Download PDF
A história parece ter saído do roteiro de um filme de cinema. Um jovem vai ao mercado para comprar peixe. Após chegar a casa e desembrulhar os peixes que havia comprado, chama-lhe a atenção o papel utilizado para embrulhar os mesmos. Tratava-se de folhas escritas em grego com uma grossa camada de tinta. Imediatamente, ele regressa ao mercado na esperança de encontrar mais algumas folhas daquele precioso papel de embrulho. Por sorte sua, conseguiu encontrar mais 260 folhas do papel num estado de conservação razoável. Quando chegou a casa e começou a examinar com mais cuidado a sua aquisição, descobriu que tinha nas mãos um verdadeiro tesouro: nada menos do que 22 escritos da antiguidade cristã. A história passou-se no ano de 1436, na cidade de Constantinopla, atual Istambul. Entre os escritos desse precioso achado - cujo original acabaria por se perder num incêndio, no ano de 1870, na cidade alemã de Estrasburgo - encontramos o texto da "Carta a Diogneto". Essa carta é uma pequena pérola da literatura cristã primitiva, escrita no início do século III da era cristã. Nela, um cristão anônimo escreve a Diogneto, um amigo seu, pagão, para tentar mostrar-lhe, em espírito de diálogo e lucidez, tão carenciado em nossos dias atuais, qual é a natureza da religião cristã.
O autor informa ao seu amigo que "os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes (…) Vivem na sua pátria, mas como peregrinos; participam em tudo como cidadãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda a pátria estrangeira é para eles uma pátria e cada pátria é uma terra estrangeira (…) Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo."
Quase 600 anos depois, custa-nos acreditar que tal tesouro estivesse a embrulhar parcos peixes, que o papel de embrulho fosse infinitamente mais precioso que o conteúdo envolvido. Paulo, ao referir-se à graça de Deus que habita em nós, usa uma imagem oposta: trazemos o tesouro da graça de Deus em vasos de barro, para indicar a fragilidade da nossa realidade humana que acolhe a graça divina.
Se aquele jovem não tivesse prestado atenção a algo tão trivial como o papel que embrulhava o peixe que ele tinha comprado, estaríamos privados desse pequeno tesouro da literatura cristã primitiva. O quotidiano, quando bem espreitado, pode revelar-nos surpresas agradáveis.
Há casos de amizades profundas nascidas de encontros casuais em lugares ainda mais insólitos. Teilhard de Chardin começou a escrever "A missa no altar do mundo" tendo à sua frente o nascer do sol quotidiano no deserto de Ordos. Moisés recebeu o chamamento para a sua missão enquanto apascentava rebanhos do sogro. O quotidiano, não raras vezes, acaba por se converter em lugar da teofania de Deus, torna-se transparente à presença de Deus no nosso meio. Para perceber essa presença, entretanto, é necessário educar o olhar e saber perder tempo. O quotidiano é o lugar dos pequenos acontecimentos.
Uma boa parte das pessoas carrega em si grandes ideais ou projetos de vida. Essas grandes referências à frente do nosso olhar e da nossa existência são, sem dúvida, importantes. São eles que nos mantêm de pé e que nos permitem recuperar a caminhada após alguma queda. Eles são o norte que nos guia, a estrela de Belém que nos indica a direção. Entretanto, quando mantemos os olhos nesses grandes ideais, perdemos de vista o quotidiano sob nossos olhos, ignoramos os pequenos detalhes de relacionamentos de que é feita a nossa existência. E, ao fim e ao cabo, a nossa vida nada mais é do que esse rosário formado pelas contas dos pequenos acontecimentos, unidos pelo fio do nosso quotidiano. Afinal, a vida é feita de trabalho, de suor diário e de labuta pelo pão. Uma grande parte da frustração da vida moderna provém da incapacidade de lidar com essa realidade.
Em linguagem evangélica, Jesus sentenciou que se não fôssemos capazes de sermos fiéis nos pequeninos acontecimentos do nosso quotidiano, não nos seriam confiadas coisas maiores e mais importantes. Ele condicionou, também, a bem-aventurança eterna, não com gestos magnânimos de altruísmo, mas com gestos simples, como saciar a sede e a fome dos famintos e ser solidário com os peregrinos e presos. Quem não for reprovado nesse teste quotidiano de fraternidade estará apto a realizar coisas grandiosas.
