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Pôr-do-sol na baía de Inhambane. O leitor e a leitora amigos já presenciaram algum deles lá? Em outro lugar não vale. Deve ser em Inhambane. Talvez algum dia eu encontre um pôr-do-sol mais belo. É uma possibilidade que pertence ao futuro. O de Inhambane, entretanto, é real e pertence ao presente. Está logo ali, bastando sentar-se no banco em frente à baía e aguardar por aquele momento em que a luz vermelha do sol se dilui no horizonte ao redor. Mar calmo, maré baixa. Barcos encalhados na areia à espera da maré alta para novamente singrarem ao mar. Cheiro salgado de mar no ar. Silêncio. Do outro lado da baía, os imensos coqueirais da região, cortados pela torre da igreja e pelo minarete da mesquita. É uma moldura perfeita para os versos do Fernando Pessoa:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
É uma cena que se repete a cada dia, presenteando aqueles que param para viver pacientemente esse momento único em que o sol se despede da costa leste da África para oferecer, pouco depois, a mesma magia desse momento aos habitantes a oeste.
E, então, quase sem querer, como por uma distração do tempo, como se ele tivesse sonecado momentaneamente, somos invadidos por aquela experiência de totalidade e de comunhão. Cessa a nossa tormenta interior e o olhar transfigura-se. Ficamos momentaneamente curados da nossa doença de pensar.
Tudo isso não dura mais do que uma fração de segundos, como se o tempo houvesse parado a sua marcha para que a vida nos pudesse entregar um pouco da sua verdade. São momentos efêmeros de serenidade e de alegria interior. Mia Couto, o autor moçambicano aparentado nas palavras e nas frases com Guimarães Rosa, já disse pela boca de um dos seus personagens: "Estou fadado apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça".
Os gregos tinham duas palavras diferentes para designar o tempo. Uma delas, "khrónos" - de onde provém a palavra cronômetro - era utilizada para designar o tempo como o conhecemos corriqueiramente. Crono é o tempo tirano, segundo após segundo, indefinidamente. É contra ele que boa parte das pessoas, principalmente os moradores de ambientes urbanos, combatem uma batalha quotidiana, infrutífera. Sempre lhes falta tempo para concluir alguma atividade, não obstante a correria com que tentam desempenhar as tarefas diárias. A ditadura do crono é a ditadura da agenda. A inteireza da nossa vida fica dividida entre as atividades mais díspares espalhadas pelas diferentes - e, às vezes, sobrepostas - horas do dia, todas elas computadas na nossa agenda. A agenda é o símbolo mais cabal da nossa estratégia bélica contra o crono. Crono esse que nos esvazia.
Felizmente, o crono não reina em absoluto. Os cientistas - e não os poetas - foram os primeiros a afirmar: o tempo é brincalhão, gosta de nos pregar peças. O tempo sisudo, sério, segundo após segundo, tique após taque, não existe. O tempo verdadeiro é diferente. Aliás, não há tempo, mas tempos que transcorrem de maneiras distintas, de acordo com a velocidade com a qual nos deslocamos pelo espaço afora. Quanto mais rapidamente singramos o espaço montados na cauda de um cometa, mais lentamente transcorre o tempo para nós em relação a um companheiro nosso que permanece na Terra. Resultado: envelhecemos mais lentamente que o nosso companheiro da Terra. Desconfio que esse era o segredo do principezinho do Exupéry: estava sempre a viajar agarrado à cauda dos cometas. Por isso, era sempre criança, como o Menino Jesus do Alberto Caeiro.
A segunda palavra dos gregos para designar uma realidade diferente relacionada com o tempo é a palavra "kayrós". Cairós é o tempo vivido intensamente, pleno de experiências e de significados. É o tempo medido não pelas marcas do envelhecimento no nosso corpo, mas pela intensidade e pela capacidade que algumas experiências têm de marcar indelevelmente a nossa vida. Cairós é o tempo da paixão para os amantes e o tempo da conversão para os santos, quando o recalcitrante cai em si e desperta para a graça e misericórdia que o envolvem. Cairós é o tempo da revelação, da transfiguração do olhar.
Esses momentos são os que verdadeiramente contam. Eles são as âncoras da nossa vida. Nos momentos de crise, revisitamos esses momentos e as pessoas que tomaram parte neles. Não para nos determos num passado que não mais retorna e nos fecharmos às possibilidades do presente, mas para reafirmarmos a nós mesmos o sentido último e radical da nossa existência.
A contradição entre cronos e cairós é que, para vivermos o cairós, é necessário esquecermos cronos, perdermos tempo. Perder tempo em sentar-se para ver o pôr-do-sol, para poder ler os traços no rosto anônimo no meio da multidão, para prestar atenção à música que sorrateiramente chega aos nossos ouvidos. O cairós somente se entrega àqueles cessam a correria diária para poderem perceber, bem ao seu lado, a graça e a bondade de Deus presentes em toda a realidade ao seu redor, ainda que veladas pela dor, injustiças e sofrimentos.
