OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

on 19/04/2009



Escrevo estas palavras sob o efeito de um feitiço. Se você, leitor e leitora amigos, quiserem me entender, devem deixar-se enfeitiçarem, também. Somente estando enfeitiçado como eu me encontro agora, será possível estabelecer aquele tipo de comunhão que traz vida aos textos que temos em mãos, numa cumplicidade estreita entre quem escreve e quem lê, desfazendo-se a distância que os separa. As palavras de um são as palavras do outro.


Estou enfeitiçado pela música. Portanto, para estar enfeitiçado como eu me encontro, não é difícil: relaxe e escute alguma música. Escolha música de verdade. Pode ser a música barroca de Bach ou uma peça para piano de Chopin. As sinfonias de Beethoven e os clássicos de Mozart estão sempre ao alcance dos nossos ouvidos. Se preferir, escolha Amazing Grace ou Veni Creator Spiritus. Bolero, de Ravel, é perfeito: somos enfeitiçados mansamente, a melodia nos acariciando no rosto, sendo elevados nota após nota, até sermos despertados, no fim, e lançados repentinamente de volta ao chão. O canto gregoriano ou a música de Taizé têm uma magia toda própria. Um cântico fúnebre africano é de partir a alma. E o que dizer de Romaria, na voz da Elis Regina, ou Strani Amore, na voz do Renato Russo?


A música que me enfeitiça neste momento não vem de fora. É uma música que vem de dentro e extravasa até chegar aos meus ouvidos. Essa música tem o som de um piano. Foi a primeira vez que eu ouvi alguém tocar piano de verdade, num concerto exclusivo para uma platéia de um único ouvinte. Ele reclamava do som metálico das teclas do piano. Mas, que diferença isso faz para um ouvinte inexperiente e ávido por aquela música que saía das suas mãos? São essas notas que, no silêncio do quarto, retornam aos meus ouvidos agora, juntamente com a experiência que elas provocam em mim: a experiência do belo, da beleza da música. E isso me faz perceber: a beleza salvará o mundo. E é sobre isso que eu desejo escrever.


Mas, antes, é preciso esclarecer: na morte de Jesus na cruz não há beleza alguma. Na cruz de Jesus há apenas dor, sofrimento e abandono. É possível haver alguma beleza nisso? Dificilmente. A injustiça e a opressão do ser humano sobre o outro são belas? Jamais. Não desejo, portanto, atenuar, com minhas palavras, o escândalo visível da cruz. O crucificado tinha o rosto desfigurado e o corpo disforme, sem figura nem beleza e sem aspecto atraente. A cruz de Jesus resume tudo aquilo que não é belo no nosso meio: a violência, a fome, a injustiça, a guerra e o abandono. A cruz de Jesus resume o inumano presente no nosso meio, aquilo que nos afasta da nossa vocação definitiva: nossa humanização individual e coletiva. E se Jesus é o humano por excelência, não há salvação possível fora da nossa própria humanização em Jesus.


A experiência do belo captado com os nossos sentidos e com o nosso espírito nos humaniza. A experiência estética do nascer e do pôr-do-sol, da música e do silêncio, das montanhas e das planícies, da equação matemática e da compreensão da tessitura do tempo e do espaço no universo, do paladar, do toque humano, do encontro com o outro e o seu corpo, a experiência serena ou arrebatadora da poesia, todas essas experiências apontam para a Beleza primordial inscrita no nosso espírito humano. Esse belo, diante do qual tantos já choraram, sem o saberem, era o próprio Deus quem os comovia por esse meio. O eco da voz de Deus se converte em música e o esboço tosco da pintura e suas cores captam apenas muito fracamente a luz primordial que d’Ele emana.


Mesmo que cesse toda visão e se faça silêncio, ainda assim podemos cantar. Para isso, é preciso ver além daquilo que os olhos conseguem captar e escutar além daquilo que os nossos ouvidos conseguem perceber. É necessária a reeducação do olhar e dos sentidos. Foi assim com Francisco de Assis.


O evento que transformou a sua vida foi um encontro. Quem nos diz é ele próprio, quando, próximo à sua morte, faz memória da sua conversão. Foi um encontro com um leproso. Foi difícil para ele aproximar-se daquele corpo disforme, chagado e fétido. Mas, vencendo a sua própria aversão, ele aproximou-se, abraçou e beijou, nas mãos e na boca, aquele leproso no meio da estrada. O que aconteceu em seguida ele mesmo nos diz: “Quando eu estava em pecado, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia. E ao afastar-me deles, o que antes me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo.”


As chagas e a deformidade não desapareceram do corpo do leproso: elas são tocadas, abraçadas e beijadas por Francisco. Mas, para além do encontro e do toque de dois corpos, há um encontro mais profundo e fundamental: o encontro com aquilo que o outro é verdadeiramente, para além das aparências, dos estereótipos e da primeira impressão. Para além do corpo chagado e da experiência inumana da rejeição e de não ser considerado alguém, há o mistério da presença do próprio Deus no outro, da Beleza primordial inscrita nos alicerces de todo espírito humano. Esse encontro e essa experiência colocaram em movimento, em Francisco, uma cadeia de outras realidades que habitam as profundezas do nosso ser: a compaixão, a misericórdia, a leveza, a alegria, a graça, a bondade, a doçura, a cordialidade, o riso e o canto. Não é assim o próprio Deus? Conversão é isso: inversão de olhar. Onde se via amargura, descobre-se a doçura. Onde o humano parece ausente, descobre-se Deus. A rudeza do corpo chagado manifesta-se como delicadeza de Deus. O que é considerado loucura revela-se como sabedoria e o que é tido como fraqueza de Deus manifesta-se como força. E Francisco cantou.