Uma boa parte da vida doentia vivida por muitas pessoas, hoje, tem a ver com o descompasso existente entre esses grandes projetos e ideais pessoais e a vida concreta vivida por elas. Para agravar a situação, as pessoas são continuamente bombardeadas pelos meios de comunicação social com ideais que, sob a aparência de serem grandiosos, são, na verdade, efêmeros, rasos e faltos de sentido.
Talvez neste exato momento, bem aí ao seu lado, a vida esteja a presenteá-lo com um pequeno gesto de generosidade. Esteja atento. Afinal, o papel de presente com que esses gestos vêm embrulhados tem um nome muito simples: quotidiano.
O autor informa ao seu amigo que "os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes (…) Vivem na sua pátria, mas como peregrinos; participam em tudo como cidadãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda a pátria estrangeira é para eles uma pátria e cada pátria é uma terra estrangeira (…) Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo."
Quase 600 anos depois, custa-nos acreditar que tal tesouro estivesse a embrulhar parcos peixes, que o papel de embrulho fosse infinitamente mais precioso que o conteúdo envolvido. Paulo, ao referir-se à graça de Deus que habita em nós, usa uma imagem oposta: trazemos o tesouro da graça de Deus em vasos de barro, para indicar a fragilidade da nossa realidade humana que acolhe a graça divina.
Se aquele jovem não tivesse prestado atenção a algo tão trivial como o papel que embrulhava o peixe que ele tinha comprado, estaríamos privados desse pequeno tesouro da literatura cristã primitiva. O quotidiano, quando bem espreitado, pode revelar-nos surpresas agradáveis.
Há casos de amizades profundas nascidas de encontros casuais em lugares ainda mais insólitos. Teilhard de Chardin começou a escrever "A missa no altar do mundo" tendo à sua frente o nascer do sol quotidiano no deserto de Ordos. Moisés recebeu o chamamento para a sua missão enquanto apascentava rebanhos do sogro. O quotidiano, não raras vezes, acaba por se converter em lugar da teofania de Deus, torna-se transparente à presença de Deus no nosso meio. Para perceber essa presença, entretanto, é necessário educar o olhar e saber perder tempo. O quotidiano é o lugar dos pequenos acontecimentos.
Uma boa parte das pessoas carrega em si grandes ideais ou projetos de vida. Essas grandes referências à frente do nosso olhar e da nossa existência são, sem dúvida, importantes. São eles que nos mantêm de pé e que nos permitem recuperar a caminhada após alguma queda. Eles são o norte que nos guia, a estrela de Belém que nos indica a direção. Entretanto, quando mantemos os olhos nesses grandes ideais, perdemos de vista o quotidiano sob nossos olhos, ignoramos os pequenos detalhes de relacionamentos de que é feita a nossa existência. E, ao fim e ao cabo, a nossa vida nada mais é do que esse rosário formado pelas contas dos pequenos acontecimentos, unidos pelo fio do nosso quotidiano. Afinal, a vida é feita de trabalho, de suor diário e de labuta pelo pão. Uma grande parte da frustração da vida moderna provém da incapacidade de lidar com essa realidade.
Em linguagem evangélica, Jesus sentenciou que se não fôssemos capazes de sermos fiéis nos pequeninos acontecimentos do nosso quotidiano, não nos seriam confiadas coisas maiores e mais importantes. Ele condicionou, também, a bem-aventurança eterna, não com gestos magnânimos de altruísmo, mas com gestos simples, como saciar a sede e a fome dos famintos e ser solidário com os peregrinos e presos. Quem não for reprovado nesse teste quotidiano de fraternidade estará apto a realizar coisas grandiosas.
Uma boa parte da vida doentia vivida por muitas pessoas, hoje, tem a ver com o descompasso existente entre esses grandes projetos e ideais pessoais e a vida concreta vivida por elas. Para agravar a situação, as pessoas são continuamente bombardeadas pelos meios de comunicação social com ideais que, sob a aparência de serem grandiosos, são, na verdade, efêmeros, rasos e faltos de sentido.
Talvez neste exato momento, bem aí ao seu lado, a vida esteja a presenteá-lo com um pequeno gesto de generosidade. Esteja atento. Afinal, o papel de presente com que esses gestos vêm embrulhados tem um nome muito simples: quotidiano.

0 comentários:
Postar um comentário