Cronos e cairós são as duas faces de uma mesma realidade. Se cronos é o sol que caminha pelo céu, marcando a nossa luta quotidiana pelo pão, cairós é esse mesmo sol que, ao fim do dia, nos recorda que não somente de pão vive o homem e a mulher, mas também de sonhos, de utopias e de desejos. Se quiser confirmar, basta sentar-se em frente à baía de Inhambane.
E, então, quase sem querer, como por uma distração do tempo, como se ele tivesse sonecado momentaneamente, somos invadidos por aquela experiência de totalidade e de comunhão. Cessa a nossa tormenta interior e o olhar transfigura-se. Ficamos momentaneamente curados da nossa doença de pensar.
Tudo isso não dura mais do que uma fração de segundos, como se o tempo houvesse parado a sua marcha para que a vida nos pudesse entregar um pouco da sua verdade. São momentos efêmeros de serenidade e de alegria interior. Mia Couto, o autor moçambicano aparentado nas palavras e nas frases com Guimarães Rosa, já disse pela boca de um dos seus personagens: "Estou fadado apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça".
Os gregos tinham duas palavras diferentes para designar o tempo. Uma delas, "khrónos" - de onde provém a palavra cronômetro - era utilizada para designar o tempo como o conhecemos corriqueiramente. Crono é o tempo tirano, segundo após segundo, indefinidamente. É contra ele que boa parte das pessoas, principalmente os moradores de ambientes urbanos, combatem uma batalha quotidiana, infrutífera. Sempre lhes falta tempo para concluir alguma atividade, não obstante a correria com que tentam desempenhar as tarefas diárias. A ditadura do crono é a ditadura da agenda. A inteireza da nossa vida fica dividida entre as atividades mais díspares espalhadas pelas diferentes - e, às vezes, sobrepostas - horas do dia, todas elas computadas na nossa agenda. A agenda é o símbolo mais cabal da nossa estratégia bélica contra o crono. Crono esse que nos esvazia.
Felizmente, o crono não reina em absoluto. Os cientistas - e não os poetas - foram os primeiros a afirmar: o tempo é brincalhão, gosta de nos pregar peças. O tempo sisudo, sério, segundo após segundo, tique após taque, não existe. O tempo verdadeiro é diferente. Aliás, não há tempo, mas tempos que transcorrem de maneiras distintas, de acordo com a velocidade com a qual nos deslocamos pelo espaço afora. Quanto mais rapidamente singramos o espaço montados na cauda de um cometa, mais lentamente transcorre o tempo para nós em relação a um companheiro nosso que permanece na Terra. Resultado: envelhecemos mais lentamente que o nosso companheiro da Terra. Desconfio que esse era o segredo do principezinho do Exupéry: estava sempre a viajar agarrado à cauda dos cometas. Por isso, era sempre criança, como o Menino Jesus do Alberto Caeiro.
A segunda palavra dos gregos para designar uma realidade diferente relacionada com o tempo é a palavra "kayrós". Cairós é o tempo vivido intensamente, pleno de experiências e de significados. É o tempo medido não pelas marcas do envelhecimento no nosso corpo, mas pela intensidade e pela capacidade que algumas experiências têm de marcar indelevelmente a nossa vida. Cairós é o tempo da paixão para os amantes e o tempo da conversão para os santos, quando o recalcitrante cai em si e desperta para a graça e misericórdia que o envolvem. Cairós é o tempo da revelação, da transfiguração do olhar.
Esses momentos são os que verdadeiramente contam. Eles são as âncoras da nossa vida. Nos momentos de crise, revisitamos esses momentos e as pessoas que tomaram parte neles. Não para nos determos num passado que não mais retorna e nos fecharmos às possibilidades do presente, mas para reafirmarmos a nós mesmos o sentido último e radical da nossa existência.
A contradição entre cronos e cairós é que, para vivermos o cairós, é necessário esquecermos cronos, perdermos tempo. Perder tempo em sentar-se para ver o pôr-do-sol, para poder ler os traços no rosto anônimo no meio da multidão, para prestar atenção à música que sorrateiramente chega aos nossos ouvidos. O cairós somente se entrega àqueles cessam a correria diária para poderem perceber, bem ao seu lado, a graça e a bondade de Deus presentes em toda a realidade ao seu redor, ainda que veladas pela dor, injustiças e sofrimentos.
Cronos e cairós são as duas faces de uma mesma realidade. Se cronos é o sol que caminha pelo céu, marcando a nossa luta quotidiana pelo pão, cairós é esse mesmo sol que, ao fim do dia, nos recorda que não somente de pão vive o homem e a mulher, mas também de sonhos, de utopias e de desejos. Se quiser confirmar, basta sentar-se em frente à baía de Inhambane.

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