<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912</id><updated>2011-12-03T16:04:27.313-02:00</updated><category term='Caraça Solidão Amizade'/><title type='text'>O ARRUMADOR</title><subtitle type='html'>À sombra da oliveira,&lt;br&gt;
colocarei ordem nas minhas palavras,&lt;br&gt;
na esperança de que as realidades que me habitam&lt;br&gt;
caminhem na mesma direção.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8850009566121462407</id><published>2011-10-02T20:16:00.002-03:00</published><updated>2011-10-02T20:25:26.412-03:00</updated><title type='text'>O RABO DA PORCA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-DiH0E2FNXVY/TojwMXogtyI/AAAAAAAABBA/-0yA70IBrx8/s1600/raboporca.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-DiH0E2FNXVY/TojwMXogtyI/AAAAAAAABBA/-0yA70IBrx8/s1600/raboporca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=205" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;“Deus nos dá pessoas e coisas,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;para aprendermos a alegria...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Depois, retoma coisas e pessoas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;para ver se já somos capazes da alegria sozinhos...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Essa... a alegria que ele quer.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Guimarães Rosa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Gratuidade e reciprocidade, duas realidades aparentemente inconciliáveis. Quando uma entra em cena, a outra deixa o tablado. A gratuidade é via de mão única em direção ao outro. A reciprocidade trafega em estrada de mão dupla. O amor é o transeunte dessas duas vias. Trafega ora em uma, ora em outra via, em uma tensão permanente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Na dinâmica dos relacionamentos humanos, a reciprocidade tem predominância. Desde cedo fomos condicionados (ao mesmo tempo em que condicionávamos nossos pais) nessa dinâmica de dar e receber algo em troca: estripulias por palmadas na bunda, bom comportamento por um brinquedo, boas notas por passeio. Crescemos e as nossas necessidades e desejos tornam-se mais sofisticados: afeto, diálogo, encontro, escuta, ombro amigo. A expectativa por sermos atendidos nesses novos desejos é transportada do núcleo familiar para o círculo de amizades e de outras formas de relacionamentos, como o namoro e o casamento. Neste ponto, a porca torce o rabo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Primeiro, porque, se a reciprocidade tem predominância nos relacionamentos, a gratuidade deve ter primazia. Um amor que não seja gratuito, qualquer que seja o relacionamento em questão - familiar, de amizade, namoro, casamento - não se sustenta. Relacionamentos baseados predominantemente na reciprocidade podem até subsistir em sua aparência ou formalidade. Entretanto, correm o risco de carregar não o calor do amor e do afeto, mas a frieza da indiferença e da formalidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Segundo, porque ainda que o outro responda a um gesto ou sentimento nosso, essa resposta nunca será satisfatória. As medidas de um nunca serão do mesmo tamanho das medidas do outro. Haverá uma discrepância por deficiência ou por excesso naquilo que se recebe de volta. Algumas vezes, uma diferença grande. Outras, pequena.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Em terceiro lugar, porque a gratuidade em seu estado puro é algo demasiadamente elevado para a nossa condição tão humana de amar. Por detrás do gesto mais altruísta e gratuito há um latente e silencioso desejo de algo em troca. Para exemplificar apenas com um caso extremo, aquele que deu a sua vida pela vida de outro em um campo de concentração, fê-lo, em última instância, pela fé e pela certeza de uma bem-aventurança na eternidade. Não se trata de algo bom ou ruim. Trata-se apenas de uma constatação de uma realidade dos nossos relacionamentos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Se a gratuidade deve ter primazia nos relacionamentos, ao mesmo tempo em que ela é algo por demais distante, qual é o segredo da permanência, por anos a fio, de relacionamentos de amizade intensa ou de uma vida matrimonial viva? Quais são as possíveis razões para que uma amizade ou um casamento sejam mantidos vivos e acesos ao longo dos anos? E, de maneira inversa, quais são os motivos para que tais relacionamentos findem de maneira silenciosa ou ruidosa? Talvez uma das respostas esteja em um sadio equilíbrio (ou na falta dele) entre gratuidade e reciprocidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Para nos atermos apenas ao âmbito da amizade, é natural dela, como canta Renato Teixeira, o abraço, o aperto de mão, o sorriso, o saber entender o silêncio e manter a presença, mesmo quando ausente. É a natural alegria do contato periódico, ainda que demorado para se realizar. É a alegria antecipada do principezinho do Exupéry quando o amigo anuncia que está para chegar. É a pergunta serena do amigo: como vai você? Guimarães Rosa definiu-o bem em &lt;i&gt;Grande sertão: veredas&lt;/i&gt;:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;i&gt;Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;É engraçado como uma amizade gratuita tem justamente a capacidade de despertar gestos mútuos de reciprocidade, que acontecem com naturalidade, sem cobranças. Neste ponto, a gratuidade e a reciprocidade dão-se a as mãos. O coração sabe de uma maneira intuitiva quando isso acontece. Sabe que, mesmo no silêncio e na ausência do amigo, a amizade permanece acesa sob as cinzas. Mas, sabe, também, quando a amizade finda ou está a caminho de findar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Talvez a grande lição a aprender de uma amizade que finda seja justamente esta: guardar no coração o bem operado em nós pela amizade que findou. E continuar sendo feliz. Simples assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8850009566121462407?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8850009566121462407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2011/10/o-rabo-da-porca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8850009566121462407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8850009566121462407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2011/10/o-rabo-da-porca.html' title='O RABO DA PORCA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-DiH0E2FNXVY/TojwMXogtyI/AAAAAAAABBA/-0yA70IBrx8/s72-c/raboporca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-4591088410140205315</id><published>2011-03-02T05:30:00.001-03:00</published><updated>2011-10-02T20:29:04.421-03:00</updated><title type='text'>UM CANTO, UM DEMÔNIO E UMA MONTANHA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh4.googleusercontent.com/-kOT_cFR6nxc/TW4AD6LKOLI/AAAAAAAAAaI/q4ktPpo1eKo/s1600/vereioamor.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://lh4.googleusercontent.com/-kOT_cFR6nxc/TW4AD6LKOLI/AAAAAAAAAaI/q4ktPpo1eKo/s1600/vereioamor.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=206" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma vez por ano, uma tia, costureira, consumia a sua semana costurando pequenos pedaços de tecido, um a um, para fazer colchas de retalhos. Todos os restos de tecidos guardados ao longo do ano eram recortados em retângulos ou quadrados de diferentes tamanhos e unidos pelo fio da sua máquina de costura, pela sua paciência, pelo seu silêncio e pela sua oração. Algumas vezes, era necessário chamá-la duas vezes para que ela saísse do transe da sua oração e do seu trabalho. Quando prontas, as colchas eram doadas para asilos ou outras pessoas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;Hoje, também eu quero costurar uma colcha de retalhos. Não retalhos de tecidos, mas de coisas que me aquecem o coração. A linha será substituída pelas palavras. Permanecerão, entretanto, o silêncio e a oração, que nascem de um coração agradecido por tudo aquilo que a vida&amp;nbsp; nos concede por meio das pessoas que nos habitam e que tornam a nossa existência mais serena.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;O primeiro retalho é um canto que me acompanha há quase vinte anos. Os nossos relacionamentos com a música são como namoros, são como o encontro entre corações que se reconhecem amparados e aquecidos mutuamente. O enamoramento com alguma música pode ser manso e sereno, como o enamoramento pelo “Bolero”, de Ravel, através do qual somos seduzidos pouco a pouco, à medida que a intensidade da música avança dos seus acordes iniciais ao êxtase final. Com outras músicas, iniciamos um relacionamento intenso e apaixonado logo à primeira vista, ou, mais apropriadamente, à primeira audição. Reconhecemos, nelas, a nossa alma e a nossa existência. Estabelecemos, com as suas palavras, com as suas metáforas, com a sua poesia e com a sua melodia, aquela comunhão própria dos apaixonados. Foi assim com o canto que trago para iniciar a costura da minha colcha. É um canto em que a letra e a melodia já nasceram apaixonados: foram feitos um para o outro. O autor da melodia propôs ao autor da letra: “crie uma letra, a mais bela possível, e eu comporei a melodia mais bela para ela”. Nasceu, assim, “Verei o amor”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Vou andando, vou seguindo, sem ter onde parar.&lt;br /&gt;Vou olhando, procurando, o Amor a me guiar.&lt;br /&gt;Não há luzes, não há flores, nem canto, nem luar.&lt;br /&gt;Vejo a noite, sem estrelas e eu louco a caminhar.&lt;br /&gt;Não sei quando, não sei onde, mas verei o amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruge o vento, vou seguindo, sem ter quem abraçar.&lt;br /&gt;Não há rostos sorridentes e eu firme a caminhar.&lt;br /&gt;Atravesso densas nuvens em busca de um olhar.&lt;br /&gt;Ultrapasso cordilheiras seguro de chegar.&lt;br /&gt;Vou cansando, tropeçando, mas verei o amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há força que me prenda ou impeça de avançar.&lt;br /&gt;Não há rogos que me movam e façam recuar.&lt;br /&gt;Sigo em frente, sempre em frente, há um norte a me chamar.&lt;br /&gt;Vou sabendo que, ansioso, estás a me esperar.&lt;br /&gt;Vão cessando meus cantares, mas verei o amor!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A letra do canto bebe do mesmo espírito de “Noite escura”, um dos cantos místicos de São João da Cruz. Nesse canto, João da Cruz descreve a união mística da alma com Deus, em meio à noite escura da busca e da existência humana. E, assim como o autor do nosso canto afirma a sua certeza de que ele irá contemplar o Amor ao fim da sua caminhada, também João da Cruz afirma a sua certeza de que a noite é ditosa, pois ela mesma é o guia até o Amado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;“Verei o amor” sinaliza para uma realidade da existência humana: a solidão. Cada ser&amp;nbsp; humano e o restante da criação são a emanação da relação amorosa da Comunhão Trinitária. O ser humano e a criação inteira nascem com uma saudade entranhada no seu corpo: saudade daquela comunhão trinitária cuja imagem e semelhança eles carregam em si. Por isso, gemem dores de parto enquanto não se encontrarem plenamente imersos na comunhão desse Amor Trinitário. Religião é sinônimo de saudade. Saudade não de uma realidade perdida em um passado remoto, mas desejo de realização de um amor pleno ofertado a nós nesta presente realidade e que nos projeta para o futuro. É uma saudade do que virá. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;O amor humano, em suas diferentes formas de expressão e de manifestação, é o único meio de experimentarmos, nesta presente realidade, uma vaga aproximação do que seja o Amor Trinitário. E, neste ponto, as coisas se complicam. É que, se o amor de Deus é pura gratuidade, é um dar-se incondicional, o amor humano reclama algo em troca. Em situações mais brandas, reclama atenção, reclama afeto, reclama cuidado, reclama diálogo. Em casos mais extremos, reclama a própria pessoa amada, chegando ao ponto de desejar possuí-la totalmente. O último grau dessa caricatura do amor é o crime passional: se o indivíduo não pode ter toda a atenção da pessoa supostamente amada, ninguém mais a terá. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;Não é possível haver amor sem gratuidade. E, da mesma forma que o amor, que é, por natureza, em processo – nunca se ama alguém, aprende-se a amá-lo –, também a vivência da gratuidade é um processo lento e gradativo, que cresce em simbiose estreita com a experiência do verdadeiro amor. Mas, nesse processo, quanto sofrimento mútuo e quanta complicação, o contrário de amar. Amar é descomplicar. Amar é simplificar os sentimentos e os afetos. E, neste ponto, trago mais um pedaço de tecido: a poesia de Alberto Caeiro, que propôs:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Sejamos simples e calmos,&lt;br /&gt;Como os regatos e as árvores,&lt;br /&gt;E Deus amar-nos-á fazendo de nós&lt;br /&gt;Nós como as árvores são árvores&lt;br /&gt;E como os regatos são regatos,&lt;br /&gt;E dar-nos-á verdor na sua primavera,&lt;br /&gt;E um rio aonde ir ter quando acabemos...&lt;br /&gt;E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Caeiro é um poeta com uma relação toda especial com as demais criaturas:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Ah, como os mais simples dos homens&lt;br /&gt;São doentes e confusos e estúpidos&lt;br /&gt;Ao pé da clara simplicidade&lt;br /&gt;E saúde em existir&lt;br /&gt;Das árvores e das plantas.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele contrasta a natureza das demais criaturas com relação aos seus semelhantes humanos:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Quem me dera que eu fosse o pó da estrada&lt;br /&gt;E que os pés dos pobres me estivessem pisando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me dera que eu fosse os rios que correm&lt;br /&gt;E as lavadeiras estivessem à minha beira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio&lt;br /&gt;E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro&lt;br /&gt;E que ele me batesse e me estimasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes isso que ser o que atravessa a vida&lt;br /&gt;Olhando para trás de si e tendo pena...&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Caeiro é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Ao contrário dos pseudônimos, quando um mesmo autor utiliza vários nomes para a sua única e mesma personalidade e estilo de escrever, os heterônimos constituem várias personalidades distintas habitando o mesmo escritor. Fernando Pessoa seria mais corretamente nomeado Fernando Pessoas, no plural. Nele habitam diferentes pessoas, personalidades distintas. Alberto Caeiro é diferente de Ricardo Reis, que é diferente de Álvaro de Campos, que são diferentes, por sua vez, de Fernando Pessoa, o ortônimo, que abrigava os heterônimos. Tudo isso pode parecer complicado, ao contrário do que ensinava Alberto Caeiro. Há uma forma e uma palavra mais simples para descrever esse fenômeno. Fernando Pessoa é um demônio. Um demônio, não, ele é uma legião, “porque somos muitos”. Desconfio que escrever era a forma de ele nomear os seus demônios e exorcizá-los. Sorte nossa, herdeiros dos seus demônios poéticos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;Na casa onde viveu Fernando Pessoa, em Lisboa, há uma pequena e seleta biblioteca de poetas lusófonos. Nela é possível encontrar livros de Adélia Prado. E é com a poesia dela que eu trago mais um retalho de tecido para a minha colcha: a Serra da Piedade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Minas tem coisas terríveis,&lt;br /&gt;a Serra da Piedade me transtorna.&lt;br /&gt;Em meio a tanta rocha&lt;br /&gt;de tão imediata beleza,&lt;br /&gt;edificações geridas pelo inferno,&lt;br /&gt;pelo descriador do mundo.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santuário de Nossa Senhora da Piedade, Serra da Piedade, Minas Gerais. No alto dessa serra próxima a Belo Horizonte, formada por imensos paredões rochosos, pontiagudos e disformes, parecendo terem sido semeados pelo descriador do mundo, tento exorcizar meus próprios demônios. Exorcismo é uma luta solitária. Como Fernando Pessoa, trazemos uma legião de demônios, de realidades conflitantes em nós: luzes e sombras, impulsos de vida e de morte, altruísmo e egoísmo, amores e ódios, gratuidade e desejo de posse, lobos e cordeiros, crianças e serpentes. Lá no alto da Serra da Piedade, esse caos real que carregamos em nós cessa o seu ruidoso conflito. Os nossos demônios interiores pacificam-se e opera-se, em nós, aquela paz messiânica vislumbrada pelo profeta Isaías e que um dia irá tomar conta de toda a criação:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo, pois a terra estará cheia do conhecimento de YHWH, como as águas enchem o mar&amp;nbsp; (Is 11,6-9).&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pacificados e serenados do nosso turbilhão interior, opera-se, finalmente, o fenômeno da comunhão profunda com todas as realidades e pessoas amadas que nos habitam. É uma experiência mais estreita do Amor Trinitário. Cessa o nosso desejo de posse. O corpo expande-se até alcançar e tocar, com os nossos pensamentos de amor, as pessoas amadas. O coração abrasa-se com a memória e a presença de tantas pessoas queridas e amadas em nossa vida. Silenciamos ainda mais e passamos, do amor às pessoas que nos habitam, ao amor de Deus mesmo, fonte e consumação de todo amor humano. É a graça. O paradoxal em toda essa experiência de comunhão é que precisamos cultivar a nossa própria solidão. Mais sós para sermos mais nós. Entretanto, para sermos plenamente nós mesmos, é em direção ao Outro e a todo o resto que temos que avançar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;E assim, termino a costura dessa pequena colcha de retalhos. O leitor que o desejar poderá enrolar-se nela e também nela se aquecer. Afinal, por qual motivo não haverá de ser a minha colcha, feita de palavras e de comunhão, mais aconchegante do que qualquer outra?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-4591088410140205315?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/4591088410140205315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2011/03/um-canto-um-demonio-e-uma-montanha.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/4591088410140205315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/4591088410140205315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2011/03/um-canto-um-demonio-e-uma-montanha.html' title='UM CANTO, UM DEMÔNIO E UMA MONTANHA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='https://lh4.googleusercontent.com/-kOT_cFR6nxc/TW4AD6LKOLI/AAAAAAAAAaI/q4ktPpo1eKo/s72-c/vereioamor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8918222716812888778</id><published>2010-05-01T12:38:00.012-03:00</published><updated>2010-10-20T09:39:49.478-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Caraça Solidão Amizade'/><title type='text'>A SOLIDÃO, A BELEZA E O MISTÉRIO.</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: center;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7UvOS4TpI/AAAAAAAAAYY/28B-ENTrttY/s1600/caraca.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7UvOS4TpI/AAAAAAAAAYY/28B-ENTrttY/s1600/caraca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Caraça, Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Entre tantos títulos atribuídos àquela que gestou em seu ventre, carregou no seu regaço e amamentou no seu seio aquele por quem todo o cosmos foi criado, no Caraça ela é venerada como “Mãe dos Homens”, mãe da humanidade. Foi sob essa invocação que Irmão Lourenço, o ermitão e irmão franciscano fundador do Santuário do Caraça, em Minas Gerais, colocou a proteção desse importante santuário na história da Igreja do Brasil. Visitar esse santuário é sempre uma experiência revigorante. Em primeiro lugar, graças ao ecossistema que compõe a Reserva Particular de Patrimônio Natural que circunda uma grande área em volta da sede do santuário. Em meio às montanhas, às rochas, à mata e às cachoeiras, conseguimos reencontrar a inteireza e a serenidade por vezes esquecidas no quotidiano de nossa vida. Em segundo lugar, graças ao templo neogótico no centro do complexo de edificações que compõem a sede do santuário. Infelizmente, é necessário dizê-lo: em não poucos templos católicos sentimos a vontade de sair deles para podermos rezar. Não encontramos neles o ambiente de silêncio, de beleza e de mistério pelos quais ansiamos. No templo do Caraça, felizmente, ocorre exatamente o contrário. Ao nos adentrarmos no seu interior, feito de pedra e de vidro, respiramos silêncio e sacralidade: Deus habita esse lugar. A pedra talhada, usada no pórtico de entrada, nas colunas e na ornamentação do templo, nos faz pensar: se mãos humanas conseguem extrair tamanha beleza de material tão bruto, não poderá fazer o mesmo Deus conosco? Os vitrais das janelas e das rosáceas dão leveza à pedra usada na sustentação e na ornamentação do templo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sozinhos no interior desse templo, a invocação a Maria como “Mãe da Humanidade” ressoa em nossa oração. O cristianismo, antes de ser uma experiência religiosa que nos eleva aos céus, é um caminho religioso que nos atira à terra, ao quotidiano da nossa vida. Deus, quando quis nos salvar, não nos levou para junto dele, mas fez o caminho inverso: desceu à nossa humanidade, veio ao encontro da nossa humana realidade, com tudo aquilo que ela tem de grandioso e de mesquinho, para somente então, com a sua ressurreição, introduzir a nossa humanidade na comunhão trinitária. O Verbo de Deus encarnado no ventre de Maria é o humano por excelência. Nele não habitou o pecado, pois o pecado é justamente aquilo que nos desumaniza. Pecar não é humano. Pecar é desumano. E se Jesus é o humano por excelência e ele é o caminho que nos conduz a Deus, não há salvação fora da nossa humanização.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ao assumir a nossa condição humana, Jesus assumiu uma realidade que carregamos ao longo da nossa existência: a solidão. Criados à imagem e semelhança de Deus Trindade, de Deus Comunhão, estaremos inquietos enquanto não estivermos plenamente mergulhados na comunhão desse Amor Trinitário. A solidão humana não é o vazio de uma ausência, mas a saudade e o desejo de uma comunhão apenas timidamente experienciada nesta nossa presente realidade. Como Teilhard de Chardin, em sua “Missa no Altar do Mundo”, elevamos a Deus a nossa súplica: Senhor, fazei-nos um!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Na vivência da sua solidão, Jesus estabeleceu o seu relacionamento único com o Pai, transformando a sua solidão em oração profunda e comunhão com o Pai. Nesses momentos de solidão, Jesus encontrou a força e o discernimento necessários à sua missão e ao enfrentamento dos conflitos decorrentes da sua pregação e da sua prática. Finalmente, no alto da cruz, Jesus precisou enfrentar a solidão derradeira de um aparente abandono.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Neste oceano de solidão em que navegamos, enquanto não chegamos ao porto seguro do nosso destino final, experienciamos breves paragens, pequenos ancoradouros onde atracamos o barco da nossa existência e do nosso navegar. Aí repousamos e nos reabastecemos para, logo em seguida, prosseguirmos viagem. Esses breves momentos de descanso e de ancoragem são os encontros que a vida nos proporciona de maneira gratuita. É a graça. Essa graça se manifesta no encontro e no estabelecimento de amizades duradouras. Manifesta-se quando, sozinhos, contemplamos o ocaso do sol ao entardecer. Manifesta-se quando a beleza e a simplicidade do espaço, do canto e da ação litúrgica nos introduzem no mistério no qual estaremos plenamente mergulhados um dia. Manifesta-se quando, no pináculo de uma montanha, fazemos a experiência da nossa própria fragilidade e da fragilidade do ecossistema à nossa volta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, com brevidade, toda essa graça se esvai. Deixamos o Caraça. Despedimo-nos dos amigos. O sol finaliza o seu ocaso e vem a noite. A ação litúrgica é concluída e regressamos ao nosso quotidiano. Descemos a montanha. Desamarramos nossa existência desses portos seguros e retomamos nossa viagem. Regressamos ao oceano. Mas, voltamos transformados. A certeza da amizade mantém aquecido nosso coração. O mistério vivenciado na ação litúrgica educa o nosso olhar para percebermos esse mesmo mistério de amor e de bondade em meio ao quotidiano e à iniquidade da comunidade humana. A experiência de comunhão com o ecossistema e a sua fragilidade despertam em nós o desejo de cuidado para com a nossa casa terrestre. O sol findando a sua jornada diária no horizonte nos recorda o nosso destino final.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ao entardecer, o sol abranda o seu fulgor. O azul límpido e intenso do céu no cume da montanha cede lugar à tonalidade ocra-avermelhada do sol. O sol, antes de uma intensidade que nos impedia de contemplá-lo diretamente, cessa o seu fulgor e nos concede a graça de podermos contemplá-lo diretamente sem ferir o nosso olhar. Vagarosamente, ele toca a linha do horizonte, até desaparecer por completo. Também nós, no entardecer da nossa vida, estaremos face a face com o sol da nossa existência. A intensidade do Amor Trinitário não mais será incômoda à nossa presente fragilidade. Poderemos, finalmente, ficar face a face com Deus, extasiados pela beleza desse amor que nos é oferecido em toda a sua plenitude. Saberemos, então, que chegamos, finalmente, ao nosso destino final. Guiados por esse amor, cruzaremos a linha do horizonte. E lá, para além da realidade desta presente existência, reencontraremos as pessoas amadas que nos antecederam nesse cruzar de horizontes. E aguardaremos, com ansiosa serenidade, a chegada de todos os conhecidos dos portos onde atracamos para podermos viver, todos juntos, aquilo que nesta vida vivemos como mistério, mas que, além do horizonte, é uma realidade de amor e de comunhão plenos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8918222716812888778?