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Há tristezas e tristezas. Na sua frase célebre, Leo Tolstoy já afirmava que "as famílias felizes são todas iguais, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". O que vale para o conjunto da família vale, também, para a individualidade dos seus membros: cada infeliz é infeliz à sua maneira.
Mas não é sobre a infelicidade que desejo falar. A infelicidade é um processo que se constrói e se aprofunda ao longo da vida das pessoas, fruto de acontecimentos alheios à própria vida ou fruto das conseqüências de decisões tomadas. A tristeza, entretanto, é diferente da infelicidade. Se a infelicidade é o quadro pintado com cores sombrias que retrata a vida dos infelizes, a tristeza é apenas uma das tintas - talvez a mais carregada - usadas nesse quadro. A mesma tinta da tristeza pode dar forma a outros quadros que não são, necessariamente, os da infelicidade.
Há a tristeza de luto, aquela causada quando um pedaço de nós - pai, mãe, filho, marido, esposa, irmão, amigo - lentamente ou abruptamente, é arrancado do nosso peito. Quanto mais abrupta for essa ruptura e quanto menos tempo tivermos tido para nos prepararmos para ela, maior a nossa tristeza e perplexidade. Na garganta, fica a pergunta atravessada: por quê? Buscamos uma resposta como quem busca um cicatrizante capaz de estancar a tristeza que arde em nós. Busca inútil.
Há a tristeza pacífica dos poetas. O pastor de palavras Alberto Caeiro já dizia a respeito da sua própria tristeza:
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Na tristeza dos poetas, há sempre um pouco de saudade. Por isso, eles cantam. Música é feitiço, é mantra que se canta para sossegar a alma triste. É por isso que Angelino de Oliveira cantava:
Nestes versos tão singelos
Minha bela, meu amor
Pra você quero cantar
O meu sofrer, a minha dor
Eu sou como o sabiá
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está.
Há, também, a tristeza provocada pelas doenças da nossa personalidade. A maior parte das pessoas tem um conceito muito superficial de doença. Para elas, doença é apenas o intestino que não funciona bem, o coração que não bate direito ou a cabeça que dói. Mas, as doenças da nossa personalidade são mais comuns do que imaginamos. Todos nós, em menor ou menor grau, sofremos dessa doença, de um certo desajuste psíquico, de pequenas neuroses quotidianas. As pessoas que têm nos seus desajustes psíquicos a causa da sua tristeza devem ser curadas da mesma forma como se cura uma doença crônica: com um tratamento persistente, com a ajuda de especialistas, que tentam ajudar o paciente a encontrar as raízes da sua tristeza.
Há, por fim, uma outra forma de tristeza: aquela que se instala em nós quando amaldiçoamos, duvidamos, desprezamos e nos ensoberbecemos diante dos outros. É a tristeza que advém da desesperança diante dos outros e de nós mesmos, quando duvidamos da graça divina que permeia todas as realidades à nossa volta. É uma mistura de tristeza e tédio, uma confusão momentânea dos sentimentos que nos paralisa. O desassossegado Bernardo Soares já dizia: "Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconseqüências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."
É essa tristeza, a filha de Satã, a quem abrimos as portas da nossa alma todas as vezes que pecamos e nos damos conta dessa realidade. Os antigos cunharam um termo muito preciso para falar desse tipo de tristeza: acídia, um dos sete pecados capitais.
A acídia é uma velha conhecida do cristianismo. Um dos textos do cristianismo primitivo que chegaram até nós, "O Pastor de Hermas", escrito por volta do ano 140, já advertia com gravidade: "Afasta, pois, de ti a tristeza (…) Não vês que a tristeza é o mais iníquo de todos os espíritos; o mais temível para os servos de Deus dentre todos os espíritos: Ela arruína o homem, contristece o espírito santo e volta a salvar."
Mas, é sobretudo com os Padres do Deserto que a acídia será dissecada em todo o seu dinamismo interno e nas suas conseqüências para aqueles que se vêem abatidos por tal mal.
