Roma”. O pequeno bilhete não precisou de ser enviado. Naquele tipo de comunhão estreita que caracteriza as pessoas que se amam verdadeiramente, ela pressentiu em Roma a iminência da morte de seu irmão e pai, partindo imediatamente de Roma e chegando à Porciúncula quando se providenciava algum mensageiro para ir a Roma com o bilhete em mãos.
Foi grande a consolação de Francisco ao reencontrá-la. Depois de comer os doces que ela havia preparado, ela pôde ver, beijar e banhar com as próprias lágrimas os estigmas que o santo trazia no seu corpo. Diante daquela cena invulgar de proximidade de uma mulher com o corpo debilitado de Francisco, os seus irmãos não tiveram coragem de a afastar dos pés do santo. Ela permaneceu junto de Francisco até o dia em que o mesmo partiu para a casa do Pai, custeando as despesas do funeral e tomando parte no mesmo, juntamente com toda a sua comitiva.
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Que tipo de relacionamento estreito era esse vivido por Francisco e Jacoba? Diante de alguns relacionamentos complexos e conflituosos que mantemos com pessoas de fora das nossas fraternidades – homens, mulheres e mesmo famílias – quais são as pistas para um relacionamento maduro que podemos encontrar nessa amizade entre Francisco e Jacoba? Qual é o limite para a presença – muitas vezes espaçosa – de pessoas no interior das nossas fraternidades e da vida do frade em particular?
Um primeiro fato nos chama a atenção: Francisco considera Jacoba não uma pessoa de “fora” da fraternidade dos frades menores, mas, alguém de “dentro”, a ponto de chamá-la, com a ternura característica, de “Frei Jacoba”. Quando a nobre senhora chegou à Porciúncula, às vésperas da morte do santo, Francisco exclamou: “Bendito seja Deus, que nos trouxe até nós o nosso irmão Dona Jacoba! Abri-lhe já as portas e deixai-a passar, que para o nosso irmão Jacoba não existe a prescrição que proíbe a entrada aqui a mulheres” (3C 37).
Ser considerado alguém de “dentro” da fraternidade sem, no entanto, ser um frade, significa ser alguém que conhece e respeita a dinâmica da vida própria dos frades e que trilha, numa dinâmica de vida diferente, o mesmo caminho de perfeição evangélica. Em relação ao frade em particular, significa respeitá-lo e apoiá-lo na forma de vida abraçada por ele, fruto da mesma experiência de busca evangélica que marca um e outro. Em resumo, é alguém que, com a sua presença e relacionamento, enriquece de uma maneira saudável a vida do frade e não alguém que o subtrai à fraternidade. Essa é a verdadeira Frei Jacoba.
A equação com o sinal invertido é muito simples. De um lado situam-se as múltiplas carências que marcam o espírito humano: desejo de colo, de contato afetivo e corporal, de escuta, de diálogo, de compreensão, de elogios e outros tantos desejos que podem ser acrescentados à lista. Some-se a isso a realidade normalmente fria e mesmo conflituosa dos relacionamentos no interior das nossas fraternidades, bem como a inevitável experiência de solidão que cada um de nós carrega dentro do peito e a equação está montada, cujo resultado já é conhecido de muitos.
Quando a presença de pessoas estranhas à Ordem na vida de um frade ou da fraternidade torna-se conflituosa, facilmente nos esquecemos de um detalhe trivial: as pessoas ocupam na nossa vida o espaço que permitimos que elas ocupem. Há um jogo de cumplicidade que se joga, de carências e fragilidades mútuas que se encaixam.
Todas essas carências estão presentes na nossa vida, sem que delas possamos emitir um juízo moral. Não se trata de opção carregá-las ou não. As nossas opções situam-se no nível de, a partir dessas carências, tecer relacionamentos maduros que não criem dependências mútuas, a exemplo dos relacionamentos estabelecidos por Jesus.
Pensemos na fragilidade humana dos cegos, coxos e pecadores que travaram contato com Jesus. Não é difícil imaginar como uma personalidade carismática e forte como a de Jesus poderia provocar uma relação de dependência nessas pessoas, principalmente com o ato de cura operado nelas. É interessante notar o refrão repetido por Jesus após tais cenas de cura: “Vai, a tua fé te salvou”, que poderíamos interpretar também como “a tua fé te curou”. É algo que as pessoas carregam dentro de si mesmas que as torna saudáveis. Jesus cura as pessoas fazendo-as curarem-se a si mesmas. Fica de lado qualquer relação de dependência, despertando, em vez disso, uma relação de discipulado e de seguimento, como fica bem claro no exemplo do cego Bartimeu, no Evangelho de Marcos.
Se há algo que sobre o qual as pessoas ainda emitem um juízo saudável a respeito dos frades, diz respeito à nossa presença fraterna e simples junto às famílias. Poderíamos mesmo dizer: uma presença despretensiosa, amiga, próxima, de escuta, de resultados de partidas de futebol. Há mesmo famílias que conservam arrumado o quarto onde o irmão esmoeler se hospedava anualmente, ainda que há anos ele por lá não apareça mais. Manter relações saudáveis de amizade com as famílias e as pessoas de fora das nossas fraternidades é fundamental para nós hoje. Mais do que o palavreado das nossas liturgias e catequeses, é isso o que verdadeiramente evangeliza: a maturidade dos relacionamentos mantidos com as pessoas que o bom Deus nos confia. Se não formos capazes de exercitar essas relações de maturidade no interior das nossas fraternidades, a tentativa de buscar vivê-las com pessoas de fora vai soar, necessariamente, como um remendo novo num pano velho. Ou não?

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