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8918222716812888778/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2010/05/solidao-beleza-e-o-misterio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8918222716812888778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8918222716812888778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2010/05/solidao-beleza-e-o-misterio.html' title='A SOLIDÃO, A BELEZA E O MISTÉRIO.'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7UvOS4TpI/AAAAAAAAAYY/28B-ENTrttY/s72-c/caraca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-7685706682305093411</id><published>2009-06-01T19:54:00.020-03:00</published><updated>2009-06-21T11:06:21.825-03:00</updated><title type='text'>ASSIS É AQUI</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SiRmk2Xdo7I/AAAAAAAAANs/Ah7mv01LDgY/s1600-h/caminhada1.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 506px; DISPLAY: block; HEIGHT: 175px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5342507841223500722" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SiRmk2Xdo7I/AAAAAAAAANs/Ah7mv01LDgY/s400/caminhada1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SiRmP89COKI/AAAAAAAAANk/vrgCg1NYc3w/s1600-h/caminhada1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Diálogo Interreligioso com rosto brasileiro&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 13 de maio último, aconteceu, em Belo Horizonte, a I Caminhada Cultural pela Liberdade Religiosa e pela Paz. A data escolhida para o evento – Dia da Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – evidenciou o espírito com que o evento foi organizado: a denúncia contra a intolerância religiosa de que são vítimas as religiões de matriz africana e a busca pelo entendimento entre as religiões e pela paz na sociedade brasileira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A iniciativa do evento partiu de grupos ligados ao movimento negro, ao candomblé e à umbanda. A Educafro participou do evento como uma das entidades organizadoras. O evento significou um passo importante em Belo Horizonte na luta contra a intolerância religiosa arraigada na sociedade brasileira e que, volta e meia, vem à tona através de atos de violência ou ações discriminatórias contra os adeptos da religiões de matriz africana. Mais do que uma denúncia contra a intolerância, a caminhada foi a demonstração de que uma convivência e compreensão mútua são possíveis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Audiência pública&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A caminhada foi precedida por uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no dia 6/5/2009. No auditório da Assembleia, estiveram presentes lideranças do candomblé e da umbanda, representantes da Polícia Militar, da Igreja Metodista, da Igreja Católica, da Secretaria dos Direitos Humanos, da comunidade Hare Krishna e de entidades culturais e universitárias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os líderes religiosos afirmaram a indignação frente a práticas discriminatórias e de intolerância contra as religiões afro-brasileiras. É uma realidade frente à qual não podemos fechar nossos olhos. Em fevereiro do ano passado, um terreiro de Contagem foi invadido por policiais militares, sem mandado policial, a partir de uma denúncia anônima de cárcere privado. Os locais sagrados foram violados e várias pessoas foram levadas para a delegacia, quando foi confirmado que a denúncia era improcedente. Em abril deste ano, um homem encapuzado invadiu um terreiro de candomblé no bairro Dom Silvério, em Belo Horizonte, matando uma pessoa e deixando várias feridas. Uma cena como essa – policiais armados invadindo um lugar de culto – seria plausível dentro de um templo católico ou da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)? Esta última denominação religiosa, por sinal, tem sido responsável por exportar para países da África uma intolerância religiosa à moda brasileira. Em Moçambique, pastores brasileiros mereceram destaque na imprensa local por fazerem com a religião tradicional africana (o culto familiar aos antepassados) o mesmo que fazem em relação ao candomblé e a umbanda no Brasil: a satanização dos ritos dessas religiões. Na Zâmbia, a IURD chegou a ser proibida de operar no país, devido às mesmas acusações de provocar intolerância no meio da população local. O Brasil exporta, atualmente, não apenas novelas, frangos e sandálias havaianas. Exporta, também, intolerância religiosa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As igrejas pentecostais são as principais protagonistas de atos de intolerância. Neste sentido, não se pode excluir o papel da Igreja Católica nessa cultura de intolerância, principalmente através do movimento pentecostal católico (RCC). Em 2008, a Justiça da Bahia determinou o recolhimento, em Salvador, de todos os exemplares do livro "Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de Cura e Libertação", da editora Canção Nova, escrito pelo padre Jonas Abib. Para o Ministério Público baiano, que pediu o recolhimento do livro, o padre cometeu o crime de "prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso", previsto na lei 7. 716, de 1989. De acordo com o promotor Almiro Sena, Abib faz no livro "afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto". No livro, o autor afirma que "O demônio, dizem muitos, ‘não é nada criativo’. (...) Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé". Esta satanização das religiões afro-brasileiras, típica de grupos religiosos fanáticos, tem crescido na sociedade brasileira, à medida em que o pentecostalismo – seja ele de cunho evangélico ou católico – ganha espaço na nossa sociedade. É emblemático que padres e pastores, com acesso privilegiado aos meios de comunicação social (uma concessão do Estado brasileiro) e com o consequente poder de persuassão das massas, se coloquem a divulgar e a incentivar práticas contrárias à Constituição brasileira e, fundamentalmente, ao Evangelho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Educafro e o diálogo com as religiões afro-brasileiras&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Educafro Minas, pelo fato de ser um cursinho pré-vestibular com enfoque racial, tem possibilitado à Província Santa Cruz um contato institucional com o movimento negro e com os grupos religiosos de matriz africana na região metropolitana de Belo Horizonte. Sem contato, não há diálogo. A sede da Educafro em Belo Horizonte serviu de apoio para a preparação e o lançamento da caminhada. Os organizadores da caminhada sabem: a Educafro está ligada aos frades franciscanos e eles os acolhem, com os franciscanos é possível haver diálogo e compreensão. Pois o contrário da intolerância não é a tolerância. Tolerar as demais denominações religiosas é o princípio de uma caminhada que devemos percorrer, mas não é o que se busca como meta. O que se busca ao abandonarmos a intolerância é a compreensão, o conhecimento das razões profundas das tradições religiosas e culturais afro-brasileiras, para daí resultar uma convivência respeitosa e fraterna. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia da caminhada e na audiência na Assembleia Legislativa, a força simbólica do hábito franciscano misturado em meio à indumentária branca dos adeptos do candomblé e da umbanda falava por si só, num paralelo em menor escala do Encontro Mundial de Oração pela Paz, realizado em Assis, em 27 de outubro de 1986. A imagem do papa João Paulo II rodeado pelos representantes das principais tradições religiosas espalhadas no mundo, em coloridas indumentárias e postados em frente à igrejinha da Porciúncula, onde São Francisco deu início ao seu projeto evangélico, foi um momento histórico na caminhada do diálogo interreligioso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em Belo Horizonte, como em Assis, a caminhada de braços entrelaçados dos frades com seus hábitos e as yalorixás e babalorixás em suas roupas rituais, demonstram a possibilidade concreta desse entendimento e respeito fraterno. Uma liderança do candomblé afirmava: nos nossos toques de sexta-feira, começamos sempre com a oração pela paz de São Francisco. O santo de Assis, banido do meio das senzalas e da religião dos povos negros pela sua associação com os senhores de escravos (e com os próprios frades escravagistas), retorna no nosso tempo como símbolo e exemplo da paz e do entendimento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O rosto brasileiro do diálogo interreligioso&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O diálogo interreligioso constitui um duplo imperativo para os membros da família franciscana. Fundamentalmente, é um imperativo cristão. A intolerância, seja ela religiosa ou de qualquer outra forma, é incompatível com o cristianismo. Na prática e na pregação de Jesus, ele se mostrou disponível para o diálogo com a samaritana, elogiou a fé da mulher siro-fenícia, apresentou o samaritano da parábola como exemplo de compaixão, acolheu aqueles que eram tidos como pecadores pela sociedade do seu tempo e com eles confraternizava e tomava refeição. Na sua pregação, afirmou que Deus fazia chover sobre justos e injustos, que a oferta de salvação é dada a todos, indistintamente, de uma maneira misteriosa. Nos passos de Jesus, o gesto de Francisco de Assis de dialogar com o sultão Malek-al-Kamil durante a V Cruzada no ano de 1219 na cidade de Damieta, no Egito, mostra a disposição e a abertura do santo de Assis para o diálogo, mesmo no contexto belicoso das cruzadas cristãs. Nasceu aqui – mas, não somente neste episódio – o carisma franciscano para o diálogo e o entendimento entre as culturas, povos e religiões. Portanto, o diálogo é, também, um imperativo proveniente do nosso carisma fundacional. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esse imperativo para o diálogo, ao colocar os pés em terras brasileiras, deveria, em princípio, priorizar três grupos principais: os adeptos do candomblé, da umbanda e do espiritismo kardecista. E isso por dois motivos principais. O primeiro, por questões numéricas. Essas tradições religiosas representam, numericamente, o maior grupo fora da esfera do cristianismo católico ou evangélico no Brasil. O segundo motivo tem a ver com o papel, principalmente do candomblé e da umbanda, na formação da cultura e da identidade brasileira. É esse diálogo interreligioso de cor negra e de periferia que deveria ser priorizado aqui no Brasil, onde o judaísmo e islamismo estão longe de se apresentarem como grandes desafios à nossa fé e ao nosso entendimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diferente da manhã tensa e violenta que tomou conta do centro de Belo Horizonte, quando estudantes secundaristas em manifestação pela adoção do meio-passe nos ônibus da capital entraram em confronto com a Polícia Militar, a Caminhada pela Liberdade Religiosa transcorreu de maneira descontraída e alegre. Desde o início da tarde, os diferentes grupos se revezaram em apresentações musicais, intercaladas pelas falas dos representantes dos diferentes grupos. Às 18 horas, o grupo saiu em caminhada pela Avenida Afonso Pena. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A caminhada terminou como começou: uma grande confraternização de diferenças religiosas na Praça Afonso Arinos. Ao observar a cena do alto co carro de som, uma certeza fazia-se presente. Jesus, ao falar do Reino, usava imagens relacionadas com banquetes para descrevê-lo. A imagem do banquete messiânico do Reino de Deus carrega várias realidades: a alegria, a comensalidade, o congraçamento, a comunhão, o sentar-se junto para cear, a música, a dança e a festa. Neste sentido, é possível afirmar: naquele congraçamento na Praça Afonso Arinos, estava presente, ainda que de maneira seminal, a realidade do Reino de Deus no meio de nós.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-7685706682305093411?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/7685706682305093411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/06/assis-e-aqui.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7685706682305093411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7685706682305093411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/06/assis-e-aqui.html' title='ASSIS É AQUI'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SiRmk2Xdo7I/AAAAAAAAANs/Ah7mv01LDgY/s72-c/caminhada1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8782842464257449323</id><published>2009-05-12T08:55:00.003-03:00</published><updated>2010-10-20T09:54:20.356-02:00</updated><title type='text'>EUCARISTIA: A SACRALIDADE DAS REALIDADES MUNDANAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7YXJTG5MI/AAAAAAAAAYc/5Uo6CQW1LKk/s1600/pao.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7YXJTG5MI/AAAAAAAAAYc/5Uo6CQW1LKk/s1600/pao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Alguém afirmou certa vez: quem não tem para com o pão cotidiano a mesma reverência prestada ao pão eucarístico ainda não compreendeu suficientemente a grandeza do mistério da encarnação de Jesus no ventre de Maria e nas realidades humanas. Assim, entre as várias dimensões da eucaristia (por exemplo, sua dimensão profética, que aponta para a injusta exclusão de alguns membros do corpo de Cristo de uma vida digna; sua dimensão santificadora, através da nossa co-participação no corpo cósmico de Cristo e, nele, no seio da comunhão Trinitária; sua dimensão escatológica, quando antecipamos nesta vida a comunhão plena que será estabelecida na vida eterna), há um aspecto que não pode ser esquecido: Deus escolheu duas realidades mundanas (pão e vinho) para manifestar a sua presença eucarística (mistérica) no meio de nós. Ora, pão e vinho são muito mais do que simples alimento e bebida. Por trás dessa realidade – alimento e bebida – encontra-se a realidade do trabalho transformador humano que semeou e plantou a semente. Encontra-se a graça de Deus que as fez germinar. Encontra-se a co-participação humana na obra criadora de Deus, que alimenta a sua criação. Encontra-se a bondade presente no ser humano que partilhou o fruto da colheita com quem estava necessitado. Encontra-se a alegria da presença do Reino de Deus no meio de nós, quando nos reunimos em festa, cantamos, comemos e bebemos para saciar a nossa sede de felicidade e de comunhão. Encontra-se o esforço humano por adequar este mundo ao projeto amoroso de Deus. Por tudo isso, é possível afirmar: trabalhar, amar este mundo e suas criaturas, empenhar-se na luta por justiça é fazer com que a realidade do corpo eucarístico de Cristo na partícula consagrada e no mundo se torne transparente ao nosso olhar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8782842464257449323?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8782842464257449323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/05/eucaristia-sacralidade-das-realidades.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8782842464257449323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8782842464257449323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/05/eucaristia-sacralidade-das-realidades.html' title='EUCARISTIA: A SACRALIDADE DAS REALIDADES MUNDANAS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7YXJTG5MI/AAAAAAAAAYc/5Uo6CQW1LKk/s72-c/pao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-3299597567788366390</id><published>2009-05-12T08:39:00.004-03:00</published><updated>2010-10-20T10:00:14.254-02:00</updated><title type='text'>AOS COMPANHEIROS DA SAGRADA AVENTURA HUMANA</title><content type='html'>&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7Zu8nwGdI/AAAAAAAAAYg/OkH3APYU1jg/s1600/amizade.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7Zu8nwGdI/AAAAAAAAAYg/OkH3APYU1jg/s1600/amizade.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma pessoa querida lembrou-me, nesta semana, o mandamento cristão de escrever, pelo menos por ocasião da páscoa, dando notícias do nosso quotidiano, para que a comunhão estabelecida em algum momento da nossa existência comum seja alimentada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;As celebrações do Tríduo Pascal aguçam em nós a saudade e o desejo de poder reencontrar as pessoas que o bom Deus colocou no meu caminho. Com algumas delas, esse reencontro somente será possível no dia da minha ressurreição definitiva, pois elas se anteciparam a mim no encontro com o Deus de toda compaixão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Com alguns de vocês eu pude compartilhar anos de trabalho, comunhão e esperanças comuns. Com outros, o tempo de convivência foi breve, sem deixar de ser intenso. Em todos esses momentos tive e continuo a ter consciência da ação e presença amorosa de Deus na minha vida, ao mesmo tempo em que se cumpria aquela palavra do Evangelho que afirma que Deus cuida de cada fio dos nossos cabelos. Vocês são a expressão e a certeza desse cuidado. Acredito que, com alguns de vocês, não vou ter a oportunidade de encontrar-me pessoalmente novamente para jogarmos conversa fora e partilharmos de uma maneira mais próxima a nossa vida. Não cobro nada da vida. Ela sem sido muito mais do que generosa comigo. Se algum dia pudermos nos reencontrar, é a graça de Deus agindo que continua a nos guiar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Hoje, na vigília pascal, no momento da comunhão, pude perceber uma coisa. Na ressurreição, o corpo de Cristo voltou a assumir o tamanho que ele possuía antes da sua encarnação no ventre de Maria e nas realidades humanas: o tamanho do cosmos. Cristo ressuscitado é co-extensivo a todo o universo. Nada a ver com aquela compreensão errônea da onisciência de Deus aprendida nos nossos antigos catecismos, que servia apenas para nos vigiar em todo tempo e lugar. A co-extensão de Cristo a todo o cosmos é a co-extensão da presença misericordiosa e compassiva de Deus a toda a criação, mesmo àquela realidade e região do cosmos ainda desconhecidas dos nossos cientistas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, o corpo ressuscitado de Cristo, é, também, um corpo marcado pela realidade humana assumida com a sua encarnação. No momento da comunhão, pela união da minha realidade humana com o humano em Cristo ressuscitado, torno-me, junto e em comunhão com Cristo, maior do que o meu pequeno corpo físico. Não tenho ainda, um corpo capaz de habitar o cosmos inteiro. Tampouco meu corpo possui o tamanho do nosso minúsculo planeta terra. Mas, uma coisa é certa: meu corpo já consegue ser do tamanho do continente latino-americano, africano e europeu juntos. Pela minha comunhão com cada um de vocês, ainda que vivida apenas no silêncio do pensamento e da oração solitária, torno-me presente em Moçambique, África do Sul, Itália, Portugal, Colômbia, Argentina, Espanha e, claro, em tantas cidades do Brasil por onde já passei. Não sou do tamanho do meu corpo: sou do tamanho da minha capacidade de amar, ainda que de maneira imperfeita, cada um de vocês.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tão grande quanto o meu corpo para abarcar cada um de vocês, é o coração, para abrigar cada um de vocês e as pessoas que, continuamente, chegam para aqui armar a sua tenda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma boa vivência do mistério pascal para cada um de vocês.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-3299597567788366390?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/3299597567788366390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/05/aos-companheiros-da-sagrada-aventura.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3299597567788366390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3299597567788366390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/05/aos-companheiros-da-sagrada-aventura.html' title='AOS COMPANHEIROS DA SAGRADA AVENTURA HUMANA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7Zu8nwGdI/AAAAAAAAAYg/OkH3APYU1jg/s72-c/amizade.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8552081643995034136</id><published>2009-04-19T23:55:00.004-03:00</published><updated>2010-10-20T10:04:32.826-02:00</updated><title type='text'>A GRANDE VIGÍLIA DA RESSURREIÇÃO NA IGREJA DE MOÇAMBIQUE</title><content type='html'>&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7awuTaaVI/AAAAAAAAAYk/4-Hw4DOLTbE/s1600/mocambique.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7awuTaaVI/AAAAAAAAAYk/4-Hw4DOLTbE/s1600/mocambique.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Carrego com uma nitidez reconfortante a primeira celebração eucarística dominical na qual eu tomei parte no continente africano. Era o dia 6 de setembro de 1998, na igreja São Francisco, uma comunidade cristã no bairro de caniço, na zona costeira de Maputo, capital de Moçambique. À parte a acolhida fraterna dos membros da comunidade a mim, recém chegado ao país, algo me marcou profundamente: o momento em que os batuques começaram a ser tocados. Ao ouvir o som dos batuques e dos chiquitizes, um chocalho feito de caniço e sementes, acompanhando o cântico de entrada, a constatação óbvia brotou-me imediatamente: eu estava, finalmente, no continente africano. Aquele era o som da África. E, naquele momento, invadiu-me uma alegria despretensiosa e um sentimento de gratidão por estar ali, em Moçambique, após cinco anos de preparação e espera. Aquele foi o meu primeiro contato com os ritmos, os sons, os batuques, os cânticos, a dança e a alegria da cultura e da Igreja moçambicana. Aquela foi a primeira de tantas celebrações dominicais festivas na qual eu tomei parte. Em sete anos de presença no país, nunca perdi a capacidade de me encantar e de me deixar enfeitiçar por aqueles ritmos e aquela alegria contagiante.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Há um estereótipo relacionado com os países africanos onde os mesmos são mostrados unicamente sob a perspectiva de misérias, guerras, lutas tribais, doenças e corrupção. Infelizmente, tais estereótipos escondem a riqueza cultural, religiosa e humana presente nesses países. Se é verdade que tais iniquidades se fazem presentes de uma maneira mais ou menos intensa no dia a dia dos países africanos, também é verdade que esses povos não perdem a capacidade de celebrar com intensidade e alegria os acontecimentos quotidianos. O que se opõe à alegria é a tristeza, não o sofrimento. A iniquidade presente no dia a dia não é obstáculo para a celebração da alegria do triunfo do Crucificado-Ressuscitado sobre tais iniquidades.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em nenhum outro momento essa dimensão pascal das celebrações eucarísticas da Igreja em Moçambique se manifesta de maneira tão clara como na vigília da ressurreição. Essa é uma celebração que começa a ser preparada quase um mês antes, bem no início da quaresma. É a celebração onde os grandes protagonistas são os próprios catecúmenos: grupos de cinquenta, setenta, cem ou mais jovens e adultos que irão receber os sacramentos da iniciação cristã – principalmente o batismo e a eucaristia – na noite da vigília pascal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A sociedade africana é uma sociedade musical. A música, juntamente com a sua irmã, a dança, permeia a cultura africana. A Igreja em Moçambique, num passo inicial e básico de inculturação dos ritos cristãos, incorporou os ritmos e a dança já presentes no meio do povo. Assim, os catecúmenos passam a quaresma a ensaiar os cânticos e as danças da vigília pascal. Afinal, não há festa que não seja organizada e preparada com esmero e antecedência. Os ensaios sucedem-se, até que, finalmente, chega a grande noite da ressurreição.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Por volta das 21 horas, as igrejas já estão cheias. Os catecúmenos vestem roupas brancas. O fogo é abençoado, o círio pascal é levado para o interior da igreja, o Exultet é entoado, tudo de maneira sóbria. Nada parece indicar a explosão de alegria que virá em seguida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A liturgia da palavra transcorre, também, de maneira sóbria. A leitura da Palavra de Deus é algo sempre solene. Os salmos são cantados. A liturgia é bilíngüe. As leituras são feitas em português e na língua local de cada diocese ou, como no interior do país, apenas na língua local. Na diocese de Maputo, ouve-se a proclamação do evangelho sentado. É assim que, na cultura tradicional dessa região, os mais velhos instruem os mais novos. Os jovens sentam-se na esteira, aos pés dos anciãos, para ouvi-los. De maneira análoga, na proclamação do evangelho é Deus a instruir os seus filhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Após as leituras iniciais da vigília pascal e dos respectivos salmos, chega o momento do cântico do Glória. Nesse momento, toda a comunidade cristã irrompe em alegria. Os batuques, calados durante a quaresma e com os couros devidamente esticados e afinados com o calor da fogueira da páscoa, soltam as suas vozes. O Glória, num ritmo festivo, é entoado por toda a comunidade. Devido à cultura musical africana, com facilidade se criam os arranjos harmoniosos entre as primeiras e segundas vozes, entre as vozes masculinas e as femininas. Os cânticos são intercalados entre as solistas e a assembléia, que repete algum refrão breve e de fácil memorização. Não há necessidade de microfones ou de equipamentos de amplificação dos instrumentos: todos cantam, todos dançam. Os gritos festivos de alegria típicos da cultura africana reverbam no ambiente. Impossível descrevê-los. Só mesmo presenciando-os.