A partir do ano 300, um grande número de cristãos – a maior parte homens, mas, também, mulheres – se entregaram a uma vida solitária nos lugares desérticos e ermos das regiões onde hoje se localizam o norte do Egito, Israel, Síria e Líbano. Ficaram conhecidos como Padres e Madres do Deserto - pais e mães da fé dos primeiros cristãos. A vida monástica surgida, primeiramente no oriente, e, em seguida, no ocidente, com São Bento, tem nesses padres do deserto as suas raízes.
Esses eremitas travaram uma batalha heróica nos seus eremitérios pelo conhecimento e pelo domínio das suas próprias paixões. As paixões e os sentimentos descontrolados eram encarados como verdadeiros demônios, no sentido de roubarem a inteireza do eremita, impedindo-o de estar totalmente presente na sua ação quotidiana, seja o trabalho manual ou a oração. Verdadeiros conhecedores e terapeutas da alma e das paixões humanas, eles nos deixaram um rico legado no que diz respeito ao conhecimento dos vícios de que são acometidos todos os que se colocam no caminho de Deus. A acídia é um dos temas recorrentes nos escritos desses santos dos desertos.
Eles já nos advertiam sobre um dos perigos da acídia: a fuga do momento presente. Para os que são afetados desse mal, o futuro incerto ou o passado irremediavelmente perdido são sempre uma moradia melhor para nos recolhermos do que o momento presente. Somos acometidos por uma inquietação interior que nos impede de saborearmos e vivermos com intensidade o momento presente. Ficamos divididos, perdemos a nossa inteireza. Traçamos planos de um futuro próximo melhor, longe dos problemas e aborrecimentos atuais. Revisitamos os momentos passados, as lembranças aconchegantes, na esperança vã de recriarmos esse ambiente no momento presente. A acídia nos cega para qualquer traço de caridade presente nas pessoas com quem convivemos.
É um momento difícil de ser superado. Como a AIDS, que corrompe o elemento do nosso organismo capaz de reagir contra as enfermidades, a acídia ataca-nos justamente na nossa capacidade e desejo de reagirmos contra essa indisposição da alma.
Dezessete séculos nos separam desses heróis do deserto. Mas, quando conseguimos transpor a barreira cultural que nos separa deles e estabelecemos aquela comunhão vital com o texto que temos em mãos, constatamos, mais uma vez, o óbvio: em se tratando da natureza humana, não há nada de novo sob o sol.
Mas não é sobre a infelicidade que desejo falar. A infelicidade é um processo que se constrói e se aprofunda ao longo da vida das pessoas, fruto de acontecimentos alheios à própria vida ou fruto das conseqüências de decisões tomadas. A tristeza, entretanto, é diferente da infelicidade. Se a infelicidade é o quadro pintado com cores sombrias que retrata a vida dos infelizes, a tristeza é apenas uma das tintas - talvez a mais carregada - usadas nesse quadro. A mesma tinta da tristeza pode dar forma a outros quadros que não são, necessariamente, os da infelicidade.
Há a tristeza de luto, aquela causada quando um pedaço de nós - pai, mãe, filho, marido, esposa, irmão, amigo - lentamente ou abruptamente, é arrancado do nosso peito. Quanto mais abrupta for essa ruptura e quanto menos tempo tivermos tido para nos prepararmos para ela, maior a nossa tristeza e perplexidade. Na garganta, fica a pergunta atravessada: por quê? Buscamos uma resposta como quem busca um cicatrizante capaz de estancar a tristeza que arde em nós. Busca inútil.
Há a tristeza pacífica dos poetas. O pastor de palavras Alberto Caeiro já dizia a respeito da sua própria tristeza:
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Na tristeza dos poetas, há sempre um pouco de saudade. Por isso, eles cantam. Música é feitiço, é mantra que se canta para sossegar a alma triste. É por isso que Angelino de Oliveira cantava:
Nestes versos tão singelos
Minha bela, meu amor
Pra você quero cantar
O meu sofrer, a minha dor
Eu sou como o sabiá
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está.
