BAGUNÇA

on 19/04/2009



Download PDF

Nada parece ser mais infrutífero do que a tentativa dos pais – da mãe, principalmente – de inculcar nos seus filhos, crianças e adolescentes, o sentido de asseio, limpeza e organização. Para muitas mães, é uma batalha constante e, aparentemente, perdida. Crescemos com as reclamações conhecidas de todos: não deixar a roupa da escola espalhada pelo quarto, juntar os brinquedos, guardar os calçados, tomar banho, esfregar as "caracas", arrumar a cama, guardar o material escolar. A lista é longa. Quanto maior a lista, mais impotente parece se sentir a mãe.


Lembro-me perfeitamente da pequena estória repetida inúmeras vezes para ilustrar a necessidade de manter as coisas no lugar. "Um rei precisou escolher um novo serviçal para o seu palácio. Bem à entrada da sua sala, deixou uma vassoura caída em meio ao chão, atravessando o caminho. Veio o primeiro candidato, passou sobre a vassoura e dirigiu-se ao rei para ser entrevistado. O rei dispensou-o imediatamente. Veio o segundo e, como o primeiro, ignorou a vassoura no chão e também foi dispensado. O mesmo se passou com o terceiro e com o quarto. O quinto candidato, entretanto, ao atravessar o salão, notou a vassoura caída no chão, apanhou-a e guardou-a encostada à parede." O leitor já pode imaginar quem foi o candidato escolhido e a moral da estória.


Para muitos filhos, a lição e o exemplo demonstrados à exaustão durante a infância somente vão surtir efeito quando eles se tornarem adultos. A Elis Regina poderia glosar a letra da sua música carregada de verdades e cantar: ainda limpamos e arrumamos as nossas casas como os nossos pais. Afinal, como morar, trabalhar, rezar, ler e escrever num ambiente desorganizado e entulhado de coisas?


Há um pequeno segredo que nos ajuda nessa tarefa de manter a nossa casa limpa e arejada: não acumular (vale uma exceção sadia para os livros…) Quanto mais objetos, badulaques e penduricalhos dentro da casa, mais difícil vai ser fazer a limpeza. A nossa sociedade atual é eficiente quando se trata de nos fazer acreditar que precisamos disto ou daquilo para viver com maior conforto ou para adquirir um status que almejamos. Alguém costumava brincar: vamos ao shopping center para ver quanta coisa não precisamos para viver?


A outra face da moeda é quando o cuidado com a limpeza se torna excessiva. Uma sabedoria atávica em nós nos diz que todo excesso é patológico, é doentio. Os entendidos certamente saberão explicar os mecanismos psicológicos de uma obsessão desse tipo. No outro extremo, há uma falta de asseio e desorganização que são igualmente doentios. Mais uma vez, Freud explica.


.......


Não é somente meu quarto o lugar onde gosto de manter ordem e as coisas no seu lugar. Também o coração precisa de faxinas regulares. Num processo quase imperceptível, transportamos para dentro de nós esse mesmo gosto pelo asseio e pela simplicidade.


A escrita é uma boa vassoura. Escrever é uma maneira de colocar ordem nas idéias, de organizar os sentimentos no seu devido lugar e de lustrar as percepções. Tudo isso para que o nosso coração se torne uma pousada aconchegante, pronto para acolher todos aqueles que o bom Deus nos confia ao longo dos nossos dias.


Aproximem-se, leitor e leitora amigos. A porta está aberta. Há pão sobre a mesa, o chão está minimamente varrido e o fogão à lenha está aceso. Sejam bem-vindos.

0 comentários:

Postar um comentário