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nessa altura, entra, a partir do fundo da igreja e em direção ao altar, o corpo de dança em duas filas paralelas. Na vigília pascal, costumam ser os próprios catecúmenos os dançarinos. Noutras ocasiões, há uma ordem precisa: das mais jovens à frente às mulheres mais adultas, no fim das fileiras. Dois jovens encerram a fila de dançarinas. O colorido e a harmonia visual se fazem presentes através das capulanas – os tecidos coloridos que envolvem as pernas das dançarinas. Ao chegar à frente do presbitério, o corpo de dançarinas se distribui ao longo do mesmo, em um grande abraço de movimento e de dança.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O momento do ofertório é outro momento grandioso. Após o cântico para a coleta das ofertas em dinheiro, o corpo de dançarinas se posiciona, novamente, na entrada da igreja. Inicia-se um novo cântico, mais animado e ritmado. As dançarinas entram trazendo as ofertas que serão depositadas junto ao altar: além das ofertas em dinheiro recolhidas e do pão e do vinho, alimentos, frutas, um ou outro pequeno animal e, algumas vezes, até mesmo cabrito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Seguem-se os ritos eucarísticos propriamente, num ambiente de solenidade e de silêncio sagrado, até o momento da comunhão eucarística. Após a comunhão, entoa-se o cântico de ação de graças, com o corpo de dançarinas novamente ao redor do presbitério. Nesse momento, outras pessoas da comunidade, contagiadas pela alegria e pelo ritmo, juntam-se espontaneamente à frente do altar para dançar juntos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quanto tempo demora toda essa cerimônia? O tempo necessário. Não há pressa. O acento não recai na fala de quem preside a eucaristia. O centro é a Palavra de Deus e a Eucaristia. O canto e a dança dão unidade ao ritual. Passam-se três horas ou mais. O tempo transcorre sem nos darmos conta. Afinal, o mistério que se é celebrado é grandioso demais para ser feito às pressas e de maneira qualquer, sem preparação e de improviso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Já distante fisicamente do continente africano, a memória da vivacidade das suas celebrações eucarísticas permanecem vivas em mim e afloram com maior intensidade neste tempo de alegria pascal. Aqui no Brasil, há todo um esforço pela valorização de uma pastoral litúrgica de qualidade, nas suas dimensões bíblica, mistagógica, profética, musical, simbólica e arquitetônica, de forma a fazer com que as celebrações litúrgicas, partindo do dia a dia das comunidades, remetam ao mistério central da nossa fé Trinitária. Infelizmente, e, aparentemente, com maior força, vem ganhando terreno nas nossas comunidades um tipo de liturgia “plastificada”, difundida pelo movimento pentecostal católico (RCC) e seus meios de comunicação. Essa liturgia do tipo fast-food, espetacularizada, estridente, rasa de conteúdo evangélico, ideal para destacar os cantores em seu show particular nos momentos celebrativos, pode ser encontrada nos rincões mais distantes do Brasil. É o desmilagre dos meios de comunicação social. Diante dessa realidade, restam uma certeza e uma esperança. A certeza: o mistério da encarnação-morte-ressurreição de Jesus é algo grandioso demais para ser celebrado de maneira tão pouco profética e tanto mais teatralizado. A esperança: há vida, e vida em abundância, fora desses esquemas estreitos que têm tomado conta da nossa Igreja.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8552081643995034136?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8552081643995034136/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/grande-vigilia-da-ressurreicao-na.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8552081643995034136'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8552081643995034136'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/grande-vigilia-da-ressurreicao-na.html' title='A GRANDE VIGÍLIA DA RESSURREIÇÃO NA IGREJA DE MOÇAMBIQUE'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL7awuTaaVI/AAAAAAAAAYk/4-Hw4DOLTbE/s72-c/mocambique.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1503416744694129317</id><published>2009-04-19T23:52:00.004-03:00</published><updated>2010-10-20T23:13:11.373-02:00</updated><title type='text'>O CÂNTICO DA FRATERNIDADE CÓSMICA</title><content type='html'>&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-TkQ6hVJI/AAAAAAAAAYo/D7WescsnnYw/s1600/irmaosol.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-TkQ6hVJI/AAAAAAAAAYo/D7WescsnnYw/s1600/irmaosol.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A “Oração pela paz de São Francisco” é, certamente, um dos textos mais conhecidos do santo de Assis. Entretanto, essa oração, apesar de expressar de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda, o espírito de São Francisco de Assis, não foi escrita por ele. A sua composição remonta ao início do século XX, no contexto da I Guerra Mundial. Pouco tempo depois da sua difusão, foi atribuída a São Francisco.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Se queremos conhecer em profundidade e autenticidade a vida, a mística e o espírito de São Francisco, precisamos recorrer a uma das suas mais belas composições: o “Cântico do Irmão Sol”, uma das primeiras obras primas escritas em língua italiana antiga.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São Francisco, antes da sua conversão, era o chefe de um grupo de jovens e barulhentos trovadores da sua cidade natal. O ambiente do século em que ele viveu era marcado pela poesia e pela música da cavalaria, que, mais tarde, resultarão na lenda do Rei Artur e seus cavaleiros. Esse espírito cavalheiresco e de trovador não foi abandonado por Francisco após a sua conversão. Pelas ruas de Assis e dos burgos da região, ele, juntamente com seus companheiros, cantava louvores a Deus, chamando os seus ouvintes à conversão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O Cântico do Irmão Sol carrega esse espírito trovador de Francisco. Entretanto, para conhecermos em profundidade o espírito presente nos versos desse cântico, é importante conhecermos o contexto em que ele foi gestado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O Cântico do Sol é um cântico à luz. Mas esse cântico jorrou da noite mais escura e profunda. O período em que o Cântico do Irmão Sol começou a ser redigido foi um tempo particularmente difícil para Francisco. Dois anos antes de sua morte, após receber os estigmas do crucificado no monte Alverne, Francisco fez-se transportar até São Damião, local de moradia de Clara e suas irmãs. A própria Clara preparou-lhe uma palhoça com caniços e ramagem para protegê-lo da luz do dia. Uma doença dos olhos contraída durante sua estadia no oriente já o havia feito perder praticamente toda a visão. Nessa palhoça, Francisco passou mais de cinqüenta dias sem poder suportar a luz do sol ou do fogo à noite, com muito sofrimento causado pela sua doença. Nos raros momentos em que a dor lhe dava descanso e que ele conseguia dormir um pouco, eram tantos os ratos que corriam sobre ele que não conseguia descansar. Mesmo durante o dia e nos momentos de oração, os ratos não lhe davam descanso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Foi nesse ambiente que Francisco começou a compor o seu Cântico do Irmão Sol, depois de receber a certeza de que participaria do reino celeste. Compôs os versos e a melodia para os mesmos, que ensinou aos seus irmãos. Instruiu esses mesmos irmãos a cantarem o cântico quando fossem pelo mundo e que o cantassem depois das pregações. Dizia que “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa criatura, o nosso irmão fogo, que nos alumia os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador”. Nos momentos em que estava mais atormentado pelas suas enfermidades, ele começava a entoar o cântico e pedia aos irmãos que prosseguissem. E assim foi até a hora da sua morte.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Essa capacidade de louvar o sol, a luz e as demais criaturas, mesmo sem poder contemplá-las, resulta da pacificação que foi sendo operada na vida de Francisco desde a sua conversão. Francisco é uma pessoa reconciliada com a sua própria humanidade, com os seus limites, com os seus medos. E porque há essa reconciliação interior, todas as demais criaturas são vistas como irmãs, fráteres, sorelas. Por isso Francisco pode cantar: amo irmã Clara, amo o irmão sol, amo o irmão fogo, amo o irmão verme. E foi dessa fraternidade ecológica que nasceu um dos mais belos escritos místico-ecológico do ocidente: o Cântico do Irmão Sol.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A versão que se segue é a do cantor e compositor Zé Vicente, que guarda a poesia e a estrutura do cântico original.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Onipotente e bom Senhor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;a ti a honra, glória e louvor;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Todas as bênçãos de ti nos vêm&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;e todo o povo te diz: Amém!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas nas criaturas,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;primeiro o sol lá nas alturas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Clareia o dia, grande esplendor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;radiante imagem de ti, Senhor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas pela irmã lua,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;no céu criaste, é obra tua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pelas estrelas claras e belas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tu és a fonte do brilho delas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas pelo irmão vento&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;e pelas nuvens, o ar e o tempo,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E pela chuva que cai no chão&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;nos dás sustento, Deus da Criação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas, meu bom Senhor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;pela irmã água e seu valor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Preciosa e casta, humilde e boa,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;se corre, um canto a ti entoa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas, ó meu Senhor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;pelo irmão fogo e seu calor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Clareia a noite, robusto e forte&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;belo e alegre, bendita sorte.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sejas louvado pela irmã terra,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;mãe que sustenta e nos governa&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Produz os frutos, nos dá o pão&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;com flores e ervas sorri o chão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas, meu bom Senhor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;pelas pessoas que em teu amor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Perdoam e sofrem tribulação,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;felicidade em ti encontrarão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Louvado sejas pela irmã morte&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;que vem a todos, ao fraco e ao forte.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Feliz aquele que te amar,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;a morte eterna não o matará.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Bem-aventurado quem guarda a paz&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;pois o Altíssimo o satisfaz.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vamos louvar e agradecer,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;com humildade, ao Senhor bendizer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;“Altíssimo, onipotente e bom Senhor, vossos são o louvor, a glória, a honra e toda bênção”. Assim Francisco inicia seu Cântico do Irmão Sol, afirmando já no início o sentido e a fonte de todo o louvor que se seguirá. Somente Deus é digno de ser louvado. Reaparece aqui mais uma vez a reação de Francisco contra o desejo latente que existe no ser humano de apropriação. Nada nos pertence e tudo pertence a Deus e somente a ele é devido o louvor. Na raiz da violência contra a vida de todas as criaturas está esse desejo que faz com que o ser humano disponha das demais vidas humanas e sacrifique o planeta de forma inconseqüente com as gerações que nos sucederão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, Francisco dá-se conta de que nem mesmo é possível louvar a Deus, pois “homem algum é digno de vos mencionar”. É então que ele se volta para toda a criação, espelho da bondade desse mesmo Deus. Há, primeiramente, um movimento em direção ao alto, que parece arrancar o homem da terra, distanciando-o das demais realidades terrenas. Mas, esse movimento de ascensão tomará, ao longo das demais estrofes, a direção horizontal da fraternidade com as criaturas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Três pares aparecerão dispostos lado a lado ao longo do cântico: o sol e a lua, o vento e a água, o fogo e a terra.  Há aqui um sentido de totalidade, sinal da integração daquela ecologia interior já referida anteriormente: três pares de elementos, entre os quais figuram os quatro elementos tidos como essenciais pela filosofia e mentalidade de então (ar, água, fogo e terra). As criaturas, transformadas em freis e irmãs – integração do masculino e do feminino, – são convidadas a louvar a Deus, de quem procede todo o bem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A pessoa de Jesus aparece de forma implícita no cântico através de três elementos: do sol, figura de raízes bíblicas para indicar o messias esperado; através das trinta e três linhas do cântico original, referência à idade de Cristo no momento de sua morte; e através do confronto das primeiras com as últimas palavras do cântico: Jesus é o altíssimo que se fez humilde, é o onipotente que se fez servo de todos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É importante notar que Francisco sabe reconhecer a utilidade de todas as criaturas, mas essa utilidade assume um caráter bem diferente do utilitarismo moderno que depreda a natureza em função de um suposto bem estar da humanidade. O sol é útil porque clareia o dia e nos ilumina; a água é útil e preciosa porque sacia a sede do homem e da terra, que por sua vez produz frutos, ervas e flores para os animais e para o ser humano; a lua e as estrelas no céu despertam no humano o sentimento do belo, da poesia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O cântico prossegue convocando o homem e a mulher a louvarem a Deus através da reconciliação e da paz, que constituem o verdadeiro louvor para Francisco. Essa penúltima estrofe não fazia parte do cântico original. Foi acrescentada por Francisco em julho de 1226 para buscar a reconciliação entre o bispo e o podestá (o prefeito) de Assis. O bispo havia excomungado o podestá, que por sua vez, decretou que nenhum cidadão de Assis podia ter com ele qualquer relação comercial ou legal. Francisco pediu que ambos se reunissem no palácio do bispo e, quando lá se encontravam, dois frades levantaram-se e cantaram o cântico como Francisco lhes havia ordenado. Foi o suficiente ambos se reconciliarem e evitar uma guerra civil na cidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Como os demais elementos do cântico, o humano aparece em par com um segundo elemento. Reconciliado com todas as criaturas e com o seu semelhante, resta a Francisco e à humanidade a reconciliação definitiva com a morte, companheira inseparável do ser humano e de toda forma de vida. Este último verso do cântico foi composto no princípio de Outubro de 1226, poucos dias antes de sua própria morte. Quando sentiu-a próxima, pediu que o despissem e o colocassem nu sobre a terra que ele havia cantado como irmã e mãe. Nu sobre a terra, Francisco manifestou a radical condição humana face ao Absoluto, diante do qual nos apresentamos despidos de nossas máscaras, revestidos apenas com nossa pobreza.  Mas esse gesto possui também um outro significado não menos importante: a reconciliação e o retorno do humano ao útero materno da terra, de Gaia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E assim, cantando, Francisco morreu. Deixou-nos na saudade e na orfandade. Mas também herdeiros de uma riqueza místico-ecológica que pode ajudar a humanidade a sair do caminho da autodestruição em que tem enveredado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1503416744694129317?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1503416744694129317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-cantico-da-fraternidade-cosmica.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1503416744694129317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1503416744694129317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-cantico-da-fraternidade-cosmica.html' title='O CÂNTICO DA FRATERNIDADE CÓSMICA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-TkQ6hVJI/AAAAAAAAAYo/D7WescsnnYw/s72-c/irmaosol.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8679793057245765562</id><published>2009-04-19T23:51:00.002-03:00</published><updated>2010-10-20T23:14:32.391-02:00</updated><title type='text'>AS CINZAS DE FREI JACOBA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-T63IdvmI/AAAAAAAAAYs/VJnLMiUNFK4/s1600/jacoba.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-T63IdvmI/AAAAAAAAAYs/VJnLMiUNFK4/s1600/jacoba.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Visitar Assis é uma experiência única. Roma é a cidade da imponência fria e suja dos seus mármores. Assis é a cidade das pedras nuas que falam da vida de Francisco, de Clara e dos seus primeiros companheiros. As pedras das ruas e dos lugares santos franciscanos ganham vida quando os mesmos são percorridos na companhia de quem comungamos uma visão de vida inaugurada por Francisco há 800 anos. É essa a verdadeira experiência de Assis: a experiência do dom e da presença do irmão ao nosso lado, a experiência da fraternidade. É a certeza de saber-se compreendido e acolhido naquilo que se é pelo outro. Mais, é o desejo comum de busca, de discernimento e de encarnar o Evangelho na complexidade do nosso tempo. Quando percebemos quão limitados somos nessa nossa busca sincera de vivência do Evangelho, prostrados ali diante do túmulo do Santo de Assis, nada mais nos resta a fazer a não ser balbuciar “miserere, frate” e viver, mais uma vez, a experiência do perdão e da reconciliação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;No pequeno lance de escada que dá acesso à cripta no subsolo da Basílica, bem em frente ao túmulo de Francisco, um pequeno nicho chama a atenção: nele repousam os restos mortais de Jacoba de Setesoli, nobre viúva romana, mulher com quem São Francisco nutria uma profunda amizade. Falecida em Assis em 1239, treze anos após Francisco, ela deixou disposto no seu testamento o desejo de ser sepultada em Santa Maria dos Anjos. Foi ela – e não Clara de Assis – quem ganhou o privilégio de, junto com Fr. Leão, Fr. Bernardo, Fr. Egídio e Fr. Rufino, velar o sono derradeiro de Francisco, repousando na mesma cripta para onde o santo foi transladado em 1230.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A amizade duradoura de Francisco com Jacoba de Setesoli chama a atenção quando conhecemos a disposição e as recomendações do santo em relação ao contato com as mulheres, fruto do contexto cultural do seu tempo e da disposição de Francisco de evitar qualquer situação embaraçosa envolvendo os frades e as mulheres, uma vez que, dado o estilo de vida itinerante, os mesmos não estavam “protegidos” pelas paredes de um claustro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Quem conhece a ternura e a delicadeza do santo, bem como o seu relacionamento fraterno com Clara, pode ficar perplexo com a prudência que o mesmo recomendava sobre o relacionamento com as mulheres de uma maneira geral. Seus biógrafos nos informam que ele “mandava que se evitassem a todo custo as familiaridades com as mulheres” e que “quando falava com as mulheres, fazia-o em voz alta e clara, de modo a ser ouvido por todos”. Evitava olhá-las diretamente e chegou a dizer que se ele próprio, Francisco, “as olhasse no rosto não reconheceria senão duas apenas. De fato, de uma e outra conheço-lhes o rosto: das outras, não” (2C 112).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Se assim são as suas recomendações, como se explica essa rica relação e profunda amizade de Francisco e Jacoba, na casa de quem ele se hospedava quando se encontrava em Roma? Tomás de Celano nos diz que ela “tinha merecido o privilégio de uma particular afeição do santo Pai”(3C 37).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Na iminência da sua morte, ele ditou um pequeno bilhete e pediu que o mesmo fosse enviado urgentemente a Roma, para avisar a senhora Jacoba da proximidade da sua morte. Suas palavras a ela dirigidas vêm vazadas de uma ternura toda própria: “À senhora Jacoba, serva do Altíssimo, o pobre de Cristo, o irmão Francisco, saúda no Senhor, em união com o Espírito Santo. Sabes, estimada irmã, o Senhor, por sua graça, revelou-me que o fim da minha vida está próximo. Pelo que, se ainda me queres ver em vida, logo que recebas esta carta, apressa-te a vir a Santa Maria dos Anjos. Se não vieres até Sábado, já não me encontrarás vivo. Traz contigo um pano escuro, com o qual possas envolver o meu corpo, e cera para a sepultura. Peço também que me tragas aquele doce, que tu me preparavas, quando estava doente em Roma”. O pequeno bilhete não precisou de ser enviado. Naquele tipo de comunhão estreita que caracteriza as pessoas que se amam verdadeiramente, ela pressentiu em Roma a iminência da morte de seu irmão e pai, partindo imediatamente de Roma e chegando à Porciúncula quando se providenciava algum mensageiro para ir a Roma com o bilhete em mãos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Foi grande a consolação de Francisco ao reencontrá-la. Depois de comer os doces que ela havia preparado, ela pôde ver, beijar e banhar com as próprias lágrimas os estigmas que o santo trazia no seu corpo. Diante daquela cena invulgar de proximidade de uma mulher com o corpo debilitado de Francisco, os seus irmãos não tiveram coragem de a afastar dos pés do santo. Ela permaneceu junto de Francisco até o dia em que o mesmo partiu para a casa do Pai, custeando as despesas do funeral e tomando parte no mesmo, juntamente com toda a sua comitiva.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;………&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Que tipo de relacionamento estreito era esse vivido por Francisco e Jacoba? Diante de alguns relacionamentos complexos e conflituosos que mantemos com pessoas de fora das nossas fraternidades – homens, mulheres e mesmo famílias – quais são as pistas para um relacionamento maduro que podemos encontrar nessa amizade entre Francisco e Jacoba? Qual é o limite para a presença – muitas vezes espaçosa – de pessoas no interior das nossas fraternidades e da vida do frade em particular?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Um primeiro fato nos chama a atenção: Francisco considera Jacoba não uma pessoa de “fora” da fraternidade dos frades menores, mas, alguém de “dentro”, a ponto de chamá-la, com a ternura característica, de “Frei Jacoba”. Quando a nobre senhora chegou à Porciúncula, às vésperas da morte do santo, Francisco exclamou: “Bendito seja Deus, que nos trouxe até nós o nosso irmão Dona Jacoba! Abri-lhe já as portas e deixai-a passar, que para o nosso irmão Jacoba não existe a prescrição que proíbe a entrada aqui a mulheres” (3C 37).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ser considerado alguém de “dentro” da fraternidade sem, no entanto, ser um frade, significa ser alguém que conhece e respeita a dinâmica da vida própria dos frades e que trilha, numa dinâmica de vida diferente, o mesmo caminho de perfeição evangélica. Em relação ao frade em particular, significa respeitá-lo e apoiá-lo na forma de vida abraçada por ele, fruto da mesma experiência de busca evangélica que marca um e outro. Em resumo, é alguém que, com a sua presença e relacionamento, enriquece de uma maneira saudável a vida do frade e não alguém que o subtrai à fraternidade. Essa é a verdadeira Frei Jacoba.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A equação com o sinal invertido é muito simples. De um lado situam-se as múltiplas carências que marcam o espírito humano: desejo de colo, de contato afetivo e corporal, de escuta, de diálogo, de compreensão, de elogios e outros tantos desejos que podem ser acrescentados à lista. Some-se a isso a realidade normalmente fria e mesmo conflituosa dos relacionamentos no interior das nossas fraternidades, bem como a inevitável experiência de solidão que cada um de nós carrega dentro do peito e a equação está montada, cujo resultado já é conhecido de muitos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Quando a presença de pessoas estranhas à Ordem na vida de um frade ou da fraternidade torna-se conflituosa, facilmente nos esquecemos de um detalhe trivial: as pessoas ocupam na nossa vida o espaço que permitimos que elas ocupem. Há um jogo de cumplicidade que se joga, de carências e fragilidades mútuas que se encaixam.