A LUZ BRILHOU NAS TREVAS

on 19/04/2009



Aconteceu. A luz penetrou a escuridão. A luz d’Aquele que é totalmente Outro, mas cuja luz brilha não a partir de um centro exterior a nós. Não veio de fora. Manifestou-se silenciosamente. Teilhard de Chardin já a conhecia: “Não caiu fragorosamente sobre os cumes, como o relâmpago no seu fulgor. Forçará o Mestre as portas para entrar em sua casa? Sem abalo, sem trovões, a chama tudo iluminou pelo lado de dentro.”


Para aqueles que pedem e aguardam esse momento, haverá algum preparo que atenue o despreparo e a dor provocados por essa luz? E o que dizer daqueles que são apanhados incautos, surpreendidos por algo que desconhecem totalmente e com o qual não lhes foi ensinado a lidar?


Não é da natureza da luz provocar dor. A sua natureza é iluminar, curar, serenar, revelar, humanizar. A dor que o encontro com ela nos provoca é um efeito secundário. Tem a ver com o encontro de duas realidades muito diferentes. De um lado, o Infinito, o Amor primordial, a suprema Beleza, a Verdade definitiva, a Luz derradeira. Do outro, a pequenez, a frágil altivez, a nossa indisfarçável miséria, a nossa treva espessa. O encontro entre esses dois pólos tão desiguais é que faz ranger o pólo humano, que se contorce e range e leva as mãos aos olhos para não se ver cegado por luz tão forte e repentina.


Se a luz não tem o fulgor do relâmpago, tem, porém, a sua brevidade. Entretanto, nesse breve instante em que ela se manifesta, o tempo permanece suspenso para nós: o Eterno toca o nosso tempo humano e ambos se fundem numa única realidade. É um instante com a duração de uma eternidade. E, na eternidade desse instante, a luz invade todos os recônditos de nosso ser, revelando num rápido relance aquilo que, insuspeitamente, somos de fato: uma imensa rede de cavernas desconhecidas e escuras.


O humano é um ser cavernoso. A nossa personalidade se assemelha a uma imensa rede de cavernas, com galerias se ramificando em muitas direções, com muitas câmaras desconhecidas, algumas muito profundas e de difícil acesso, uma boa parte delas permanecendo imersa na mais absoluta escuridão. Essa rede de cavernas que é a nossa personalidade e espírito humano não nasce pronta. Ela é construída ao longo da nossa vida sem nos darmos conta dessa realidade.


Algumas câmaras são de acesso imediato e bem iluminadas, pois se encontram bem junto à entrada principal: são os traços da nossa personalidade e os sentimentos que são estimulados pelo grupo social a que pertencemos e pelas pessoas com quem nos relacionamos. Somos estimulados a ser justos, compassivos, amorosos, educados, polidos, altruístas, ponderados, pacificados, fraternos. Cada um pode listar as suas preferências. Gostamos de exibir essas galerias para nós mesmos e para as pessoas que visitam a nossa vida.


Mas, nos níveis abaixo e depois que cessa a luz que vem da entrada principal, começa a haver escuridão. São lugares onde raramente nos aventuramos. Temos medo do que podemos encontrar nessas câmaras e de onde exala mau cheiro: agressividade, ódio, rancores, egoísmo, pulsão de morte, inveja, soberba, ira, desejos inconfessáveis. Mais sensato é não nos aventurarmos por elas. Entretanto, uma ou outra vez emergem vozes na superfície provenientes desses lugares escuros e desconhecidos e que nos causam um frio na barriga: afinal, também sou isso? E começamos a nos entristecer quando nos damos conta dessa realidade.


E, então, a luz nos ilumina. Em algum momento da nossa vida, mais cedo para uns, tardiamente para outros, repentina ou mansamente, essa luz forte adentra nessas cavernas. A luz a tudo ilumina, percorrendo cada galeria, por mais recôndita que seja, exibindo aos nossos olhos o mapa da nossa geografia humana, revelando aquilo que somos na nossa totalidade.


Se essa revelação de nós mesmos, proporcionada pela Luz que é Deus, demorasse mais do que o necessário para vislumbrarmos vagamente o que somos, enlouqueceríamos. Não seríamos capazes de lidar, de um momento para outro, com a totalidade daquilo que somos e que desconhecemos. E a finalidade da luz não é nos fazer mal. A sua finalidade é a de afastar o nosso medo diante da nossa própria escuridão e nos colocar no caminho lento do conhecimento e da cura das nossas trevas, para que a luz possa brilhar em nós com o brilho possível para a nossa presente natureza humana, antes que ela possa brilhar com todo o seu esplendor, quando estivermos mergulhados no seio da Comunidade Trinitária.


É assim a manifestação da graça de Deus na nossa vida. Por pura graça, somos um dia inundados pela luz de Deus, o Verbo Encarnado, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9). A graça nos revela aquilo que realmente somos no momento presente e nos introduz no caminho da compreensão de quem Deus verdadeiramente é.


A luz da graça nos desnuda diante de nós mesmos. Ficamos nus, como nossos primeiros pais no paraíso. Mas, diferentes deles, não nos sentimos envergonhados diante de Deus nem diante de nós mesmos. Pelo contrário, o corpo e o nosso espírito tornam-se leves. Pois, por mais difícil e doloroso que seja o contato e a constatação desses lugares sombrios na nossa vida, é Deus mesmo quem nos toma pela mão e nos conduz através deles. E, no momento oportuno, vamos ter a possibilidade de descobrir: da câmara mais escura e sombria pode emergir a santidade, manifestação da presença santificadora de Deus no quotidiano de nossa vida.

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