O ALTAR DO MUNDO

on 19/04/2009


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A Vila da Namaacha é um pequeno lugarejo ao sul de Moçambique, região montanhosa situada entre a África do Sul e o pequeno reino da Suazilândia, o país dos Suázis, uma monarquia onde o rei escolhe, a cada ano, numa concorrida cerimônia pública, uma esposa nova.

Nessa vila há um santuário mariano dedicado a Nossa Senhora de Fátima, onde acontece uma grande peregrinação no mês de maio. Muitos peregrinos - a maioria jovens, mas também adultos e mesmo famílias inteiras - percorrem a pé os 70 km que separam a capital, Maputo, da Vila da Namaacha. Essa peregrinação, herança do recente passado colonial, foi interrompida durante a guerra civil em que o país esteve mergulhado, porque impossibilitava a circulação das pessoas, mesmo nas proximidades das principais cidades do país.

Mas, bastou que a guerra terminasse, para que a peregrinação voltasse com maior força, certamente revigorada por todos aqueles que se dirigem ao santuário para agradecer a paz conquistada. Os peregrinos que se dirigem ao santuário a pé fazem-no principalmente durante a noite. Mas, é durante o dia que a região revela toda a beleza das suas montanhas, cobertas ora por uma relva rente ao solo, ora por uma vegetação semelhante à das savanas. No meio dessas montanhas existe um lugar, próximo da estrada, onde, de costas para a mesma, é possível vislumbrar um vasto horizonte e contemplar diante de nós as montanhas da África do Sul e, um pouco à esquerda, as montanhas da Suazilândia. É esse o lugar onde, sempre que possível, eu celebro a minha "missa no altar do mundo".

"A missa no altar do mundo" é um dos escritos místicos mais belos do padre francês Pierre Teilhard de Chardin, falecido em 1955. Padre Chardin foi um geopaleontólogo e sacerdote jesuíta que logrou construir uma visão integradora entre a ciência e a teologia. Disposto a desfazer o mal-entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser malvisto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi ameaçado de excomunhão, proibido de publicar suas obras e submetido a um quase exílio na China.

Em 1923, numa de suas expedições arqueológicas ao deserto de Ordos, na China, quando o Pe. Chardin se encontrava impossibilitado de celebrar a Eucaristia por não ter pão, nem vinho com que a celebrar, ele escreveu "A missa no altar do mundo", em que, em comunhão com toda a humanidade e com toda a matéria presente no universo, ele convocava essa mesma matéria para se tornar transparente à presença eucarística de Cristo (era a Festa da Transfiguração). Ele iniciava dizendo: "Visto que, uma vez mais, Senhor, já não nas florestas do Aisne, mas nas estepes da Ásia, não tenho nem pão, nem vinho, nem altar, elevar-me-ei acima dos símbolos até à pura majestade do real, e oferecer-vos-ei, eu, Vosso sacerdote, no altar da Terra inteira, o trabalho e a dor do Mundo." E segue-se, então, o desenrolar daquela liturgia mística: "Colocarei na minha patena, ó meu Deus, a colheita esperada deste novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que serão hoje esmagados. O meu cálice e a minha patena são as funduras de uma alma largamente aberta a todas as forças que, dentro de um instante, se elevarão de todos os pontos do Globo e convergirão a caminho do Espírito. - Venham, pois, a mim a recordação e a presença mística daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!"

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Por vocação e por opção, não sou sacerdote. Entretanto, isso não significa que eu tenha renunciado à dimensão sacerdotal da minha vocação, comum a todos nós, batizados. Pelo contrário. Trata-se antes de descobrir e viver toda a riqueza do sacramento da Eucaristia, celebrada quotidianamente pelos ministros ordenados. Entender e viver a dimensão sacerdotal do nosso batismo é uma via de mão dupla. Se, por um lado, somos alimentados tanto pelo sacramento quanto pelo testemunho dos ministros ordenados, por outro lado, também eles saberão enriquecer-se com o testemunho maduro dos demais fiéis que os ajudam a viver o seu ministério sacerdotal.

O Pe. Chardin é uma das pessoas que me ajudam a compreender e viver o meu sacerdócio comum dos batizados. A Carta aos Hebreus é um outro ponto de referência importante para todos nós. O nosso altar e a matéria do nosso sacrifício são diferentes, pelo menos aparentemente, daquela dos ministros ordenados. O nosso altar, como na liturgia do Pe. Chardin, é o mundo inteiro, todos os lugares onde haja o esforço humano para criar um mundo melhor, para erradicar as doenças, para plantar a paz. A matéria do nosso sacrifício não são apenas o pão e o vinho. É a pedra talhada de onde emerge a Pietá. São os números e as relações de onde emerge toda a elegância do universo físico. É a terra, mãe generosa que nos dá sustento. São as notas musicais irmanadas para resultarem no Messias, de Handel. Na verdade, pão e vinho são mais do que mera comida e bebida. São, antes de mais nada, trabalho, esforço, transformação e ação humana.

Muito se fala sobre a dimensão fraterna da eucaristia, sobre a dimensão de denúncia contra as injustiças que ela traz em seu bojo, que o fruto da eucaristia deveria ser a partilha dos bens, que as nossas missas deveriam desmascarar os novos rostos da idolatria. Tudo isso é, certamente, verdadeiro. Mas, em se tratando da eucaristia, é pouco. E uma verdade não menos importante que o sacramento da eucaristia nos revela é que, pela ação humana no mundo, a matéria e as relações são santificadas, ou, antes, tornam-se transparentes à santificação definitiva do mundo já operada pela encarnação de Jesus. Alguém já afirmou: quem não tem para com o pão quotidiano a mesma reverência prestada ao pão eucarístico, ainda não entendeu suficientemente o sentido da encarnação de Jesus. Há também, é claro, a dimensão da comunhão presente na eucaristia. Desde a comunhão mais visível - comungamos todos o mesmo e único pão eucarístico - até a comunhão definitiva com a mãe terra, quando essa, generosamente, nos abraça e envolve em seus braços, passando pela comunhão com todas as pessoas e criaturas ao nosso redor. Do alto das montanhas da Namaacha, sozinho, com o sol se pondo no horizonte, feito imensa hóstia de fogo e luz, as palavras do Pe. Chardin ganham vida e a comunhão torna-se realidade.

Você, amigo e amiga que me lêem, já devem ter se encontrado com um sacerdote que marcou a sua caminhada. Eu já encontrei mais do que um. Mas, hoje, escrevo por causa de um em particular, que completa 25 anos de sacerdócio. Nesses 25 anos de exercício do seu sacerdócio ministerial, tenho certeza de que o mundo se tornou mais transparente àquela bondade simples, gratuita e despretensiosa do nosso Deus. Ainda que as sombras interiores e exteriores afirmem o contrário, é a essa certeza - a bondade simples e despretensiosa do nosso Deus - que, com serenidade, eu me agarro.

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