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Todas essas carências estão presentes na nossa vida, sem que delas possamos emitir um juízo moral. Não se trata de opção carregá-las ou não. As nossas opções situam-se no nível de, a partir dessas carências, tecer relacionamentos maduros que não criem dependências mútuas, a exemplo dos relacionamentos estabelecidos por Jesus.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Pensemos na fragilidade humana dos cegos, coxos e pecadores que travaram contato com Jesus. Não é difícil imaginar como uma personalidade carismática e forte como a de Jesus poderia provocar uma relação de dependência nessas pessoas, principalmente com o ato de cura operado nelas. É interessante notar o refrão repetido por Jesus após tais cenas de cura: “Vai, a tua fé te salvou”, que poderíamos interpretar também como “a tua fé te curou”. É algo que as pessoas carregam dentro de si mesmas que as torna saudáveis. Jesus cura as pessoas fazendo-as curarem-se a si mesmas. Fica de lado qualquer relação de dependência, despertando, em vez disso, uma relação de discipulado e de seguimento, como fica bem claro no exemplo do cego Bartimeu, no Evangelho de Marcos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Se há algo que sobre o qual as pessoas ainda emitem um juízo saudável a respeito dos frades, diz respeito à nossa presença fraterna e simples junto às famílias. Poderíamos mesmo dizer: uma presença despretensiosa, amiga, próxima, de escuta, de resultados de partidas de futebol. Há mesmo famílias que conservam arrumado o quarto onde o irmão esmoeler se hospedava anualmente, ainda que há anos ele por lá não apareça mais. Manter relações saudáveis de amizade com as famílias e as pessoas de fora das nossas fraternidades é fundamental para nós hoje. Mais do que o palavreado das nossas liturgias e catequeses, é isso o que verdadeiramente evangeliza: a maturidade dos relacionamentos mantidos com as pessoas que o bom Deus nos confia. Se não formos capazes de exercitar essas relações de maturidade no interior das nossas fraternidades, a tentativa de buscar vivê-las com pessoas de fora vai soar, necessariamente, como um remendo novo num pano velho. Ou não?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8679793057245765562?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8679793057245765562/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/as-cinzas-de-frei-jacoba.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8679793057245765562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8679793057245765562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/as-cinzas-de-frei-jacoba.html' title='AS CINZAS DE FREI JACOBA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-T63IdvmI/AAAAAAAAAYs/VJnLMiUNFK4/s72-c/jacoba.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1647842964417052058</id><published>2009-04-19T23:48:00.003-03:00</published><updated>2010-10-20T23:16:17.285-02:00</updated><title type='text'>BAGUNÇA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-UVruUXyI/AAAAAAAAAYw/vsR5gojJ_YU/s1600/bagunca.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-UVruUXyI/AAAAAAAAAYw/vsR5gojJ_YU/s1600/bagunca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=86" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Nada parece ser mais infrutífero do que a tentativa dos pais – da mãe, principalmente – de inculcar nos seus filhos, crianças e adolescentes, o sentido de asseio, limpeza e organização. Para muitas mães, é uma batalha constante e, aparentemente, perdida. Crescemos com as reclamações conhecidas de todos: não deixar a roupa da escola espalhada pelo quarto, juntar os brinquedos, guardar os calçados, tomar banho, esfregar as "caracas", arrumar a cama, guardar o material escolar. A lista é longa. Quanto maior a lista, mais impotente parece se sentir a mãe.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Lembro-me perfeitamente da pequena estória repetida inúmeras vezes para ilustrar a necessidade de manter as coisas no lugar. "Um rei precisou escolher um novo serviçal para o seu palácio. Bem à entrada da sua sala, deixou uma vassoura caída em meio ao chão, atravessando o caminho. Veio o primeiro candidato, passou sobre a vassoura e dirigiu-se ao rei para ser entrevistado. O rei dispensou-o imediatamente. Veio o segundo e, como o primeiro, ignorou a vassoura no chão e também foi dispensado. O mesmo se passou com o terceiro e com o quarto. O quinto candidato, entretanto, ao atravessar o salão, notou a vassoura caída no chão, apanhou-a e guardou-a encostada à parede." O leitor já pode imaginar quem foi o candidato escolhido e a moral da estória.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Para muitos filhos, a lição e o exemplo demonstrados à exaustão durante a infância somente vão surtir efeito quando eles se tornarem adultos. A Elis Regina poderia glosar a letra da sua música carregada de verdades e cantar: ainda limpamos e arrumamos as nossas casas como os nossos pais. Afinal, como morar, trabalhar, rezar, ler e escrever num ambiente desorganizado e entulhado de coisas?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Há um pequeno segredo que nos ajuda nessa tarefa de manter a nossa casa limpa e arejada: não acumular (vale uma exceção sadia para os livros…) Quanto mais objetos, badulaques e penduricalhos dentro da casa, mais difícil vai ser fazer a limpeza. A nossa sociedade atual é eficiente quando se trata de nos fazer acreditar que precisamos disto ou daquilo para viver com maior conforto ou para adquirir um status que almejamos. Alguém costumava brincar: vamos ao shopping center para ver quanta coisa não precisamos para viver?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A outra face da moeda é quando o cuidado com a limpeza se torna excessiva. Uma sabedoria atávica em nós nos diz que todo excesso é patológico, é doentio. Os entendidos certamente saberão explicar os mecanismos psicológicos de uma obsessão desse tipo. No outro extremo, há uma falta de asseio e desorganização que são igualmente doentios. Mais uma vez, Freud explica.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;.......&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Não é somente meu quarto o lugar onde gosto de manter ordem e as coisas no seu lugar. Também o coração precisa de faxinas regulares. Num processo quase imperceptível, transportamos para dentro de nós esse mesmo gosto pelo asseio e pela simplicidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A escrita é uma boa vassoura. Escrever é uma maneira de colocar ordem nas idéias, de organizar os sentimentos no seu devido lugar e de lustrar as percepções. Tudo isso para que o nosso coração se torne uma pousada aconchegante, pronto para acolher todos aqueles que o bom Deus nos confia ao longo dos nossos dias.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Aproximem-se, leitor e leitora amigos. A porta está aberta. Há pão sobre a mesa, o chão está minimamente varrido e o fogão à lenha está aceso. Sejam bem-vindos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1647842964417052058?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1647842964417052058/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/bagunca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1647842964417052058'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1647842964417052058'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/bagunca.html' title='BAGUNÇA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-UVruUXyI/AAAAAAAAAYw/vsR5gojJ_YU/s72-c/bagunca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-7575620221729652876</id><published>2009-04-19T23:47:00.005-03:00</published><updated>2010-10-20T23:23:27.551-02:00</updated><title type='text'>A PALAVRA SE FEZ POESIA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-WBi6xlGI/AAAAAAAAAY0/4Txj-HrhAk8/s1600/poesia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-WBi6xlGI/AAAAAAAAAY0/4Txj-HrhAk8/s1600/poesia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=87" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;“O homem quer subir, e o Verbo quer descer. Assim se encontram a meio caminho, no centro, no lugar medianeiro. Cruzam-se porém como espadas, porque os seus desejos se opõem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Hans U. Balthasar&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;É realmente paradoxal. Em nenhum outro momento Deus e o ser humano trilharam caminhos tão divergentes quanto no momento em que Deus decidiu vir ao encontro definitivo da sua criatura.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O ser humano quer se elevar até Deus. A Torre de Babel, os zigurates babilônicos, a ascese, a mortificação, a elevação do espírito, a fuga do mundo, os lugares altos, a gnose, tudo isso revela o esforço para nos desprendermos de uma realidade demasiadamente humana e irrompermos em direção à realidade do Sagrado que parece nos atrair para o alto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Deus, porém, ignorando todo esse esforço humano, ordena: “Regressa, vermezinho. Desce e volta ao chão da tua humanidade. É no meio da estrada da humanidade que havemos de nos encontrar. É trilhando o caminho dos homens que eu vou trilhar que finalmente chegarás a mim.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Na introdução do seu Evangelho, João resume de maneira magistral esse caminho assumido por Deus, a Encarnação do Verbo: “A Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14). Deus desceu das alturas e armou a sua tenda no meio da humanidade. No ventre de Maria, fez-se carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. Na pequena oficina de José, fez-se trabalhador e filho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O mistério da Encarnação de Deus celebrado no Natal pode ser apreendido corretamente, num primeiro momento, como o fato de que Deus assumiu um corpo humano.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O nosso corpo é a expressão mais clara da nossa existência, é o centro de irradiação da nossa presença. Pelo nosso pensamento e pela nossa capacidade de amar, expandimos o nosso corpo até as pessoas e as realidades amadas. Não sou do tamanho do meu corpo. Sou do tamanho daquilo que amo. Mas, é a partir do meu corpo visível que alcanço, com meus pensamentos de amor, as realidades amadas, por mais distantes que se encontrem.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;É com o nosso corpo que nos relacionamos com as demais pessoas e criaturas, é com nossos braços que acolhemos as pessoas amadas e nos reconciliamos com quem nos feriu. É com o corpo que homem e mulher se juntam para gerar nova vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A Encarnação do Verbo num corpo humano, portanto, deita por terra certa compreensão da nossa corporeidade que vê o nosso corpo como obstáculo à santificação e à união divina, numa atitude esquizofrênica que proclama a ressurreição do corpo após a morte, ao mesmo tempo em que busca a sua mortificação durante a vida presente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Uma verdade fundamental expressa com a Encarnação da Palavra de Deus é simples: o corpo de que somos formados e a matéria em que nos inserimos são bons em si mesmos. Toda a matéria e toda a vida têm a sua origem nas relações amorosas da Comunidade Trinitária. Entretanto, não podemos reduzir a Encarnação da Palavra Divina ao fato de que um corpo físico foi formado no seio de Maria para acolher a Palavra, por mais grandiosa que seja essa dimensão corpórea da Encarnação. Para podermos entender a profundidade e o sentido desta afirmação do Evangelista João - E a Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós -, poderíamos desenvolvê-la da seguinte forma:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A Palavra se fez comunicação, se fez juras de amor entre os enamorados, se fez música e poesia, se fez dança e festa, se fez refeição e confraternização, se fez oração solitária e oração compartilhada, se fez comunhão de vida e união de corações.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A Palavra se fez mão samaritana para socorrer quem está caído, se fez abraço para acolher os pecadores, se fez encontros que curam e que libertam, se fez gestos de amor entre pais e filhos, entre marido e mulher e entre companheiros de caminhada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A Palavra se fez jovem e idoso, se fez homem e mulher, se fez criança com Síndrome de Down e criança autista, se fez pai e se fez mãe. A Palavra se fez dor e enfermidade, se fez silêncio e solidão, se fez ira e agressividade, se fez grito dilacerante de abandono, se fez sofrimento e morte.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Se apanharmos emprestada a poesia de Cora Coralina, poderíamos dizer que a Palavra se fez&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Colo que acolhe,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Braço que envolve,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Palavra que conforta,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Silêncio que respeita,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Alegria que contagia,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Lágrima que corre,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Olhar que acaricia,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Desejo que sacia,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Amor que promove.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;E isso não é coisa de outro mundo,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;é o que dá sentido à vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;É o que faz com que ela não seja nem curta,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;nem longa demais, mas que seja intensa,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;verdadeira, pura...Enquanto durar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Em resumo: tudo aquilo que é humano – o pecado fica de fora, pois ele é justamente o que nos desumaniza – foi assumido, santificado e plenificado pela Encarnação de Deus no ventre de Maria e nas realidades mundanas. O humano é querido e amado por Deus. Não há, portanto, caminho de salvação possível fora da nossa realidade humana. Apenas conhecendo, assumindo, amando e transformando a nossa própria realidade humana é que seremos capazes de trilhar o caminho de salvação inaugurado por Jesus, a Palavra feita humanidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Quem pensa que o caminho de santificação passa por uma fuga das nossas realidades humanas – por mais conflituosas que possam parecer – faz o caminho inverso daquele assumido por Jesus. Mas, também esses serão, um dia, iluminados em sua humanidade pelo Verbo, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-7575620221729652876?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/7575620221729652876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/palavra-se-fez-poesia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7575620221729652876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7575620221729652876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/palavra-se-fez-poesia.html' title='A PALAVRA SE FEZ POESIA'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TL-WBi6xlGI/AAAAAAAAAY0/4Txj-HrhAk8/s72-c/poesia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-3608210135756082709</id><published>2009-04-19T23:46:00.003-03:00</published><updated>2010-10-21T07:22:41.855-02:00</updated><title type='text'>A LUZ BRILHOU NAS TREVAS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAGVuZadVI/AAAAAAAAAY4/e18ucu5Zl6E/s1600/trevas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAGVuZadVI/AAAAAAAAAY4/e18ucu5Zl6E/s1600/trevas.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=88" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Aconteceu. A luz penetrou a escuridão. A luz d’Aquele que é totalmente Outro, mas cuja luz brilha não a partir de um centro exterior a nós. Não veio de fora. Manifestou-se silenciosamente. Teilhard de Chardin já a conhecia: “Não caiu fragorosamente sobre os cumes, como o relâmpago no seu fulgor. Forçará o Mestre as portas para entrar em sua casa? Sem abalo, sem trovões, a chama tudo iluminou pelo lado de dentro.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Para aqueles que pedem e aguardam esse momento, haverá algum preparo que atenue o despreparo e a dor provocados por essa luz? E o que dizer daqueles que são apanhados incautos, surpreendidos por algo que desconhecem totalmente e com o qual não lhes foi ensinado a lidar?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não é da natureza da luz provocar dor. A sua natureza é iluminar, curar, serenar, revelar, humanizar. A dor que o encontro com ela nos provoca é um efeito secundário. Tem a ver com o encontro de duas realidades muito diferentes. De um lado, o Infinito, o Amor primordial, a suprema Beleza, a Verdade definitiva, a Luz derradeira. Do outro, a pequenez, a frágil altivez, a nossa indisfarçável miséria, a nossa treva espessa. O encontro entre esses dois pólos tão desiguais é que faz ranger o pólo humano, que se contorce e range e leva as mãos aos olhos para não se ver cegado por luz tão forte e repentina.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Se a luz não tem o fulgor do relâmpago, tem, porém, a sua brevidade. Entretanto, nesse breve instante em que ela se manifesta, o tempo permanece suspenso para nós: o Eterno toca o nosso tempo humano e ambos se fundem numa única realidade. É um instante com a duração de uma eternidade. E, na eternidade desse instante, a luz invade todos os recônditos de nosso ser, revelando num rápido relance aquilo que, insuspeitamente, somos de fato: uma imensa rede de cavernas desconhecidas e escuras.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O humano é um ser cavernoso. A nossa personalidade se assemelha a uma imensa rede de cavernas, com galerias se ramificando em muitas direções, com muitas câmaras desconhecidas, algumas muito profundas e de difícil acesso, uma boa parte delas permanecendo imersa na mais absoluta escuridão. Essa rede de cavernas que é a nossa personalidade e espírito humano não nasce pronta. Ela é construída ao longo da nossa vida sem nos darmos conta dessa realidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Algumas câmaras são de acesso imediato e bem iluminadas, pois se encontram bem junto à entrada principal: são os traços da nossa personalidade e os sentimentos que são estimulados pelo grupo social a que pertencemos e pelas pessoas com quem nos relacionamos. Somos estimulados a ser justos, compassivos, amorosos, educados, polidos, altruístas, ponderados, pacificados, fraternos. Cada um pode listar as suas preferências. Gostamos de exibir essas galerias para nós mesmos e para as pessoas que visitam a nossa vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, nos níveis abaixo e depois que cessa a luz que vem da entrada principal, começa a haver escuridão. São lugares onde raramente nos aventuramos. Temos medo do que podemos encontrar nessas câmaras e de onde exala mau cheiro: agressividade, ódio, rancores, egoísmo, pulsão de morte, inveja, soberba, ira, desejos inconfessáveis. Mais sensato é não nos aventurarmos por elas. Entretanto, uma ou outra vez emergem vozes na superfície provenientes desses lugares escuros e desconhecidos e que nos causam um frio na barriga: afinal, também sou isso? E começamos a nos entristecer quando nos damos conta dessa realidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E, então, a luz nos ilumina. Em algum momento da nossa vida, mais cedo para uns, tardiamente para outros, repentina ou mansamente, essa luz forte adentra nessas cavernas. A luz a tudo ilumina, percorrendo cada galeria, por mais recôndita que seja, exibindo aos nossos olhos o mapa da nossa geografia humana, revelando aquilo que somos na nossa totalidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Se essa revelação de nós mesmos, proporcionada pela Luz que é Deus, demorasse mais do que o necessário para vislumbrarmos vagamente o que somos, enlouqueceríamos. Não seríamos capazes de lidar, de um momento para outro, com a totalidade daquilo que somos e que desconhecemos. E a finalidade da luz não é nos fazer mal. A sua finalidade é a de afastar o nosso medo diante da nossa própria escuridão e nos colocar no caminho lento do conhecimento e da cura das nossas trevas, para que a luz possa brilhar em nós com o brilho possível para a nossa presente natureza humana, antes que ela possa brilhar com todo o seu esplendor, quando estivermos mergulhados no seio da Comunidade Trinitária.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É assim a manifestação da graça de Deus na nossa vida. Por pura graça, somos um dia inundados pela luz de Deus, o Verbo Encarnado, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9). A graça nos revela aquilo que realmente somos no momento presente e nos introduz no caminho da compreensão de quem Deus verdadeiramente é.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A luz da graça nos desnuda diante de nós mesmos. Ficamos nus, como nossos primeiros pais no paraíso. Mas, diferentes deles, não nos sentimos envergonhados diante de Deus nem diante de nós mesmos. Pelo contrário, o corpo e o nosso espírito tornam-se leves. Pois, por mais difícil e doloroso que seja o contato e a constatação desses lugares sombrios na nossa vida, é Deus mesmo quem nos toma pela mão e nos conduz através deles. E, no momento oportuno, vamos ter a possibilidade de descobrir: da câmara mais escura e sombria pode emergir a santidade, manifestação da presença santificadora de Deus no quotidiano de nossa vida. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-3608210135756082709?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/3608210135756082709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/luz-brilhou-nas-trevas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3608210135756082709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3608210135756082709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/luz-brilhou-nas-trevas.html' title='A LUZ BRILHOU NAS TREVAS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAGVuZadVI/AAAAAAAAAY4/e18ucu5Zl6E/s72-c/trevas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1943641955571278147</id><published>2009-04-19T23:44:00.013-03:00</published><updated>2010-10-26T00:05:02.909-02:00</updated><title type='text'>¿CAMBIAMOS?</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY26zNkrrI/AAAAAAAAAZA/Zh-EqqKQR5U/s1600/cambiamos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY26zNkrrI/AAAAAAAAAZA/Zh-EqqKQR5U/s1600/cambiamos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=89" target="_top"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;"É ilusão. Ninguém muda." Curtas e decididas, as duas frases foram lançadas à mesa da refeição. O tom imperativo daquele que nos servia essa suposta verdade causou-me uma tristeza momentânea. Fiquei parado, absorto, feito criança diante de prato que não lhe agrada aos olhos: revira-lhe o conteúdo desconfiada, sem no entanto levá-lo à boca. Assim me pareceu aquele juízo proferido à mesa de refeições: prato indigesto e quente. E as crianças sabem que prato quente começa a ser comido pela borda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma das memórias singelas dos meus tempos de infância, criança ainda na escola pública do interior, era a merenda servida no intervalo das aulas. Feijão com carne de sol dava ao dia, fosse lá qual fosse, ares de domingo: comida especial. O leite quente com bolachas alegrava-me pela metade, pois leite quente é, até hoje, coisa que não me agrada. A merenda mais comum, porém, era a sopa de farinha de milho, temperada com couve ou com um e outro pedaço de carne, quando havia. À distância, pergunto-me o que tornava aquelas sopas tão saborosas. Talvez a paciência e a dedicação das "tias" da cantina que nos preparavam a merenda. Carinho e gratuidade, amor e paciência são temperos importantes no preparo de qualquer prato. Assistam ao filme "A Festa de Babete". Está tudo lá.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Comer aquelas sopas quentes de farinha de milho era um verdadeiro ritual aprendido à custa de muita língua queimada. Não atacávamos diretamente o centro do prato. Começávamos pelas bordas. Enquanto a boca soprava a beirada do prato para arrefecê-lo, uma das mãos rodava o prato, enquanto a outra levava as colheradas de sopa à boca. A velocidade da rotação do prato e a freqüência com que as colheradas de sopa eram levadas à boca eram ditadas pela pressa em acabar logo e poder ir brincar, ou então, pelo desejo de repetir o prato de sopa, quando houvesse mais. O olhar dividia-se entre o prato à frente e espreitar a fila para poder repetir. Coisas de criança que nos causam um riso gratuito quando afloram em nossa memória.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, voltemos ao nosso prato principal: não mudamos. Ele ainda está aqui à minha frente, à espera de ser digerido. Comecemos pelas bordas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Peço auxílio a Mercedes Sosa. A música e a poesia têm sempre o poder - bom poder, diga-se de passagem - de trazer à tona verdades que carregamos escondidas em nós. Algumas músicas e poesias são profundamente regionais: enraízam-se no jeito de ver e viver a vida de um povo. Mas é justamente isso que possibilita que determinadas expressões de arte se tornem universais, que possam dizer algo a pessoas alheias àquela cultura. Quanto mais enraizada, mais universal é determinada expressão artística. Assim é a música da Mercedes Sosa: regional, latino-americana. E é ela quem canta que na vida tudo muda, tudo cambia:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cambia lo superficial&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cambia también lo profundo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cambia el modo de pensar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cambia todo en este mundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E percebendo a constante mudança de toda a realidade à sua volta, do sol em sua carreira pelo céu, da planta que se veste de roupas novas em cada Primavera, do cabelo do ancião, do clima com o passar dos anos, do brilho do brilhante, do sentir dos amantes, ela constata feliz:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Y así como todo cambia,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Que yo cambie no es extraño.