Pelo meio das estradas, apanhava dois pedaços de paus e se punha a tocá-los como se de um instrumento de cordas se tratasse. Quando estava particularmente inebriado da presença de Deus, cantava em francês, aprendido com sua mãe durante a infância. Ao enviar os seus irmãos em missão pelos burgos e povoados, instruía-os para que cantassem como jograis, para atrair a atenção das pessoas e iniciar a pregação sobre a necessidade de uma vida de penitência e conversão. Ele rezava e dizia que Deus é formosura e beleza.


O ponto alto dessa louvação do belo presente na criação, manifestação da Beleza primordial do Criador, é o “Cântico do Irmão Sol”. O período em que ele começou a ser redigido foi um tempo particularmente difícil para Francisco. Dois anos antes de sua morte, após receber os estigmas do crucificado no monte Alverne, Francisco fez-se transportar até São Damião, local de moradia de Clara e suas irmãs. A própria Clara preparou-lhe uma palhota com caniços e ramagem para protegê-lo da luz do dia. Uma doença dos olhos contraída durante sua estadia no oriente já o havia feito perder praticamente toda a visão. Nessa palhota, Francisco passou mais de cinqüenta dias sem poder suportar a luz do sol ou do fogo à noite, com muito sofrimento causado pela sua doença. Nos raros momentos em que a dor lhe dava descanso e que ele conseguia dormir um pouco, eram tantos os ratos que corriam sobre ele que não conseguia descansar. Mesmo durante o dia e nos momentos de oração, os ratos não lhe davam descanso.


Foi nesse ambiente que Francisco começou a compor o seu Cântico do Irmão Sol, depois de receber a certeza de que participaria do reino celeste. Compôs os versos e a melodia para os mesmos, que ensinou aos seus irmãos. Instruiu esses mesmos irmãos a cantarem o cântico quando fossem pelo mundo e que o cantassem depois das pregações. Dizia que “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa criatura, o nosso irmão fogo, que alumia os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador” . Nos momentos em que estava mais atormentado pelas suas enfermidades, ele começava a entoar o cântico e pedia aos irmãos que prosseguissem. E assim foi até a hora de sua morte, para o escândalo de alguns frades ao seu lado. Eles diziam que não ficava bem alguém, às portas da morte, cantar como ele cantava, com alegria e serenidade.


Depois de cantar e saudar como irmãos e irmãs o sol, a lua, as estrelas, a água e o fogo, o ar e o vento, de cantar a terra como mãe generosa que nos dá flores e frutos, ele estava finalmente preparado para o seu encontro pleno com a fonte de todo o Bem e de toda a Beleza. Nos seus últimos dias, passados na Porciúncula, ele compôs uma última estrofe em que a morte é saudada, fraternalmente, como “irmã”. E assim, cantando, ele morreu.


Anos antes, nesse mesmo lugar, um dos seus irmãos perguntou-lhe: “Por que a ti, Francisco, por que a ti? Tu não és belo nem sábio e, entretanto, todos correm atrás de ti e desejam ouvir-te e obedecer-te. Por quê?” E Francisco, com a delicadeza característica, respondeu-lhe: “Queres saber porque a mim? Isto me vem daqueles olhos do Altíssimo Deus, os quais por toda a parte contemplam os bons e os maus; e como estes olhos santíssimos não descobriram entre os pecadores nenhum mais vil, nem mais ignorante, escolheu a mim para confundir a nobreza, e a grandeza, e a força, e a formosura, e a grandeza do mundo, para que se reconheça que toda a virtude e todo o bem lhe pertencem e não à criatura.”


Numa sociedade de consumo que tenta desviar a nossa atenção daquilo que é a verdadeira fonte de toda Beleza, essa é uma lição importante a reter. Somente a verdadeira Beleza irá salvar o mundo. Mas, antes, é preciso deixar-se encontrar por ela.






……






Uma criança desce correndo o vale próximo à sua casa, num pequeno povoado da Galiléia. O vale, que descansava entre a última colheita de trigo e a próxima semeadura, estava vestido de flores do campo, numa tonalidade que ia do branco ao violeta, juntamente com os pés de oliveiras espalhados ao redor. Durante aquele breve período de floração, a criança sempre encontrava, nas tardes, uma maneira de fugir às suas obrigações domésticas e correr pelo vale. O regresso para casa era sempre acompanhado pela reprimenda da mãe, por causa do sumiço e da água por buscar ao poço. Entretanto, já em casa, restava-lhe um último ritual, ao qual a mãe e o pai em sua oficina já se acostumaram, sabendo que de nada adiantaria dirigirem-lhe a palavra naquele momento: sentar-se no terraço da pequena casa e acompanhar o fim do dia e o sol que se escondia lentamente, tingindo o horizonte com as cores características, até desaparecer totalmente em silêncio. E ali permanecia até que sua mãe o despertasse daquele transe, chamando-o para a última refeição do dia.


Anos mais tarde, a criança, já um adulto formado, revive em sua memória essas cenas da sua infância. E então, no frio daquela noite escura sem lua, sentado à volta da fogueira, ele rompe o silêncio e começa a ensinar aquele pequeno grupo de homens à sua volta, dizendo: “Olhai os lírios do campo, vede como são belos. E, no entanto, não trabalham nem fiam. Aprendei com eles sobre Deus…”

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