Há, também, a tristeza provocada pelas doenças da nossa personalidade. A maior parte das pessoas tem um conceito muito superficial de doença. Para elas, doença é apenas o intestino que não funciona bem, o coração que não bate direito ou a cabeça que dói. Mas, as doenças da nossa personalidade são mais comuns do que imaginamos. Todos nós, em menor ou menor grau, sofremos dessa doença, de um certo desajuste psíquico, de pequenas neuroses quotidianas. As pessoas que têm nos seus desajustes psíquicos a causa da sua tristeza devem ser curadas da mesma forma como se cura uma doença crônica: com um tratamento persistente, com a ajuda de especialistas, que tentam ajudar o paciente a encontrar as raízes da sua tristeza.
Há, por fim, uma outra forma de tristeza: aquela que se instala em nós quando amaldiçoamos, duvidamos, desprezamos e nos ensoberbecemos diante dos outros. É a tristeza que advém da desesperança diante dos outros e de nós mesmos, quando duvidamos da graça divina que permeia todas as realidades à nossa volta. É uma mistura de tristeza e tédio, uma confusão momentânea dos sentimentos que nos paralisa. O desassossegado Bernardo Soares já dizia: "Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconseqüências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."
É essa tristeza, a filha de Satã, a quem abrimos as portas da nossa alma todas as vezes que pecamos e nos damos conta dessa realidade. Os antigos cunharam um termo muito preciso para falar desse tipo de tristeza: acídia, um dos sete pecados capitais.
A acídia é uma velha conhecida do cristianismo. Um dos textos do cristianismo primitivo que chegaram até nós, "O Pastor de Hermas", escrito por volta do ano 140, já advertia com gravidade: "Afasta, pois, de ti a tristeza (…) Não vês que a tristeza é o mais iníquo de todos os espíritos; o mais temível para os servos de Deus dentre todos os espíritos: Ela arruína o homem, contristece o espírito santo e volta a salvar."
Mas, é sobretudo com os Padres do Deserto que a acídia será dissecada em todo o seu dinamismo interno e nas suas conseqüências para aqueles que se vêem abatidos por tal mal.
A partir do ano 300, um grande número de cristãos – a maior parte homens, mas, também, mulheres – se entregaram a uma vida solitária nos lugares desérticos e ermos das regiões onde hoje se localizam o norte do Egito, Israel, Síria e Líbano. Ficaram conhecidos como Padres e Madres do Deserto - pais e mães da fé dos primeiros cristãos. A vida monástica surgida, primeiramente no oriente, e, em seguida, no ocidente, com São Bento, tem nesses padres do deserto as suas raízes.
Esses eremitas travaram uma batalha heróica nos seus eremitérios pelo conhecimento e pelo domínio das suas próprias paixões. As paixões e os sentimentos descontrolados eram encarados como verdadeiros demônios, no sentido de roubarem a inteireza do eremita, impedindo-o de estar totalmente presente na sua ação quotidiana, seja o trabalho manual ou a oração. Verdadeiros conhecedores e terapeutas da alma e das paixões humanas, eles nos deixaram um rico legado no que diz respeito ao conhecimento dos vícios de que são acometidos todos os que se colocam no caminho de Deus. A acídia é um dos temas recorrentes nos escritos desses santos dos desertos.
Eles já nos advertiam sobre um dos perigos da acídia: a fuga do momento presente. Para os que são afetados desse mal, o futuro incerto ou o passado irremediavelmente perdido são sempre uma moradia melhor para nos recolhermos do que o momento presente. Somos acometidos por uma inquietação interior que nos impede de saborearmos e vivermos com intensidade o momento presente. Ficamos divididos, perdemos a nossa inteireza. Traçamos planos de um futuro próximo melhor, longe dos problemas e aborrecimentos atuais. Revisitamos os momentos passados, as lembranças aconchegantes, na esperança vã de recriarmos esse ambiente no momento presente. A acídia nos cega para qualquer traço de caridade presente nas pessoas com quem convivemos.
É um momento difícil de ser superado. Como a AIDS, que corrompe o elemento do nosso organismo capaz de reagir contra as enfermidades, a acídia ataca-nos justamente na nossa capacidade e desejo de reagirmos contra essa indisposição da alma.
Dezessete séculos nos separam desses heróis do deserto. Mas, quando conseguimos transpor a barreira cultural que nos separa deles e estabelecemos aquela comunhão vital com o texto que temos em mãos, constatamos, mais uma vez, o óbvio: em se tratando da natureza humana, não há nada de novo sob o sol.

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