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Y lo que cambió ayer&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tendrá que cambiar mañana&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Así como cambio yo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;En esta tierra lejana.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Teilhard de Chardin, grande cientista e místico cristão, foi uma pessoa apaixonada por toda a obra da criação. Os místicos são assim: a despeito de toda realidade conflituosa visível, eles são pessoas apaixonadas. Mais do que uma páscoa, eles vivem num constante advento: vivem grávidos de esperanças. Esperança que brota de um olhar que transcende a aparente inocência da realidade à nossa volta. É a síndrome de Habacuc: teimosia. O profeta Habacuc dizia que, ainda que a figueira não florescesse, ainda que a vinha não desse fruto, ainda que não houvesse ovelhas nos apriscos, ainda que os cajueiros não mais dessem fruto, mesmo assim, ele exultaria e alegrar-se-ia no Deus que o salva. Teilhard de Chardin sofria dessa síndrome. Teilhard, a exemplo de Francisco de Assis, foi capaz de perceber a pulsão de vida presente em toda a criação, do átomo ao ser humano pensante-amante. No humano pensante-amante, dizia ele, a matéria atingiu o mais alto grau de sua interioridade. Essa gradual e crescente interiorização da matéria não terminou, é processo aberto ao futuro. Não estamos prontos. Você já parou para pensar nisso? Individual e coletivamente nos transformamos em direção à consumação de nosso destino Trinitário. Nesse caminhar aberto, aparentemente incerto, Teilhard propõe duas imagens para os possíveis caminhos pelos quais a humanidade pode enveredar: o cristal e a célula. O cristal é o símbolo do estático, do fim de caminho, do beco sem saída da evolução, do apagar das luzes. A célula, por sua vez, é o símbolo da transformação, da vida, da evolução contínua, da capacidade de regeneração. Qual desses será o caminho final da humanidade? Ele não responde. Apenas afirma sua serena certeza de que a tudo e a todos atrai para si o Cristo Cósmico, o ponto Ômega para onde converge toda a criação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Jesus falava das mudanças necessárias para a vida no Reino como um nascer de novo. Imediatamente, Nicodemos põe-se a pensar na estranha possibilidade de ver-se encerrado, novamente, no seio de sua mãe. Pobre Nicodemos - pobres de nós - tão custosos em entendermos o alcance e as conseqüências dos gestos e palavras de Jesus. Nascer implica voltar a ser criança, tornar a aprender, aprender de um jeito diferente. O judaísmo ensinava que Deus era assim e assado. Jesus propõe um aprendizado diferente. A pedagogia de Jesus leva a um Deus diferente do judaísmo de seu tempo e de certo cristianismo de nossos dias. A todos Jesus propõe uma mudança. Aos empobrecidos e aos pecadores, Jesus propõe que eles mudem a forma de enxergarem a Deus. Deus não é opressor, mas é misericórdia e acolhimento. Aos opressores, aos fariseus e doutores da lei, que oprimiam o povo através da religião, Jesus pede que eles deixem de oprimir o povo, em nome de Deus. O próprio Jesus precisou enfrentar mudanças ao longo da sua missão. Enquanto ele estava convencido de que o Reino que veio anunciar e inaugurar se destinava, preferencialmente, ao povo judeu, uma mulher cananéia consegue fazê-lo mudar sua concepção do Reino, com uma observação lapidar: também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos. Coisa estranha, o Filho de Deus ter que tomar lições de Reino com uma mulher estrangeira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não pensem que faço apologia da inconstância. A inconstância é como as ondas do mar junto às pedras. Elas vêm e vão, entrechocam-se, batem ora numa direção, ora noutra. Não há rumo. É o caos. É claro que não nos podemos ver totalmente livres de uma certa inconstância inerente à nossa vida. O nosso humor não é o mesmo do início da manhã ao fim da noite, de domingo a sábado. O Alberto Caeiro reconhece:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mudo, mas não mudo muito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A cor das flores não é a mesma ao sol&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Do que quando uma nuvem passa&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ou quando entra a noite&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E as flores são cor de sombra.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mudar é diferente de ser inconstante. As mudanças em nossa vida são como as águas de um rio. Um rio, antes de ser rio, é um riachozinho despretensioso, sem importância. Um riacho mais outro, mais outro, entretanto, formam um rio caudaloso. Assim é a aritmética das mudanças. Pequenas e imperceptíveis mudanças somadas e já não somos as mesmas águas que deixaram as nascentes. Olhando-nos, percebemos quanta coisa deixamos para trás. O rio, antes de chegar ao seu destino, serpenteia serras, fertiliza terras, alimenta gentes. Rio tem direção e destino: o mar. As mudanças em nossa vida têm destino certo: a consumação final no amor que é Deus e que a todos envolve.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São João da Cruz comparava o amor transformador de Deus em nossa vida como fogo na lenha. Quanto mais verde a lenha, mais resistente ela se mostra para que o fogo a possa consumir e transformá-la em brasa, que ilumina e aquece. Mas, uma vez consumida pelo fogo, madeira e fogo tornam-se um. Não mais apenas madeira, não mais apenas fogo, mas uma única chama viva de amor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E assim, faço uma pequena, mas importante concessão. Há algo que, em certo sentido, não muda em nossa vida. E, mais uma vez, quem bem o disse foi Mercedes Sosa:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pero no cambia mi amor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Por más lejos que me encuentre&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ni el recuerdo, ni el dolor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;De mi pueblo y de mi gente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É servido?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1943641955571278147?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1943641955571278147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/cambiamos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1943641955571278147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1943641955571278147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/cambiamos.html' title='¿CAMBIAMOS?'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY26zNkrrI/AAAAAAAAAZA/Zh-EqqKQR5U/s72-c/cambiamos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-3340394040697111995</id><published>2009-04-19T23:44:00.006-03:00</published><updated>2010-10-21T07:26:43.512-02:00</updated><title type='text'>A ARTE DE DESFAZER NÓS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAHRsXueLI/AAAAAAAAAY8/FRbbIcHN0Zs/s1600/desfazernos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAHRsXueLI/AAAAAAAAAY8/FRbbIcHN0Zs/s1600/desfazernos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=90" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Amor de avó é diferente. Amor de mãe é carinho, ternura e proteção. Mas também é palmada no rabo, dedo em riste e cara séria, correções e castigos merecidos. Com a avó é diferente: resta-lhe apenas o lado brando da maternidade. Perna de avó é lugar de refúgio seguro, zona libertada da humanidade. Quem, diante de estripulias cometidas, não encontrou nas pernas e na barra da saia da avó proteção segura contra a mãe furiosa?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Com as minhas avós não era diferente. Na minha casa, a avó paterna tinha sua cadeira cativa na sala. Era lá que ela, quando nos visitava, passava o dia a fazer crochê. Consumia as horas do dia silenciosa a trançar com a sua agulha e linha aqueles intrincados desenhos geométricos. Eu costumava ficar ali sentado no chão, aos seus pés, feito gente em volta do fogão a lenha em dias de frio: aconchego. De vez em quando, ela levantava-se para ir à casa de banho, ao passo que eu, despreocupadamente, fazia de seus pés o meu pequeno urinol, não sem antes tomar o cuidado de abaixar-lhe as meias.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em uma das ocasiões em que ela abandonou a sala momentaneamente, as pequenas mãos conseguiram alcançar a linha e o crochê tecido ao longo da tarde. A curiosidade da criança é inevitável: o que acontece se eu puxar essa linha aqui, antes desse monte de nós? E lá se foi todo o trabalho da tarde de minha avó. O leitor e leitora amigos conseguem imaginar o encantamento de uma criança perante o ato de puxar uma linha e fazer com que todo um emaranhado de fios e formas se desfaça graciosamente sem oferecer nenhuma resistência? Que coisa prazerosa para uma criança! E que desespero para a mãe... Ela começa a ralhar, zangada, mal põe os olhos na arte às avessas do filho. Mas a zanga dura somente até a chegada da avó que, com um sorriso compreensivo, dissipa qualquer mau humor. E a criança sorri inocente como quem diz orgulhosa: Olha como é gostoso! Fui eu quem fiz! (ou desfiz…)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quando somos crianças, sentimo-nos alegres sem muito esforço. Basta uma bacia velha para escorregar barranco abaixo, uma bola velha e meio murcha para chutar, um pé de jabuticaba bem carregado para ser conquistado ou uma pipa para empinar. Coisas de criança. Crescemos e nos sofisticamos. Já não nos basta o calor do peito da mãe e das avós. Buscamos paixões hollywoodianas. Não nos basta a bola de futebol, no Natal: desejamos o carro do ano. Não nos bastam as histórias do Monteiro Lobato: queremos devorar Sartre e Nietzsche. Não nos basta o catecismo abreviado: ansiamos por arroubos místicos e milagres mediáticos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Crescer é como o trançar de fios na ponta da agulha de crochê de minha avó. O fio retilíneo da nossa vida começa a enrolar-se, ligar-se a outros pontos, encadear-se pacientemente ao longo dos anos. Como o fio que pacientemente entrelaçado forma colcha, toalha ou cortina, a nossa personalidade começa a ganhar forma e contorno. A nossa personalidade torna-se complexa, começa a criar dobras e a fragmentar-se. Multiplicamo-nos. Freud dizia que somos formados por três personagens distintas. Rubem Alves vai mais longe e afirma que, ao longo de nossa maturação, acolhemos em nós, sem muitos critérios, uma verdadeira legião de personalidades: somos muitos, a exemplo do possesso do Evangelho. Talvez ambos tenham razão. O fato é que deixamos de lado a simplicidade de nossa infância e embarcamos primeiro na aborrecência e, em seguida, na indolescência. Haja paciência daqueles que nos cercam… Pouco depois vêm os primeiros passos da idade adulta. Por esta altura, muitos já conseguiram saturar a própria vida com uma quantidade tal de nós que não são capazes de vislumbrar uma possibilidade, mínima sequer, de desembaraçarem-se de todos os problemas que eles mesmos teceram: drogas, gravidezes precoces, violência, delinqüência...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Crescer é inevitável e bom. Amadurecer é melhor. Crescer é acumular nós de mal-entendidos ao longo da vida. Amadurecer é aprender a desfazê-los. E como se não bastassem os nós inevitáveis com que a vida nos brinda a cada dia, muitas pessoas se encarregam de complicar aquilo que não é complicado na nossa existência. Somam nós aos nós. Você já reparou no relacionamento conflituoso e racionalmente inexplicável que muitas pessoas estabelecem, marido e mulher, pais e filhos, namorado e namorada, chefe e subordinados?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Há um momento, porém, um ponto de viragem, em que vislumbramos o fio da meada da nossa vida. Tomamos o fio em mãos, puxamo-lo e vemos um nó desfazer-se. Não é muito, mas já é algo que nos anima e nos descortina novas possibilidades. Sentimo-nos leves, abandonamos cargas e juízos inúteis. Vislumbramos um início de caminho. Principiamos a amadurecer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Jesus dizia que, para ingressarmos na dinâmica do Reino, precisamos tornar a ser crianças. Pouco paramos para pensar no alcance dessas palavras de Jesus. É claro que ele não nos quer eternamente pueris. Sobre nossa infância o que de melhor podemos dizer é: ainda bem que foi boa! Mas também dizemos: ainda bem que passou! Crescemos e amadurecemos, felizmente. O que Jesus pede para retermos ao longo de nossa vida é a simplicidade dos relacionamentos e dos afetos, como as crianças. Ele nos lembra a necessidade de mantermos a espontaneidade e o brilho do olhar da criança: brilho de vida. O Alberto Caeiro, guardador de rebanhos e morador dos campos, compreendeu a arte de bem viver, viver com simplicidade. Foi ele quem disse:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sejamos simples e calmos,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Como os regatos e as árvores,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E Deus amar-nos-á fazendo de nós&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nós como as árvores são árvores,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E dar-nos-á verdor na sua primavera,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E um rio onde ir ter quando acabemos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nó desfeito após nó desfeito, consumimos os anos de nossa vida. Ao se desfazerem velhos nós, surgem novos. É natural. Mas ao fim, resta-nos um último nó, cuja responsabilidade em desfazê-lo não nos cabe a nós. É o tênue nó do tempo que, de forma inesperada para uns ou serenamente aguardado para outros, rompe-se. Desfeito ele, o tempo desabrocha e se plenifica. Contemplamos a eternidade presente em cada instante de nossa vida. A irmã morte beija amorosamente nossa face, a terra acolhe maternalmente nosso corpo em seu ventre e mergulhamos, enfim, na plenitude da vida Trinitária.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E aí, companheiro? Já agarrou o fio da meada da sua vida?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-3340394040697111995?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/3340394040697111995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/arte-de-desfazer-nos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3340394040697111995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/3340394040697111995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/arte-de-desfazer-nos.html' title='A ARTE DE DESFAZER NÓS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMAHRsXueLI/AAAAAAAAAY8/FRbbIcHN0Zs/s72-c/desfazernos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-5290416282583423334</id><published>2009-04-19T23:43:00.003-03:00</published><updated>2010-10-26T00:10:23.894-02:00</updated><title type='text'>OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY4hxPmrwI/AAAAAAAAAZE/GgdSwRwiYqw/s1600/lirios.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY4hxPmrwI/AAAAAAAAAZE/GgdSwRwiYqw/s1600/lirios.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=91" target="_top"&gt;Download PDF&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Escrevo estas palavras sob o efeito de um feitiço. Se você, leitor e leitora amigos, quiserem me entender, devem deixar-se enfeitiçarem, também. Somente estando enfeitiçado como eu me encontro agora, será possível estabelecer aquele tipo de comunhão que traz vida aos textos que temos em mãos, numa cumplicidade estreita entre quem escreve e quem lê, desfazendo-se a distância que os separa. As palavras de um são as palavras do outro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Estou enfeitiçado pela música. Portanto, para estar enfeitiçado como eu me encontro, não é difícil: relaxe e escute alguma música. Escolha música de verdade. Pode ser a música barroca de Bach ou uma peça para piano de Chopin. As sinfonias de Beethoven e os clássicos de Mozart estão sempre ao alcance dos nossos ouvidos. Se preferir, escolha Amazing Grace ou Veni Creator Spiritus. Bolero, de Ravel, é perfeito: somos enfeitiçados mansamente, a melodia nos acariciando no rosto, sendo elevados nota após nota, até sermos despertados, no fim, e lançados repentinamente de volta ao chão. O canto gregoriano ou a música de Taizé têm uma magia toda própria. Um cântico fúnebre africano é de partir a alma. E o que dizer de Romaria, na voz da Elis Regina, ou Strani Amore, na voz do Renato Russo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A música que me enfeitiça neste momento não vem de fora. É uma música que vem de dentro e extravasa até chegar aos meus ouvidos. Essa música tem o som de um piano. Foi a primeira vez que eu ouvi alguém tocar piano de verdade, num concerto exclusivo para uma platéia de um único ouvinte. Ele reclamava do som metálico das teclas do piano. Mas, que diferença isso faz para um ouvinte inexperiente e ávido por aquela música que saía das suas mãos? São essas notas que, no silêncio do quarto, retornam aos meus ouvidos agora, juntamente com a experiência que elas provocam em mim: a experiência do belo, da beleza da música. E isso me faz perceber: a beleza salvará o mundo. E é sobre isso que eu desejo escrever.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas, antes, é preciso esclarecer: na morte de Jesus na cruz não há beleza alguma. Na cruz de Jesus há apenas dor, sofrimento e abandono. É possível haver alguma beleza nisso? Dificilmente. A injustiça e a opressão do ser humano sobre o outro são belas? Jamais. Não desejo, portanto, atenuar, com minhas palavras, o escândalo visível da cruz. O crucificado tinha o rosto desfigurado e o corpo disforme, sem figura nem beleza e sem aspecto atraente. A cruz de Jesus resume tudo aquilo que não é belo no nosso meio: a violência, a fome, a injustiça, a guerra e o abandono. A cruz de Jesus resume o inumano presente no nosso meio, aquilo que nos afasta da nossa vocação definitiva: nossa humanização individual e coletiva. E se Jesus é o humano por excelência, não há salvação possível fora da nossa própria humanização em Jesus.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A experiência do belo captado com os nossos sentidos e com o nosso espírito nos humaniza. A experiência estética do nascer e do pôr-do-sol, da música e do silêncio, das montanhas e das planícies, da equação matemática e da compreensão da tessitura do tempo e do espaço no universo, do paladar, do toque humano, do encontro com o outro e o seu corpo, a experiência serena ou arrebatadora da poesia, todas essas experiências apontam para a Beleza primordial inscrita no nosso espírito humano. Esse belo, diante do qual tantos já choraram, sem o saberem, era o próprio Deus quem os comovia por esse meio. O eco da voz de Deus se converte em música e o esboço tosco da pintura e suas cores captam apenas muito fracamente a luz primordial que d’Ele emana.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mesmo que cesse toda visão e se faça silêncio, ainda assim podemos cantar. Para isso, é preciso ver além daquilo que os olhos conseguem captar e escutar além daquilo que os nossos ouvidos conseguem perceber. É necessária a reeducação do olhar e dos sentidos. Foi assim com Francisco de Assis.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O evento que transformou a sua vida foi um encontro. Quem nos diz é ele próprio, quando, próximo à sua morte, faz memória da sua conversão. Foi um encontro com um leproso. Foi difícil para ele aproximar-se daquele corpo disforme, chagado e fétido. Mas, vencendo a sua própria aversão, ele aproximou-se, abraçou e beijou, nas mãos e na boca, aquele leproso no meio da estrada. O que aconteceu em seguida ele mesmo nos diz: “Quando eu estava em pecado, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia. E ao afastar-me deles, o que antes me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;As chagas e a deformidade não desapareceram do corpo do leproso: elas são tocadas, abraçadas e beijadas por Francisco. Mas, para além do encontro e do toque de dois corpos, há um encontro mais profundo e fundamental: o encontro com aquilo que o outro é verdadeiramente, para além das aparências, dos estereótipos e da primeira impressão. Para além do corpo chagado e da experiência inumana da rejeição e de não ser considerado alguém, há o mistério da presença do próprio Deus no outro, da Beleza primordial inscrita nos alicerces de todo espírito humano. Esse encontro e essa experiência colocaram em movimento, em Francisco, uma cadeia de outras realidades que habitam as profundezas do nosso ser: a compaixão, a misericórdia, a leveza, a alegria, a graça, a bondade, a doçura, a cordialidade, o riso e o canto. Não é assim o próprio Deus? Conversão é isso: inversão de olhar. Onde se via amargura, descobre-se a doçura. Onde o humano parece ausente, descobre-se Deus. A rudeza do corpo chagado manifesta-se como delicadeza de Deus. O que é considerado loucura revela-se como sabedoria e o que é tido como fraqueza de Deus manifesta-se como força. E Francisco cantou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pelo meio das estradas, apanhava dois pedaços de paus e se punha a tocá-los como se de um instrumento de cordas se tratasse. Quando estava particularmente inebriado da presença de Deus, cantava em francês, aprendido com sua mãe durante a infância. Ao enviar os seus irmãos em missão pelos burgos e povoados, instruía-os para que cantassem como jograis, para atrair a atenção das pessoas e iniciar a pregação sobre a necessidade de uma vida de penitência e conversão. Ele rezava e dizia que Deus é formosura e beleza.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O ponto alto dessa louvação do belo presente na criação, manifestação da Beleza primordial do Criador, é o “Cântico do Irmão Sol”. O período em que ele começou a ser redigido foi um tempo particularmente difícil para Francisco. Dois anos antes de sua morte, após receber os estigmas do crucificado no monte Alverne, Francisco fez-se transportar até São Damião, local de moradia de Clara e suas irmãs. A própria Clara preparou-lhe uma palhota com caniços e ramagem para protegê-lo da luz do dia. Uma doença dos olhos contraída durante sua estadia no oriente já o havia feito perder praticamente toda a visão. Nessa palhota, Francisco passou mais de cinqüenta dias sem poder suportar a luz do sol ou do fogo à noite, com muito sofrimento causado pela sua doença. Nos raros momentos em que a dor lhe dava descanso e que ele conseguia dormir um pouco, eram tantos os ratos que corriam sobre ele que não conseguia descansar. Mesmo durante o dia e nos momentos de oração, os ratos não lhe davam descanso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Foi nesse ambiente que Francisco começou a compor o seu Cântico do Irmão Sol, depois de receber a certeza de que participaria do reino celeste. Compôs os versos e a melodia para os mesmos, que ensinou aos seus irmãos. Instruiu esses mesmos irmãos a cantarem o cântico quando fossem pelo mundo e que o cantassem depois das pregações. Dizia que “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa criatura, o nosso irmão fogo, que alumia os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador” . Nos momentos em que estava mais atormentado pelas suas enfermidades, ele começava a entoar o cântico e pedia aos irmãos que prosseguissem. E assim foi até a hora de sua morte, para o escândalo de alguns frades ao seu lado. Eles diziam que não ficava bem alguém, às portas da morte, cantar como ele cantava, com alegria e serenidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Depois de cantar e saudar como irmãos e irmãs o sol, a lua, as estrelas, a água e o fogo, o ar e o vento, de cantar a terra como mãe generosa que nos dá flores e  frutos, ele estava finalmente preparado para o seu encontro pleno com a fonte de todo o Bem e de toda a Beleza. Nos seus últimos dias, passados na Porciúncula, ele compôs uma última estrofe em que a morte é saudada, fraternalmente, como “irmã”. E assim, cantando, ele morreu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Anos antes, nesse mesmo lugar, um dos seus irmãos perguntou-lhe: “Por que a ti, Francisco, por que a ti? Tu não és belo nem sábio e, entretanto, todos correm atrás de ti e desejam ouvir-te e obedecer-te. Por quê?” E Francisco, com a delicadeza característica, respondeu-lhe: “Queres saber porque a mim? Isto me vem daqueles olhos do Altíssimo Deus, os quais por toda a parte contemplam os bons e os maus; e como estes olhos santíssimos não descobriram entre os pecadores nenhum mais vil, nem mais ignorante, escolheu a mim para confundir a nobreza, e a grandeza, e a força, e a formosura, e a grandeza do mundo, para que se reconheça que toda a virtude e todo o bem lhe pertencem e não à criatura.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Numa sociedade de consumo que tenta desviar a nossa atenção daquilo que é a verdadeira fonte de toda Beleza, essa é uma lição importante a reter. Somente a verdadeira Beleza irá salvar o mundo. Mas, antes, é preciso deixar-se encontrar por ela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;……&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma criança desce correndo o vale próximo à sua casa, num pequeno povoado da Galiléia. O vale, que descansava entre a última colheita de trigo e a próxima semeadura, estava vestido de flores do campo, numa tonalidade que ia do branco ao violeta, juntamente com os pés de oliveiras espalhados ao redor. Durante aquele breve período de floração, a criança sempre encontrava, nas tardes, uma maneira de fugir às suas obrigações domésticas e correr pelo vale. O regresso para casa era sempre acompanhado pela reprimenda da mãe, por causa do sumiço e da água por buscar ao poço. Entretanto, já em casa, restava-lhe um último ritual, ao qual a mãe e o pai em sua oficina já se acostumaram, sabendo que de nada adiantaria dirigirem-lhe a palavra naquele momento: sentar-se no terraço da pequena casa e acompanhar o fim do dia e o sol que se escondia lentamente, tingindo o horizonte com as cores características, até desaparecer totalmente em silêncio. E ali permanecia até que sua mãe o despertasse daquele transe, chamando-o para a última refeição do dia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Anos mais tarde, a criança, já um adulto formado, revive em sua memória essas cenas da sua infância. E então, no frio daquela noite escura sem lua, sentado à volta da fogueira, ele rompe o silêncio e começa a ensinar aquele pequeno grupo de homens à sua volta, dizendo: “Olhai os lírios do campo, vede como são belos. E, no entanto, não trabalham nem fiam. Aprendei com eles sobre Deus…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-5290416282583423334?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/5290416282583423334/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/olhai-os-lirios-do-campo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/5290416282583423334'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/5290416282583423334'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/olhai-os-lirios-do-campo.html' title='OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMY4hxPmrwI/AAAAAAAAAZE/GgdSwRwiYqw/s72-c/lirios.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-611056121128196419</id><published>2009-04-19T23:42:00.002-03:00</published><updated>2010-10-26T05:36:33.472-02:00</updated><title type='text'>E LIVRAI-NOS DO MAU HUMOR</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMaE8OQOk4I/AAAAAAAAAZI/8FHSIOTgs4I/s1600/mauhumor.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMaE8OQOk4I/AAAAAAAAAZI/8FHSIOTgs4I/s1600/mauhumor.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=92" target="_top"&gt;Download PDF&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É inevitável: todos nós temos os nossos conselhos a dar a Deus. O Pedro Malasarte, personagem brasileiro com raízes no século XIX e primo distante de Macunaíma, também tinha lá os seus conselhos para o Criador. Conta-se que um dia em que ele se encontrava a sonecar debaixo de uma jabuticabeira, pensou com os seus botões: "Fosse eu o Criador do Mundo, faria as coisas diferentes. Onde já se viu uma árvore frondosa como essa jabuticabeira a dar frutos tão pequeninos como esses, ao passo que estas enormes abóboras aqui perto rastejam pelo chão presas a esses caules frágeis? Pois eu colocaria as abóboras a nascer no tronco da jabuticabeira e as jabuticabas a rastejar pelo chão na aboboreira." Pois mal terminou de falar, uma jabuticaba desprendeu-se do tronco e caiu-lhe sobre o nariz. Foi o suficiente para ele mudar de idéia. Fosse uma abóbora a cair-lhe sobre a cabeça e ele encontrar-se-ia em apuros. A experiência de uma abóbora a cair sobre a própria cabeça pode ser um acontecimento raro, mas já aconteceu. Pela dor que eu senti, não o desejo a ninguém.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Assim, cada um de nós está pronto para partilhar com o Criador, caso seja solicitado, um pouco da sua própria sabedoria, oferecendo-lhe conselhos muito úteis para que o mundo seja um pouco melhor. Para uns, o pôr-do-sol no horizonte demorar-se-ia um pouquinho mais, dada a sua beleza. Os amantes de pêssegos - a fruta mais sensual que existe - desejariam que os pessegueiros dessem fruto durante todo o ano. Para outros, não haveria guerras ou fome no mundo. Outros ainda estão prontamente dispostos a oferecer ao Criador uma lista de pessoas que deveriam partir imediatamente para a vida eterna em troca de outras que deveriam ter ficado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu também tenho cá os meus conselhos. Simples e modestos, reconheço, mas de grande alcance. Um deles partilho com você, leitor e leitora amigos. Se eu fosse Jesus, no momento de ensinar aos discípulos a rezar o Pai-nosso, eu teria acrescentado uma petição final. Após o "…mas livrai-nos do mal", eu acrescentaria: "e do mau humor".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não ria, falo com seriedade. Você consegue imaginar como o mundo hoje seria melhor se umas boas dúzias de pessoas responsáveis pela condução das nossas políticas e economias vivessem com um pouquinho de bom humor ao invés do azedume quotidiano? Se Hitler tivesse sido uma pessoa bem-humorada, ele não teria sido o bárbaro que foi. Já pararam para pensar que um dos momentos de maior fecundidade evangélica da nossa Igreja deu-se durante o pontificado de João XXIII, um papa bom e bem-humorado, que trouxe à nossa Igreja a coragem e a frescura dos tempos primitivos?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A eficácia de minha petição reside no fato de que o humor é a outra face da bondade. Alguém já definiu muito bem: humor, amor com h. E se Deus é amor, então Deus é também humor. Se o amor não é apenas mais um atributo de Deus, mas o próprio Deus na sua essência, então Deus também é essencialmente humor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Outra pessoa já afirmou: o homem pensa, Deus ri. Não desejo com isso parecer leviano com o próprio Deus. Escrevo com seriedade e com serenidade. E se na minha busca me torno leviano momentaneamente, o bom Deus, na sua misericórdia, ri-se serenamente da minha leviandade. O leitor e leitora amigos alguma vez já conseguiram flagrar o sorriso sereno e confiante no rosto do pai ou da mãe ao verem os erros dos seus filhos e ao saberem que, mais cedo ou mais tarde, o filho aprenderá com as lições que a vida lhe fornece, ainda que isso lhes cause sofrimento? Penso que com Deus se passa algo parecido. Diante dos desvios pelos quais a humanidade caminha, Deus sorri serenamente, sorriso que brota da certeza de que ao fim e ao cabo todos os caminhos levam a Ele: impossível fugir em direção oposta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É certo que Deus também sofre com nossos descaminhos. Além do mais, a imagem de Deus que emerge do Antigo Testamento não é lá das mais simpáticas. Volta e meia encontramos um Deus encolerizado, irado, aborrecido com a dureza de coração do povo que ele havia reservado para si. E pode-se esperar outra imagem de Deus proveniente da cultura patriarcal do Oriente Médio? Mas Jesus começa a operar uma mudança na imagem de Deus. Sai de cena o Deus de cara fechada e mal-humorado, o contabilista das leis que o homem cumpria ou deixava de cumprir. Entra em cena um Deus próximo, amoroso, paizinho, que abraça como o pai misericordioso da parábola, que carrega a ovelha ferida aos ombros, que faz festa pela moeda reencontrada e que sacia a fome de seu povo com palavras e com pão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Há rumores de um pergaminho apócrifo, contemporâneo dos primeiros escritos neotestamentários, que conta a história bem-humorada a respeito da multiplicação dos dois pães e dois peixes, narrada de forma mais ortodoxa nos evangelhos. Conta-se que, quando Jesus perguntou o que havia disponível para alimentar toda aquela multidão, lhe apresentaram três pães e três peixes. Um dos discípulos, porém - Pedro? o pergaminho não precisa o nome - subtraiu egoisticamente um pão e um peixe somente para si, com medo de ficar sem ter que comer. Mas, bastou Jesus pronunciar a bênção para que não apenas os dois pães e os dois peixes que estavam consigo se multiplicassem milagrosamente, mas também aqueles que haviam sido subtraídos pelo discípulo, que se viu de repente diante de um enorme monte de peixes e de pães a denunciar-lhe o egoísmo. Tentem imaginar a cena e a cara do infeliz discípulo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E por falar em comida, é importante lembrar que o bom humor tem as suas raízes no estômago, enquanto o mau humor tem as suas raízes na doença. Condição essencial para o bom humor é o estômago satisfeito. A fome dificilmente é companheira do bom humor. Tampouco a violência, a guerra e a injustiça. Por isso, o bom humor não dispensa a ira, a indignação e a luta por um mundo melhor e mais bem-humorado. É que o bom humor é evangelizador: impossível experimentá-lo sem desejar que outros o façam.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O mau humor, por sua vez, alimenta-se de nossas doenças. As nossas doenças, por sua vez, são alimentadas pelo nosso mau humor, fechando-se assim o círculo vicioso. O sintoma do resfriado a seguir ao nariz entupido e aos espirros é a perda do humor. A dor também nos rouba o humor e a inteireza. Coisa estúpida: basta ferirmos suficientemente um dedo de um pé para deixarmos de ser nós mesmos, com toda a nossa carga de intelecto, afetos, sentimentos nobres e pulsão pela vida e nos convertermos num mísero dedo do pé que reclama toda a nossa atenção para si. Mas há também um outro tipo de doença que alimenta o mau humor: as fendas na nossa personalidade. Há pessoas que vivem num eterno azedume, povoadas de enxaquecas, dores pelo corpo e mal-estar constante. Você já conheceu um hipocondríaco bem-humorado?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E se o mau humor alimenta doenças, o bom humor ajuda a curá-las. E mesmo para aquelas enfermidades para as quais não há cura, resta-nos uma última esperança, a esperança de partir com um sorriso no rosto, testemunho silencioso e mudo de quem diz: meu caro, a vida é bonita e vale a pena. É pedir muito?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-611056121128196419?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/611056121128196419/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/e-livrai-nos-do-mau-humor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/611056121128196419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/611056121128196419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/e-livrai-nos-do-mau-humor.html' title='E LIVRAI-NOS DO MAU HUMOR'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TMaE8OQOk4I/AAAAAAAAAZI/8FHSIOTgs4I/s72-c/mauhumor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-6338715188810461120</id><published>2009-04-19T23:41:00.007-03:00</published><updated>2010-12-26T08:52:11.786-02:00</updated><title type='text'>A DOENÇA DE PENSAR</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRceUq1F3QI/AAAAAAAAAZU/5YMaZFVtoHw/s1600/doencapensar.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRceUq1F3QI/AAAAAAAAAZU/5YMaZFVtoHw/s1600/doencapensar.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=93" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nada é perfeito. Foram necessários cerca de dois milhões de anos de evolução para que uma minúscula célula - à qual os cientistas dão o nome de Áries - se desenvolvesse lentamente e resultasse no ser humano. Entre essa célula primordial e o corpo humano, processou-se uma longa história de seleção e adaptação, de tentativas e erros, de vida e de morte até chegarmos ao corpo humano, com todas as suas características biológicas, psíquicas, afetivas e espirituais. Dois milhões de anos depois, entretanto, há sempre alguém a reclamar que o nosso organismo poderia ter se desenvolvido desta ou daquela maneira, de forma a tornar mais cômoda nossa existência atual. Por exemplo, a evolução já poderia ter eliminado os dedos dos pés. Estaríamos livres das micoses e das unhas encravadas. Um pouquinho de clorofila nas nossas células ajudar-nos-ia imensamente a processar a nossa própria fonte de energia, sem necessidade de parasitarmos os nossos parentes mais distantes, ou mais próximos, na cadeia alimentar. Uma terceira orelha e o respectivo aparelho auditivo adicional talvez fossem a solução para o nosso vício de falarmos muito e de escutarmos pouco. Além do mais, seria uma verdadeira dádiva para os cultores do piercing, sempre ávidos por encontrar mais um lugar exótico no corpo, onde espetarem os seus acessórios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que faço parte desse numeroso grupo de palpiteiros da criação, penso que o nosso corpo peca apenas pela falta de um mecanismo que, existindo, nos seria muito útil. No nosso organismo, falta um botão do tipo stand by, como o dos modernos equipamentos eletrônicos. Basta um toque nesse botão e os aparelhos entram em estado de hibernação e de baixo consumo de energia. Falta um botão desses para colocar em hibernação os nossos pensamentos. É que, algumas vezes, pensamos demais. E pensar é estar doente, como já disse Alberto Caeiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio no mundo como num malmequer,&lt;br /&gt;Porque o vejo. Mas não penso nele&lt;br /&gt;Porque pensar é não compreender…&lt;br /&gt;O mundo não se fez para pensarmos nele&lt;br /&gt;(Pensar é estar doente dos olhos)&lt;br /&gt;Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.&lt;br /&gt;Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…&lt;br /&gt;Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,&lt;br /&gt;Mas porque a amo, e amo-a por isso,&lt;br /&gt;Porque quem ama nunca sabe o que ama&lt;br /&gt;Nem sabe porque ama, nem o que é amar…&lt;br /&gt;Amar é a eterna inocência,&lt;br /&gt;E a única inocência é não pensar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensar é a única coisa que desejamos algumas vezes na vida. Quantas vezes vamos para a cama sem conseguirmos dormir, apesar do cansaço do nosso corpo? O nosso corpo pede repouso, enquanto os nossos pensamentos, em vivo protesto, nos agitam freneticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pensamentos de idéias, pensamentos de amores, pensamentos de rancores, pensamentos de ansiedade, pensamentos de beleza, pensamentos de medo... A lista é longa. E não me interessa que tipo de pensamento me assalta: desejo apenas não pensar. Mas, existe coisa mais desobediente que o pensamento? Nós pensamos que somos donos dos nossos pensamentos. Não somos. Se fôssemos donos, eles nos obedeceriam e se calariam prontamente à menor ordem nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conta-se que, certa vez, um jovem se aproximou de Poimen, um sábio eremita dos primeiros séculos do cristianismo, e lhe pediu ajuda: "Pai, tenho inúmeros pensamentos e eles me põem em perigo". O patriarca conduziu-o para fora e disse-lhe: "Estufa o peito e pára os ventos!". Ele porém respondeu: "Eu não consigo fazer isso!" Então o ancião acrescentou: "Se tu não consegues fazer isso, também não és capaz de impedir que os pensamentos se aproximem de ti".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensamentos demais são um dos problemas das pessoas que sofrem de algum tipo de esquizofrenia. Quando um cancro se instala no nosso corpo, as células cancerosas adquirem autonomia e começam a multiplicar-se desgovernadamente. As quatro letras com as quais são formadas as palavras do nosso código genético ganham autonomia e passam a compor um script próprio, deixando de seguir o minucioso roteiro da vida que faz com que essas quatro letras se combinem para gerar mãos, pés, órgãos e tecidos. Acredito que algo semelhante se passa com os que sofrem de esquizofrenia. Os pensamentos no indivíduo esquizofrênico multiplicam-se desordenadamente, deixando de seguir qualquer roteiro lógico, criando um mundo distante da realidade, resultando daí a desorientação e a alienação do doente. Um dos antigos tratamentos para conter a avalanche de pensamentos e idéias do esquizofrênico consistia em induzir o indivíduo ao estado de coma com a aplicação de elevadas doses de insulina, como já foi mostrado no filme "Uma mente brilhante", que narra a história real de John Nash, que chegou a ganhar o Prêmio Nobel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha cruzada pelo direito de não pensar quando julgar conveniente, porém, que eu não seja mal interpretado. O que eu desejo é apenas colocar em pé de igualdade o pensamento e a contemplação, a luminosidade das idéias e o escuro do vazio, o trabalho de raciocinar e o repouso de não pensar. Não prego, de forma alguma, o retorno à nossa condição pré-humana, quando a centelha do pensamento ainda não havia ateado fogo no espírito humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que eu, pessoalmente, já encontrei muitas pessoas que abdicaram por completo o exercício de pensar e de tomar decisões. Os casos mais clássicos são os das pessoas apaixonadas. A paixão é uma caricatura do amor. Vinícius de Morais dizia que o amor é eterno enquanto dura. Errado. A paixão é que é eterna enquanto dura. Paixão é coisa de momento e amanhã já não o é mais. O amor é algo que se constrói, dia após dia, no quotidiano da vida. Acontece que os apaixonados não pensam um mínimo sequer. Argumentar com pessoas apaixonadas é jogar palavras ao vento. Outros passaram uma procuração para os meios de comunicação social, dando a estes a total liberdade de pensar e de decidir pelo indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, em nenhum outro momento, os diferentes pensamentos nos assaltem de maneira tão intensa, quando nos dispomos a nos silenciarmos para rezar. Nesses momentos, em que tentamos recolher todos os nossos pedaços para nos colocarmos com inteireza diante do Absoluto, os pensamentos fazem tropelias em nós. É uma loucura. E Riobaldo já disse no Grande sertão: veredas: "O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura". Da loucura de pensar demais. Mas, essa é uma outra estória sobre a qual vale a pena pensar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-6338715188810461120?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/6338715188810461120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/doenca-de-pensar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/6338715188810461120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/6338715188810461120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/doenca-de-pensar.html' title='A DOENÇA DE PENSAR'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRceUq1F3QI/AAAAAAAAAZU/5YMaZFVtoHw/s72-c/doencapensar.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1005454157840727161</id><published>2009-04-19T23:41:00.006-03:00</published><updated>2010-12-26T08:48:12.311-02:00</updated><title type='text'>PAPEL DE EMBRULHO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcdTEenKtI/AAAAAAAAAZQ/Y5w_4cWHZjs/s1600/papelembrulho.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcdTEenKtI/AAAAAAAAAZQ/Y5w_4cWHZjs/s1600/papelembrulho.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=94" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A história parece ter saído do roteiro de um filme de cinema. Um jovem vai ao mercado para comprar peixe. Após chegar a casa e desembrulhar os peixes que havia comprado, chama-lhe a atenção o papel utilizado para embrulhar os mesmos. Tratava-se de folhas escritas em grego com uma grossa camada de tinta. Imediatamente, ele regressa ao mercado na esperança de encontrar mais algumas folhas daquele precioso papel de embrulho. Por sorte sua, conseguiu encontrar mais 260 folhas do papel num estado de conservação razoável. Quando chegou a casa e começou a examinar com mais cuidado a sua aquisição, descobriu que tinha nas mãos um verdadeiro tesouro: nada menos do que 22 escritos da antiguidade cristã. A história passou-se no ano de 1436, na cidade de Constantinopla, atual Istambul. Entre os escritos desse precioso achado - cujo original acabaria por se perder num incêndio, no ano de 1870, na cidade alemã de Estrasburgo - encontramos o texto da "Carta a Diogneto". Essa carta é uma pequena pérola da literatura cristã primitiva, escrita no início do século III da era cristã. Nela, um cristão anônimo escreve a Diogneto, um amigo seu, pagão, para tentar mostrar-lhe, em espírito de diálogo e lucidez, tão carenciado em nossos dias atuais, qual é a natureza da religião cristã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor informa ao seu amigo que "os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem pela terra, nem pela  língua, nem pelos   costumes (…) Vivem na sua pátria, mas como peregrinos; participam em tudo como cidadãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda a pátria estrangeira é para eles uma pátria e cada pátria é uma terra estrangeira (…) Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase 600 anos depois, custa-nos acreditar que tal tesouro estivesse a embrulhar parcos peixes, que o papel de embrulho fosse infinitamente mais precioso que o conteúdo envolvido. Paulo, ao referir-se à graça de Deus que habita em nós, usa uma imagem oposta: trazemos o tesouro da graça de Deus em vasos de barro, para indicar a fragilidade da nossa realidade humana que acolhe a graça divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se aquele jovem não tivesse prestado atenção a algo tão trivial como o papel que embrulhava o peixe que ele tinha comprado, estaríamos privados desse pequeno tesouro da literatura cristã primitiva. O quotidiano, quando bem espreitado, pode revelar-nos surpresas agradáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há casos de amizades profundas nascidas de encontros casuais em lugares ainda mais insólitos. Teilhard de Chardin começou a escrever "A missa no altar do mundo" tendo à sua frente o nascer do sol quotidiano no deserto de Ordos. Moisés recebeu o chamamento para a sua missão enquanto apascentava rebanhos do sogro. O quotidiano, não raras vezes, acaba por se converter em lugar da teofania de Deus, torna-se transparente à presença de Deus no nosso meio. Para perceber essa presença, entretanto, é necessário educar o olhar e saber perder tempo. O quotidiano é o lugar dos pequenos acontecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte das pessoas carrega em si grandes ideais ou projetos de vida. Essas grandes referências à frente do nosso olhar e da nossa existência são, sem dúvida, importantes. São eles que nos mantêm de pé e que nos permitem recuperar a caminhada após alguma queda. Eles são o norte que nos guia, a estrela de Belém que nos indica a direção. Entretanto, quando mantemos os olhos nesses grandes ideais, perdemos de vista o quotidiano sob nossos olhos, ignoramos os pequenos detalhes de relacionamentos de que é feita a nossa existência. E, ao fim e ao cabo, a nossa vida nada mais é do que esse rosário formado pelas contas dos pequenos acontecimentos, unidos pelo fio do nosso quotidiano. Afinal, a vida é feita de trabalho, de suor diário e de labuta pelo pão. Uma grande parte da frustração da vida moderna provém da incapacidade de lidar com essa realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em linguagem evangélica, Jesus sentenciou que se não fôssemos capazes de sermos fiéis nos pequeninos acontecimentos do nosso quotidiano, não nos seriam confiadas coisas maiores e mais importantes. Ele condicionou, também, a bem-aventurança eterna, não com gestos magnânimos de altruísmo, mas com gestos simples, como saciar a sede e a fome dos famintos e ser solidário com os peregrinos e presos. Quem não for reprovado nesse teste quotidiano de fraternidade estará apto a realizar coisas grandiosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte da vida doentia vivida por muitas pessoas, hoje, tem a ver com o descompasso existente entre esses grandes projetos e ideais pessoais e a vida concreta vivida por elas. Para agravar a situação, as pessoas são continuamente bombardeadas pelos meios de comunicação social com ideais que, sob a aparência de serem grandiosos, são, na verdade, efêmeros, rasos e faltos de sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez neste exato momento, bem aí ao seu lado, a vida esteja a presenteá-lo com um pequeno gesto de generosidade. Esteja atento. Afinal, o papel de presente com que esses gestos vêm embrulhados tem um nome muito simples: quotidiano.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1005454157840727161?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1005454157840727161/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/papel-de-embrulho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1005454157840727161'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1005454157840727161'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/papel-de-embrulho.html' title='PAPEL DE EMBRULHO'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcdTEenKtI/AAAAAAAAAZQ/Y5w_4cWHZjs/s72-c/papelembrulho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-6608529474865725021</id><published>2009-04-19T23:40:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T08:57:51.311-02:00</updated><title type='text'>O HABITANTE DA CAIXA DE FÓSFOROS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcfp4l2blI/AAAAAAAAAZY/l44K5eKLVJM/s1600/caixafosforo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcfp4l2blI/AAAAAAAAAZY/l44K5eKLVJM/s1600/caixafosforo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=95" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dos desafios da missão além-fronteiras é o contato com uma realidade cultural, política e religiosa diferente daquela no meio da qual crescemos e fomos educados. A facilidade com que enxergamos e analisamos essa realidade cultural a partir da nossa própria matriz cultural é um risco constante, não importa o quão preparados estejamos. Ao nos transportarmos para realidades culturais diferentes, uma atitude importante é não carregarmos preconceitos, abandonarmos imagens e juízos pré-concebidos - e, normalmente, errôneos - do lugar para onde nos dirigimos. Garanto-lhes que falar e escrever sobre isso é bem mais fácil do que viver essa convicção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Moçambique, por exemplo, um primeiro preconceito errado que podemos trazer é a imagem de uma nação negra, onde os seus membros têm como religião o culto familiar prestado aos seus antepassados. De fato, a população negra é a maioria da população e o cristianismo representa apenas uma parcela da população. Mas, como chama a atenção a presença da população de origem árabe e indiana, junto com as suas duas religiões: o islamismo e o hinduísmo. É uma realidade diferente para quem está acostumado a mover-se no meio de um ambiente majoritariamente cristão. Somos confrontados com questionamentos que, antes, não nos eram colocados. Sentimos bem perto de nós o confronto latente entre os diversos credos religiosos. O que fazer quando cada credo religioso reclama categoricamente para si a exclusividade do caminho sagrado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As religiões, com os seus credos, suas formulações e suas liturgias parecem conseguir o impossível: fazer Deus do tamanho de uma caixa de fósforos. Aquele que, de acordo com a nossa fé cristã, é o criador de todo o cosmos - e você já parou para imaginar a escala de grandeza do cosmos? - fica reduzido ao tamanho das nossas formulações e desejos, do tamanho de uma caixa de fósforos. Aprisionado dentro desse minúsculo objeto, já não se trata mais de Deus, mas de ídolos aos quais nos prostramos em reverente idolatria. Felizmente, o mistério não se deixa aprisionar. Escapa-nos sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, cristãos, ao professarmos a nossa fé na comunidade Una e Santa de amor que é a Trindade, devemos deixar sempre aberto, em nossa mente e em nosso coração, o espaço para que Deus seja Deus e não um simples prisioneiro das nossas formulações dogmáticas. "Deus é mais", repete um bordão da moda. Precisamos passar do bordão à compreensão dessa verdade profunda com todas as suas conseqüências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que a liturgia, os credos e a teologia não nos levem a experienciar a sombra do mistério que é Deus. Levam-nos. Quem não experimentou um pouquinho da eternidade e da verdade sobre nós mesmos, ao ler os poemas do Alberto Caeiro - leiam  "O Guardador de Rebanhos" - , ao ouvir o canto de Taizé ou a música barroca de Bach? Quem não consegue comungar as palavras de Jesus que comparava o reino com uma grande festa e banquete ao participar de uma eucaristia - aqui em África de um modo especial - com a sua música, dança e cor? Somos criaturas situadas historicamente, dotados de sentidos, de reflexão, de desejos. E é com esses instrumentos - sentidos, paixões, reflexão - que nos aproximamos do mistério que é Deus. Não somos pessoas desencarnadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Encarnação do Verbo na fé cristã lembra-nos exatamente isso: Deus se faz pequeno, à nossa medida. Mas faz-se pequeno para nos elevar, para nos libertar das falsas imagens de Deus que nos prendem ao chão e que nos escravizam mutuamente. E esse foi um dos motivos que levou Jesus à morte: a liberdade de Jesus frente à religião judaica. Contra aqueles que sustentavam que o único lugar de adoração a Deus era o Templo em Jerusalém, Jesus diz à samaritana: "Vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai..." Contra os legalistas fariseus que colocavam a lei acima do homem, Jesus proclama: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado". Para aqueles que o acusam de não seguir os costumes de purificação, Jesus sentencia: "Nada há no exterior do homem que, penetrando nele, possa torná-lo impuro..." Longe de Jerusalém, Jesus podia contemplar a paisagem e exclamar: "Olhai os lírios, como não fiam nem tecem..." Mais fundamental, Jesus proclamava que o Pai que está no céu faz brilhar o sol e cair a chuva, tanto sobre os bons como sobre os maus. E, sendo Deus, poderia ser diferente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pecado capital de qualquer caminho religioso - do judaísmo do tempo de Jesus ao cristianismo de nossos dias, passando pelas grandes tradições religiosas não cristãs - consiste em apoderar-se de Deus e do Sagrado. Fico a imaginar o riso sonoro de Deus ao contemplar tal pretensão humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dostoïewsky conseguiu captar, com extrema subtileza, essa pretensão da religião cristã, em particular. Em Os Irmãos Karamazov ele nos conta a estória do Grande Inquisidor. A cena passa-se na Sevilha do século XVI, quando se queimavam diariamente hereges na fogueira "para a maior glória de Deus". Nessa altura, Deus quis aparecer por um instante ao povo sofredor e miserável. Voltou à terra na mesma forma humana que teve nos seus trinta e três anos de vida. Ele surgiu lentamente, sem fazer-se notar, mas - coisa estranha - todos o reconheceram. Caminhava em silêncio, seus olhos emanavam a luz e despertavam amor entre os homens. Os doentes, ao lhe tocarem, eram curados. As crianças atiravam-lhe flores e cantavam "hosana!" Uma criança morta retornou à vida em frente à catedral. O povo, estupefato, grita e chora. Mas, nesse mesmo momento, passa em frente à catedral o próprio cardeal, o grande inquisidor. Presenciara toda a cena. A um gesto seu, ordenou que os guardas prendessem aquele que retornara. À noite, na prisão, o grande inquisidor pergunta: "És tu?... Não tens mais o direito de acrescentar coisa alguma ao que já disseste outrora. Porque vieste incomodar-nos? Outorgaste-nos, solenemente, o direito de fazer e desfazer, e está claro que não podes pensar, por um momento sequer, em no-lo tirar agora. Com que fim, vieste, portanto, estorvar-nos?" E conclui: "Se há alguém sobre a terra que merece a nossa fogueira, esse alguém és tu. Dixi".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada tradição religiosa, com raras exceções, tem o seu grande inquisidor, seus procuradores, aqueles que falam em seu nome. Eu mesmo, ao escrever estas palavras, pareço contradizer-me. É que pareço fazer as vezes de advogado do Sagrado, saindo-lhe em defesa. Não, definitivamente, Deus não necessita das minhas palavras ou formulações. Deus, impassível, segue sendo Deus, independente do que dissermos a respeito d’Ele ou da forma como rezamos ou deixamos de rezar a Ele. Quem necessita destas palavras sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Libertando-me das falsas imagens de Deus que carrego em mim, a vida torna-se mais leve e humorada, a oração converte-se em diálogo espontâneo, os relacionamentos mútuos modificam-se. Em uma palavra: transformo-me. E assim, a religião cumpre em minha vida o seu papel capital: a conversão em direção à comunhão com Deus e com a criação inteira, do humano ao verme que rasteja pela estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que uma das perguntas que podemos fazer para julgar a autenticidade de experiências religiosas que, dizem algumas pessoas, mudaram as suas vidas é: você se tornou mais tolerante e amoroso com pessoas que não partilham a mesma experiência religiosa? Por isso, pense duas vezes antes de dizer que Deus mudou a sua vida. Já ali, na próxima esquina, você irá descobrir que a conversão do coração é um percurso um pouco mais longo do que imaginamos à primeira vista: tem a distância exata dos anos da nossa vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-6608529474865725021?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/6608529474865725021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-habitante-da-caixa-de-fosforos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/6608529474865725021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/6608529474865725021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-habitante-da-caixa-de-fosforos.html' title='O HABITANTE DA CAIXA DE FÓSFOROS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcfp4l2blI/AAAAAAAAAZY/l44K5eKLVJM/s72-c/caixafosforo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-7303785058747691451</id><published>2009-04-19T23:39:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T09:01:06.590-02:00</updated><title type='text'>ENTRE O INSTANTE E A ETERNIDADE</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcgamjhLtI/AAAAAAAAAZc/QXmrxBO-D5M/s1600/instanteeternidade.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcgamjhLtI/AAAAAAAAAZc/QXmrxBO-D5M/s1600/instanteeternidade.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=96" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pôr-do-sol na baía de Inhambane. O leitor e a leitora amigos já presenciaram algum deles lá? Em outro lugar não vale. Deve ser em Inhambane. Talvez algum dia eu encontre um pôr-do-sol mais belo. É uma possibilidade que pertence ao futuro. O de Inhambane, entretanto, é real e pertence ao presente. Está logo ali, bastando sentar-se no banco em frente à baía e aguardar por aquele momento em que a luz vermelha do sol se dilui no horizonte ao redor. Mar calmo, maré baixa. Barcos encalhados na areia à espera da maré alta para novamente singrarem ao mar. Cheiro salgado de mar no ar. Silêncio. Do outro lado da baía, os imensos coqueirais da região, cortados pela torre da igreja e pelo minarete da mesquita. É uma moldura perfeita para os versos do Fernando Pessoa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.&lt;br /&gt;Deus quis que a terra fosse toda uma,&lt;br /&gt;Que o mar unisse, já não separasse.&lt;br /&gt;Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,&lt;br /&gt;E a orla branca foi de ilha em continente,&lt;br /&gt;Clareou, correndo, até ao fim do mundo,&lt;br /&gt;E viu-se a terra inteira, de repente,&lt;br /&gt;Surgir, redonda, do azul profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É uma cena que se repete a cada dia, presenteando aqueles que param para viver pacientemente esse momento único em que o sol se despede da costa leste da África para oferecer, pouco depois, a mesma magia desse momento aos habitantes a oeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, então, quase sem querer, como por uma distração do tempo, como se ele tivesse sonecado momentaneamente, somos invadidos por aquela experiência de totalidade e de comunhão. Cessa a nossa tormenta interior e o olhar transfigura-se. Ficamos momentaneamente curados da nossa doença de pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso não dura mais do que uma fração de segundos, como se o tempo houvesse parado a sua marcha para que a vida nos pudesse entregar um pouco da sua verdade. São momentos efêmeros de serenidade e de alegria interior. Mia Couto, o autor moçambicano aparentado nas palavras e nas frases com Guimarães Rosa, já disse pela boca de um dos seus personagens: "Estou fadado apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gregos tinham duas palavras diferentes para designar o tempo. Uma delas, "khrónos" - de onde provém a palavra cronômetro - era utilizada para designar o tempo como o conhecemos corriqueiramente. Crono é o tempo tirano, segundo após segundo, indefinidamente. É contra ele que boa parte das pessoas, principalmente os moradores de ambientes urbanos, combatem uma batalha quotidiana, infrutífera. Sempre lhes falta tempo para concluir alguma atividade, não obstante a correria com que tentam desempenhar as tarefas diárias. A ditadura do crono é a ditadura da agenda. A inteireza da nossa vida fica dividida entre as atividades mais díspares espalhadas pelas diferentes - e, às vezes, sobrepostas - horas do dia, todas elas computadas na nossa agenda. A agenda é o símbolo mais cabal da nossa estratégia bélica contra o crono. Crono esse que nos esvazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, o crono não reina em absoluto. Os cientistas - e não os poetas - foram os primeiros a afirmar: o tempo é brincalhão, gosta de nos pregar peças. O tempo sisudo, sério, segundo após segundo, tique após taque, não existe. O tempo verdadeiro é diferente. Aliás, não há tempo, mas tempos que transcorrem de maneiras distintas, de acordo com a velocidade com a qual nos deslocamos pelo espaço afora. Quanto mais rapidamente singramos o espaço montados na cauda de um cometa, mais lentamente transcorre o tempo para nós em relação a um companheiro nosso que permanece na Terra. Resultado: envelhecemos mais lentamente que o nosso companheiro da Terra. Desconfio que esse era o segredo do principezinho do Exupéry: estava sempre a viajar agarrado à cauda dos cometas. Por isso, era sempre criança, como o Menino Jesus do Alberto Caeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda palavra dos gregos para designar uma realidade diferente relacionada com o tempo é a palavra "kayrós". Cairós é o tempo vivido intensamente, pleno de experiências e de significados. É o tempo medido não pelas marcas do envelhecimento no nosso corpo, mas pela intensidade e pela capacidade que algumas experiências têm de marcar indelevelmente a nossa vida. Cairós é o tempo da paixão para os amantes e o tempo da conversão para os santos, quando o recalcitrante cai em si e desperta para a graça e misericórdia que o envolvem. Cairós é o tempo da revelação, da transfiguração do olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses momentos são os que verdadeiramente contam. Eles são as âncoras da nossa vida. Nos momentos de crise, revisitamos esses momentos e as pessoas que tomaram parte neles. Não para nos determos num passado que não mais retorna e nos fecharmos às possibilidades do presente, mas para reafirmarmos a nós mesmos o sentido último e radical da nossa existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contradição entre cronos e cairós é que, para vivermos o cairós, é necessário esquecermos cronos, perdermos tempo. Perder tempo em sentar-se para ver o pôr-do-sol, para poder ler os traços no rosto anônimo no meio da multidão, para prestar atenção à música que sorrateiramente chega aos nossos ouvidos. O cairós somente se entrega àqueles cessam a correria diária para poderem perceber, bem ao seu lado, a graça e a bondade de Deus presentes em toda a realidade ao seu redor, ainda que veladas pela dor, injustiças e sofrimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cronos e cairós são as duas faces de uma mesma realidade. Se cronos é o sol que caminha pelo céu, marcando a nossa luta quotidiana pelo pão, cairós é esse mesmo sol que, ao fim do dia, nos recorda que não somente de pão vive o homem e a mulher, mas também de sonhos, de utopias e de desejos. Se quiser confirmar, basta sentar-se em frente à baía de Inhambane.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-7303785058747691451?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/7303785058747691451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/entre-o-instante-e-eternidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7303785058747691451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7303785058747691451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/entre-o-instante-e-eternidade.html' title='ENTRE O INSTANTE E A ETERNIDADE'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcgamjhLtI/AAAAAAAAAZc/QXmrxBO-D5M/s72-c/instanteeternidade.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-862760440438561251</id><published>2009-04-19T23:38:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T09:04:52.800-02:00</updated><title type='text'>O ALTAR DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRchTKn2OuI/AAAAAAAAAZg/5l4_dVmyyK0/s1600/altarmundo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRchTKn2OuI/AAAAAAAAAZg/5l4_dVmyyK0/s1600/altarmundo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=97" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Vila da Namaacha é um pequeno lugarejo ao sul de Moçambique, região montanhosa situada entre a África do Sul e o pequeno reino da Suazilândia, o país dos Suázis, uma monarquia onde o rei escolhe, a cada ano, numa concorrida cerimônia pública, uma esposa nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa vila há um santuário mariano dedicado a Nossa Senhora de Fátima, onde acontece uma grande peregrinação no mês de maio. Muitos peregrinos - a maioria jovens, mas também adultos e mesmo famílias inteiras - percorrem a pé os 70 km que separam a capital, Maputo, da Vila da Namaacha. Essa peregrinação, herança do recente passado colonial, foi interrompida durante a guerra civil em que o país esteve mergulhado, porque impossibilitava a circulação das pessoas, mesmo nas proximidades das principais cidades do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, bastou que a guerra terminasse, para que a peregrinação voltasse com maior força, certamente revigorada por todos aqueles que se dirigem ao santuário para agradecer a paz conquistada. Os peregrinos que se dirigem ao santuário a pé fazem-no principalmente durante a noite. Mas, é durante o dia que a região revela toda a beleza das suas montanhas, cobertas ora por uma relva rente ao solo, ora por uma vegetação semelhante à das savanas. No meio dessas montanhas existe um lugar, próximo da estrada, onde, de costas para a mesma, é possível vislumbrar um vasto horizonte e contemplar diante de nós as montanhas da África do Sul e, um pouco à esquerda, as montanhas da Suazilândia. É esse o lugar onde, sempre que possível, eu celebro a minha "missa no altar do mundo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A missa no altar do mundo" é um dos escritos místicos mais belos do padre francês Pierre Teilhard de Chardin, falecido em 1955. Padre Chardin foi um geopaleontólogo e sacerdote jesuíta que logrou construir uma visão integradora entre a ciência e a teologia. Disposto a desfazer o mal-entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser malvisto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi ameaçado de excomunhão, proibido de publicar suas obras e submetido a um quase exílio na China.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1923, numa de suas expedições arqueológicas ao deserto de Ordos, na China, quando o Pe. Chardin se encontrava impossibilitado de celebrar a Eucaristia por não ter pão, nem vinho com que a celebrar, ele escreveu "A missa no altar do mundo", em que, em comunhão com toda a humanidade e com toda a matéria presente no universo, ele convocava essa mesma matéria para se tornar transparente à presença eucarística de Cristo (era a Festa da Transfiguração). Ele iniciava dizendo: "Visto que, uma vez mais, Senhor, já não nas florestas do Aisne, mas nas estepes da Ásia, não tenho nem pão, nem vinho, nem altar, elevar-me-ei acima dos símbolos até à pura majestade do real, e oferecer-vos-ei, eu, Vosso sacerdote, no altar da Terra inteira, o trabalho e a dor do Mundo." E segue-se, então, o desenrolar daquela liturgia mística: "Colocarei na minha patena, ó meu Deus, a colheita esperada deste novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que serão hoje esmagados. O meu cálice e a minha patena são as funduras de uma alma largamente aberta a todas as forças que, dentro de um instante, se elevarão de todos os pontos do Globo e convergirão a caminho do Espírito. - Venham, pois, a mim a recordação e a presença mística daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.......&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vocação e por opção, não sou sacerdote. Entretanto, isso não significa que eu tenha renunciado à dimensão sacerdotal da minha vocação, comum a todos nós, batizados. Pelo contrário. Trata-se antes de descobrir e viver toda a riqueza do sacramento da Eucaristia, celebrada quotidianamente pelos ministros ordenados. Entender e viver a dimensão sacerdotal do nosso batismo é uma via de mão dupla. Se, por um lado, somos alimentados tanto pelo sacramento quanto pelo testemunho dos ministros ordenados, por outro lado, também eles saberão enriquecer-se com o testemunho maduro dos demais fiéis que os ajudam a viver o seu ministério sacerdotal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pe. Chardin é uma das pessoas que me ajudam a compreender e viver o meu sacerdócio comum dos batizados. A Carta aos Hebreus é um outro ponto de referência importante para todos nós. O nosso altar e a matéria do nosso sacrifício são diferentes, pelo menos aparentemente, daquela dos ministros ordenados. O nosso altar, como na liturgia do Pe. Chardin, é o mundo inteiro, todos os lugares onde haja o esforço humano para criar um mundo melhor, para erradicar as doenças, para plantar a paz. A matéria do nosso sacrifício não são apenas o pão e o vinho. É a pedra talhada de onde emerge a Pietá. São os números e as relações de onde emerge toda a elegância do universo físico. É a terra, mãe generosa que nos dá sustento. São as notas musicais irmanadas para resultarem no Messias, de Handel. Na verdade, pão e vinho são mais do que mera comida e bebida. São, antes de mais nada, trabalho, esforço, transformação e ação humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito se fala sobre a dimensão fraterna da eucaristia, sobre a dimensão de denúncia contra as injustiças que ela traz em seu bojo, que o fruto da eucaristia deveria ser a partilha dos bens, que as nossas missas deveriam desmascarar os novos rostos da idolatria. Tudo isso é, certamente, verdadeiro. Mas, em se tratando da eucaristia, é pouco. E uma verdade não menos importante que o sacramento da eucaristia nos revela é que, pela ação humana no mundo, a matéria e as relações são santificadas, ou, antes, tornam-se transparentes à santificação definitiva do mundo já operada pela encarnação de Jesus. Alguém já afirmou: quem não tem para com o pão quotidiano a mesma reverência prestada ao pão eucarístico, ainda não entendeu suficientemente o sentido da encarnação de Jesus. Há também, é claro, a dimensão da comunhão presente na eucaristia. Desde a comunhão mais visível - comungamos todos o mesmo e único pão eucarístico - até a comunhão definitiva com a mãe terra, quando essa, generosamente, nos abraça e envolve em seus braços, passando pela comunhão com todas as pessoas e criaturas ao nosso redor. Do alto das montanhas da Namaacha, sozinho, com o sol se pondo no horizonte, feito imensa hóstia de fogo e luz, as palavras do Pe. Chardin ganham vida e a comunhão torna-se realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você, amigo e amiga que me lêem, já devem ter se encontrado com um sacerdote que marcou a sua caminhada. Eu já encontrei mais do que um. Mas, hoje, escrevo por causa de um em particular, que completa 25 anos de sacerdócio. Nesses 25 anos de exercício do seu sacerdócio ministerial, tenho certeza de que o mundo se tornou mais transparente àquela bondade simples, gratuita e despretensiosa do nosso Deus. Ainda que as sombras interiores e exteriores afirmem o contrário, é a essa certeza - a bondade simples e despretensiosa do nosso Deus - que, com serenidade, eu me agarro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-862760440438561251?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/862760440438561251/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-altar-do-mundo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/862760440438561251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/862760440438561251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-altar-do-mundo.html' title='O ALTAR DO MUNDO'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRchTKn2OuI/AAAAAAAAAZg/5l4_dVmyyK0/s72-c/altarmundo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-615058097994854639</id><published>2009-04-19T23:37:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T09:07:34.824-02:00</updated><title type='text'>O BEIJO DERRADEIRO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRch6om2OLI/AAAAAAAAAZk/RTBwheDKFyU/s1600/beijo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRch6om2OLI/AAAAAAAAAZk/RTBwheDKFyU/s1600/beijo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=98" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cada morte é uma inexperiência única. Depois de passar uma, duas, três vezes pela experiência de ver partir pessoas que amamos, acreditamos que, na próxima vez, estaremos melhor preparados. Triste ilusão. A irmã morte mostra sua face no rosto de mais uma pessoa que amamos e nos descobrimos tão inexperientes e despreparados neste assunto como da primeira vez, talvez até pior. É que, se as pessoas são únicas, também é único o amor que devotamos a cada uma delas e também é única a dor que advém nesses momentos. Mas, lá estão a mesma sensação de palavras de ternura não ditas atravessadas na garganta e a vertigem do vazio momentâneo que se cria no nosso interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma outra realidade marca com maior força a existência humana que a morte. É certo que a morte, o fim da existência tal qual a conhecemos, marca toda a criação. A árvore colossal definha pouco a pouco, assiste a suas folhas misturarem-se ao solo para gerarem nova vida. As nuvens carregadas morrem no ar, desfazem-se em chuva sobre a terra, ora gerando vida, ora gerando mais mortes. Também o cosmos participa dessa implacável dinâmica de vida e morte. As estrelas e as galáxias, em um ritmo próprio à sua grandiosidade, formam-se, brilham, geram vida, consomem-se e morrem. Assim, toda a criação, e a humanidade como parte dela, torna-se solidária naquilo que lhe é comum: a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, não nos enganemos. O ser humano é o único a enfrentar sua existência com uma dupla característica: a consciência da própria morte e a crença em alguma forma, ora mais, ora menos sofisticada, de continuidade pós-morte. E se em meio à sociedade humana há tantas formas distintas e desiguais de viver, a morte, embora comum a todos, é vivida também de formas distintas. Há morte agonizante e morte serena; morte matada e morte morrida; morte afrontada e morte exorcizada. Há também morte de velhice e morte de SIDA, morte hospitalar assistida e asséptica e morte severina, tão bem descrita nos versos de João Cabral de Melo Neto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se somos Severinos&lt;br /&gt;iguais em tudo na vida,&lt;br /&gt;morremos de morte igual,&lt;br /&gt;mesma morte severina:&lt;br /&gt;que é a morte de que se morre&lt;br /&gt;de velhice antes dos trinta,&lt;br /&gt;de emboscada antes dos vinte,&lt;br /&gt;de fome um pouco por dia&lt;br /&gt;(de fraqueza e de doença&lt;br /&gt;é que a morte severina&lt;br /&gt;ataca em qualquer idade,&lt;br /&gt;e até gente não nascida)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como aceitar que as palavras do poeta fiquem mudas, que o abraço caloroso do filho nos pais se torne gélido e que os santos não mais nos recordem que somos continuamente visitados pela bondade de Deus? A visita inesperada da morte somente aguça essa sensação de perplexidade. É que a irmã morte costuma ser uma senhora temperamental. Com alguns, ela trava um demorado diálogo. Para outros, entretanto, ela apenas oferece o seu apressado beijo na face e o seu curto imperativo: vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já deveria estar um pouco mais amigado com a morte, com a minha própria e com a dos outros. Aqui em Moçambique, a morte parece ser o pão-nosso de cada dia, é o arroz com feijão dos brasileiros: duas vezes por dia, de domingo a domingo. À medida que vamos nos adentrando no dia-a-dia deste povo, damo-nos conta desta triste realidade. Recordo-me dos meus primeiros dias de recém-chegado à Beira. Da varanda da nossa casa, vi passar um cortejo de carros apinhados de pessoas amontoadas umas sobre as outras, todas a cantar, na língua local, um canto com melodia em forma de lamento. Era um funeral. Foi o primeiro de tantos outros que continuam a se suceder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É triste notar a facilidade com que se morre aqui. Fora daqui morre-se de cancro, de enfarto, de acidente, de velhice. Aqui, morre-se por morrer. Jovens, pais, filhos, crianças, a morte colhe a todos indistintamente. No decurso natural da vida, os filhos enterram seus pais. Aqui, com freqüência, os pais enterram seus filhos. E existe tragédia maior na sociedade africana do que um pai enterrar um filho, onde o culto prestado pelos vivos aos seus antepassados assume um caráter central no meio dessa sociedade? A morte de um filho encerra a possibilidade de que o pai, após a sua morte, seja recordado pelos seus descendentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ponto, proponho uma estratégia para acolher com serenidade o beijo da irmã morte na nossa própria face, quando essa hora chegar - ou seja, deste momento em diante: antes que a irmã morte nos beije em nosso rosto, beijemos nós a face da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijar a vida significa amar todos aqueles que nos são confiados com toda a força do nosso entendimento e do nosso coração. Significa perceber o prenúncio da eternidade no pôr-do-sol da baía à nossa frente, sentir prazer em comer nos dias de festa e jejuar para serenar o irmão corpo no tempo oportuno. Beijar a vida significa a renúncia a perder o humor por causa de frivolidades. Para aqueles que amam a vida, o bom humor cede lugar à ira apenas quando ela se faz necessária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma vida que dá constantes sinais da sua fragilidade e brevidade (você já reparou nisso hoje?), não soa insensatez desperdiçarmos nossas energias e nosso humor com tantas frivolidades? Para os cristãos, de um modo especial, que têm consciência da grandiosidade da sua vocação e da sua meta - a própria vida em Deus - tudo o mais se torna relativo quando confrontado com Deus mesmo e com tudo aquilo que, verdadeiramente, coloca resistência ao pleno desabrochamento do Reino em nosso meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quebram-se os vidros do vitral. Mas, em nossa memória e em nosso coração, permanecerão as imagens coloridas e únicas que conseguiram traduzir de maneira harmoniosa tudo aquilo que se diz de bom a respeito de Deus: &lt;i&gt;"...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." *&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;*  Miguel Sousa Tavares (Escritor português, a propósito da perda de sua Mãe, a escritora e poetisa Sophia de Mello-Breyner)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-615058097994854639?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/615058097994854639/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-beijo-derradeiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/615058097994854639'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/615058097994854639'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/o-beijo-derradeiro.html' title='O BEIJO DERRADEIRO'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRch6om2OLI/AAAAAAAAAZk/RTBwheDKFyU/s72-c/beijo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1990752607011356302</id><published>2009-04-19T23:36:00.002-03:00</published><updated>2010-12-26T09:28:33.367-02:00</updated><title type='text'>VOCÊ TEM MEDO DA SOLIDÃO?</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcm0tOxvUI/AAAAAAAAAZo/ZKRcud1AyEk/s1600/solidao.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcm0tOxvUI/AAAAAAAAAZo/ZKRcud1AyEk/s1600/solidao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=99" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não tenho do que me queixar. A vida tem sido generosa para comigo no que se refere à presença de pessoas que são verdadeiros dons de Deus na minha vida. Desde o âmbito familiar, passando pelo ambiente das escolas e da universidade, na Igreja, na Ordem Franciscana à qual eu pertenço, tenho sido constantemente presenteado com a presença de pessoas que tornam a vida mais leve, mais bem-humorada e mais saudável. Mais humana, enfim. Afinal, existe coisa mais desumana do que o sentimento e a consciência de abandono a que muitas pessoas são submetidas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre todos esses companheiros e companheiras, no entanto, há uma que sempre está por perto. É uma presença discreta e silenciosa. Mas, é quem está próxima nos momentos mais difíceis. Nos momentos de tomadas de decisões importantes, ela está ao meu lado para o que der e vier. Ela não emite palpite algum, apenas me apóia discretamente. Quando a vida me faz passar por situações de perda, seja de pessoas que aprendi a amar, seja de pedaços da minha personalidade que foi necessário abandonar, é ela quem me consola. Naqueles momentos únicos da nossa vida, em que os nossos olhos se abrem para a bondade de Deus, presente no nosso meio, tudo o que desejamos é ter junto de nós as pessoas que amamos, para partilhar com elas esse momento, ela é a única presença por perto. Essa presença amiga… é a solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil falar sobre a solidão. Mais difícil ainda é entender o que a ela diz respeito. É que a solidão é muito mal compreendida. No nosso mundo atual, com as pessoas concentradas nas grandes cidades, ligadas umas às outras através dos modernos meios de comunicação como a telefonia móvel ou a Internet, mais difícil ainda é compreendê-la. Como não a compreendemos, exorcizamo-la, afastamo-la com mil artifícios: música alta, telefonemas a meio da noite, busca contínua da presença de pessoas. Até mesmo, reparem bem, as pessoas casadas, que parecem ter encontrado um remédio para a sua própria solidão (como se a solidão de um mal se tratasse). Em alguns momentos vão poder perceber, bem no meio do leito conjugal, a solidão de um e do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a solidão é essa presença constante, não nos resta outra coisa senão fazermos as pazes com ela e descobrirmos como esse relacionamento pode ser frutuoso. É o que parece ter descoberto Alberto Caeiro, que confessava encontrar na sua própria solidão a razão dos seus versos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho ambições nem desejos.&lt;br /&gt;Ser poeta não é uma ambição minha.&lt;br /&gt;É a minha maneira de estar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém já me afirmou certa vez: precisamos aprender a conviver com a solidão, sem, entretanto, nos tornarmos solitários. Mas, onde reside a linha divisória entre uma e outra realidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão é, antes de mais nada, um estado de espírito, mais do que o isolamento da própria pessoa. Posso viver rodeado de pessoas queridas e, no entanto, posso cultivar a minha própria solidão. Em alguns momentos da nossa vida, a solidão impõe-se quase como uma necessidade. Ela torna-se a condição necessária para colocarmos em  ordem os nossos juízos, afetos e sentimentos. Por isso, quem não aprende a cultivá-la, dificilmente consegue encontrar-se consigo mesmo. E, quem for incapaz de se encontrar em profundidade com a sua própria realidade humana, com o seu emaranhado de limites, altruísmos, desejos, pulsões de vida e de morte, dificilmente vai ser capaz de se encontrar em profundidade com as pessoas que povoam o seu próprio quotidiano. Os encontros tornam-se superficiais e banais: uma noite de sexo entre marido e mulher, um copo de cerveja com uns amigos, uma noite de festa e de dança e, nada mais… Quando tudo isso se poderia converter em algo mais, graças à intensidade de busca que a solidão provoca em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa solitária, entretanto, isola-se a si mesma do convívio das demais pessoas. Vive num mundo à parte, o mundo das suas leituras, do seu trabalho e dos seus hábitos. A solidão educa-nos para vivermos com intensidade os nossos encontros quotidianos. O solitário evita tais encontros e presenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Evangelhos narram que, com freqüência, Jesus se afastava da multidão e mesmo dos seus discípulos para orar. No nosso imaginário religioso, é fácil vê-lo ajoelhado a recitar o Pai-Nosso, ou o Shemá, a oração e profissão de fé judaica. Mais difícil é percebermos que foram nesses momentos, quando Jesus se entregava à solidão da sua oração, que ele aprendeu a discernir o rosto paterno-materno de Deus e em quem Ele encontrava a força e o sentido da sua missão. Na solidão da sua oração, Jesus descansava no Pai. A experiência do Pai, entretanto, não o deixava descansar, e Jesus retornava à sua missão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primórdios do cristianismo, houve gerações de cristãos que se dirigiram para as regiões afastadas dos centros urbanos, para aí se entregarem, na solidão dos lugares ermos, à prática de uma espiritualidade que unia, de uma maneira muito profunda, o autoconhecimento da própria natureza humana e a experiência de Deus. Eles legaram-nos uma sabedoria preciosa, principalmente através de "apotegmas", isto é, breves sentenças, utilizadas para instruir os seus discípulos no caminho da espiritualidade do deserto. O estilo de vida de muitos desses eremitas do deserto atravessou séculos e permanece vivo ainda hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão vivida nos eremitérios era um dos centros da vida franciscana. Francisco de Assis passava longos períodos em eremitérios espalhados pela região da Úmbria. Ele chegou mesmo a escrever uma pequena regra de vida para os irmãos que fossem viver nos eremitérios: deveriam ser quatro frades que se revezariam no papel de Marta e de Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar as pessoas como elas são e olhar com misericórdia todos aqueles que de nós se aproximam: eis o grande desafio da nossa vida. Somente será capaz de tal feito quem for capaz de se aceitar a si mesmo naquilo que se é e souber usar de misericórdia para consigo mesmo. A condição para esse aprendizado e essa reeducação do olhar é a solidão, por meio da qual podemos perceber a nossa própria realidade. A partir desse ponto, é possível fazer algo mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, por causa da inevitabilidade da solidão e por causa do bem que ela pode operar em nós, é que eu aconselho: faça as pazes com ela. Você vai perceber que ela é uma grande companheira.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1990752607011356302?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1990752607011356302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/voce-tem-medo-da-solidao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1990752607011356302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1990752607011356302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/voce-tem-medo-da-solidao.html' title='VOCÊ TEM MEDO DA SOLIDÃO?'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRcm0tOxvUI/AAAAAAAAAZo/ZKRcud1AyEk/s72-c/solidao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-1466882939908140325</id><published>2009-04-19T23:34:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T12:50:10.264-02:00</updated><title type='text'>EU, A VIOLA E DEUS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdWDhRJt9I/AAAAAAAAAZs/s4LDlWF52Ww/s1600/acidia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdWDhRJt9I/AAAAAAAAAZs/s4LDlWF52Ww/s1600/acidia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=100" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;Senhor, a noite veio e a alma é vil.&lt;br /&gt;Tanta foi a tormenta e a vontade!&lt;br /&gt;Restam-nos hoje, no silêncio hostil,&lt;br /&gt;O mar universal e a saudade.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;(Prece - Fernando Pessoa)&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A solidão, novamente. Em meio à festa e ao riso, ela chega sorrateira, despretensiosa. Não pede licença: instala-se. Em alguns momentos, é companheira de caminhada. Noutros, é inquilina indesejada. Num e noutro caso, somos convidados a cessar o nosso canto e a obedecer o toque de recolher que chega junto com a noite: mais sós para sermos mais nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algumas situações, ela vem acompanhada de um mal-estar difuso, uma impaciência em relação a tudo e a todos, apatia. Sem motivos aparentes, os outros convertem-se em verdadeiros estorvos, motivando-nos a nos retrairmos mais e mais. Os limites alheios tornam-se cada vez mais insuportáveis. As amizades? Decepções. Momentos de pura graça vividos? Passado. A alegria e o riso? Retratos guardados na gaveta. No ar, fica a sensação de podermos contar apenas com nós mesmos. Quem está próximo a nós percebe a mudança. Eles bem que tentam ajudar. Mas, não há ajuda possível: somos apenas eu, a viola e Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ponto, corremos o risco de nos enganarmos na identificação da verdadeira raiz do problema. Não se trata tanto de retraimento causado pela convivência com os limites alheios, mas da incapacidade em sabermos lidar com esses mesmos limites, manifestados de maneiras diferentes, na nossa própria personalidade. Neste momento, a solidão pode ser o espaço necessário de aprendizado de convivência com nossos limites e, mais importante, de aprendizado de superação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saber conviver com a solidão não é tarefa fácil. Não é lição que se aprenda numa única manhã. É que a solidão é o palco de uma luta surda contra nossa própria natureza e contra Deus. Afinal, Ele é o primeiro a sair de cena, o primeiro a calar a sua voz. Nem mesmo n'Ele conseguimos encontrar a consolação e a presença desejadas. Juvenis no trato com Deus, esperneamos, gritamos, reclamamos atenção, amaldiçoamos. Em vão. Do outro lado, apenas o silêncio. Os sábios dizem que a sabedoria está em não lutar ou violentar a própria natureza, afinal, quer queiramos ou não, somos continuamente carregados pela bondade silenciosa de Deus. A sabedoria, entretanto, é prato que se sorve somente após longos anos de caminhada, não é prato que possa ser saboreado pelos neófitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempos difíceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;……..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os escritos de Francisco de Assis, há uma pequena carta que, talvez, seja a mais reveladora do espírito, da cordialidade e da psicologia do santo de Assis. A carta é a resposta de Francisco a uma interpelação de um dos ministros da Ordem naquela altura. O contexto em que a carta foi escrita pode ser facilmente apreendido pela carta do próprio Francisco. Um dos ministros da Ordem vê-se profundamente aborrecido pelos problemas provocados pelos seus próprios confrades e, também, por pessoas de fora dos conventos, que lhe causavam inúmeros transtornos. Diante de tais transtornos e aborrecimentos, o referido ministro deseja tão-somente afastar-se da convivência com os seus irmãos e permanecer isolado em silêncio e oração num dos vários eremitérios da Ordem. Aparentemente, nada mais louvável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta de Francisco a esse ministro, entretanto, vai numa direção oposta: "O melhor que te posso dizer em relação às dificuldades de tua alma é isto: Considera como uma graça tudo quanto dificultar o teu amor a Deus nosso Senhor, bem como as pessoas que te causam aborrecimentos, sejam irmãos ou gente de fora, mesmo que cheguem a te fazer violência." Continuando na mesma linha, Francisco exorta: "Ama aos que assim contra ti procedem, não exigindo deles outra coisa senão o que o Senhor Jesus te der. E justamente nisso deves amá-los, nem mesmo desejando que eles se tornem cristãos melhores."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que amam conseguem entender o sentido profundo dessas palavras. No amor, sempre há transformação. O aprendizado do amor gratuito deixa marcas, molda o nosso olhar, transforma a nossa percepção da vida. Mas, é uma transformação natural, motivada pelo próprio ato de amarmos. Não amo aqueles que amo para que eles se tornem melhores ou mais semelhantes a mim, como é comum em muitos relacionamentos. Amo-os naquilo que são, nos seus limites e nas suas falhas. Esse amor desinteressado e gratuito, entretanto, não fecha os olhos aos limites do outro, da mesma forma que não nos deixa arredios diante das correções do outro feitas a nós. O amor verdadeiro cria o espaço de confiança onde as transformações são possíveis. O que Francisco pede ao seu irmão ministro é que ele exercite esse mesmo amor com as pessoas que ele ainda não consegue amar, nem mesmo minimamente, na esperança de que, de uma maneira natural, esse amor ajude a transformar o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante dessa maneira de proceder e amar, Francisco conclui: "E isso te valha mais do que a vida em eremitério". Os eremitérios franciscanos, encravados nas rochas e montanhas da Itália, foram berços de grandes santos na Ordem Franciscana. Quando Francisco dizia que enfrentar as dificuldades da convivência fraterna era mais válido que a santificação no silêncio e mortificação dos eremitérios, ele sabia do que falava, pois ele mesmo passava longos períodos durante o ano em retiro nos eremitérios espalhados pela região da Úmbria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, finalmente, numa cordialidade e ternura que comove a todos quanto lêem esta carta, ele diz: "Não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a não poder mais, que, após ver os teus olhos, se sinta talvez obrigado a sair de tua presença sem obter misericórdia se misericórdia buscou. E se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se não na quer receber. E se depois disto ele se apresentar ainda mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, procurando conquistá-lo para o Senhor."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;……..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser seguidor de Francisco de Assis significa enfrentar o desafio de conviver e amar pessoas diferentes (muito diferentes…) de si próprio. Não é uma tarefa fácil (não tem sido desde o início, como bem demonstra a carta de Francisco). Entre as pessoas reunidas por Jesus à sua volta, havia um zelote e um cobrador de impostos. Alguém que conheça o ambiente e a cultura judaica daquele tempo consegue imaginar uma combinação mais explosiva? Entretanto, eles conseguiram renunciar às suas diferenças em nome de algo maior. E é essa busca de um amor fraterno radical que nos marca como franciscanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho trinta e cinco anos de idade. Em Divinópolis, tenho um irmão de noventa e oito anos. Ele tem a idade para ser o meu avô. Mas, não é o meu avô. É o meu irmão mais velho. Tenho, também, outros irmãos que já têm cabelos brancos, da mesma idade do meu pai e da minha mãe. Com meus pais, experiencio um amor e um respeito paterno e materno próprios. Com os meus irmãos de cabelos brancos, vivo relações horizontais de comunhão fraterna. É esse o lado saudável da vida franciscana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lado sombrio da nossa vida manifesta-se quando, apoderando-nos da graça que, despretensiosamente, nos foi concedida e que nos faz ser o que somos, tornamo-nos arrogantes, impacientes e aborrecidos com os outros à nossa volta. Nessas circunstâncias, desejamos tão simplesmente distância de tudo e de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tivermos aprendido, minimamente, a amar e a sermos misericordiosos como Francisco propõe na sua carta, a solidão dos eremitérios ou das estradas encontrará o seu sentido e a sua razão: a solidão se torna sinônimo de comunhão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;Mas a chama, que a vida em nós criou,&lt;br /&gt;Se ainda há vida ainda não é finda.&lt;br /&gt;O frio morto em cinzas a ocultou:&lt;br /&gt;A mão do vento pode erguê-la ainda.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;(Prece - Fernando Pessoa)&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-1466882939908140325?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/1466882939908140325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/eu-viola-e-deus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1466882939908140325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/1466882939908140325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/eu-viola-e-deus.html' title='EU, A VIOLA E DEUS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdWDhRJt9I/AAAAAAAAAZs/s4LDlWF52Ww/s72-c/acidia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-7979991701347736652</id><published>2009-04-19T23:32:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T12:54:35.434-02:00</updated><title type='text'>A FILHA DE SATÃ</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdXFvmdltI/AAAAAAAAAZw/oNnv0tjEdwg/s1600/acidia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdXFvmdltI/AAAAAAAAAZw/oNnv0tjEdwg/s1600/acidia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=101" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há tristezas e tristezas. Na sua frase célebre, Leo Tolstoy já afirmava que "as famílias felizes são todas iguais, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". O que vale para o conjunto da família vale, também, para a individualidade dos seus membros: cada infeliz é infeliz à sua maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é sobre a infelicidade que desejo falar. A infelicidade é um processo que se constrói e se aprofunda ao longo da vida das pessoas, fruto de acontecimentos alheios à própria vida ou fruto das conseqüências de decisões tomadas. A tristeza, entretanto, é diferente da infelicidade. Se a infelicidade é o quadro pintado com cores sombrias que retrata a vida dos infelizes, a tristeza é apenas uma das tintas - talvez a mais carregada - usadas nesse quadro. A mesma tinta da tristeza pode dar forma a outros quadros que não são, necessariamente, os da infelicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há a tristeza de luto, aquela causada quando um pedaço de nós - pai, mãe, filho, marido, esposa, irmão, amigo - lentamente ou abruptamente, é arrancado do nosso peito. Quanto mais abrupta for essa ruptura e quanto menos tempo tivermos tido para nos prepararmos para ela, maior a nossa tristeza e perplexidade. Na garganta, fica a pergunta atravessada: por quê? Buscamos uma resposta como quem busca um cicatrizante capaz de estancar a tristeza que arde em nós. Busca inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há a tristeza pacífica dos poetas. O pastor de palavras Alberto Caeiro já dizia a respeito da sua própria tristeza:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a minha tristeza é sossego&lt;br /&gt;Porque é natural e justa&lt;br /&gt;E é o que deve estar na alma&lt;br /&gt;Quando já pensa que existe&lt;br /&gt;E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tristeza dos poetas, há sempre um pouco de saudade. Por isso, eles cantam. Música é feitiço, é mantra que se canta para sossegar a alma triste. É por isso que Angelino de Oliveira cantava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes versos tão singelos&lt;br /&gt;Minha bela, meu amor&lt;br /&gt;Pra você quero cantar&lt;br /&gt;O meu sofrer, a minha dor&lt;br /&gt;Eu sou como o sabiá&lt;br /&gt;Que quando canta é só tristeza&lt;br /&gt;Desde o galho onde ele está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, também, a tristeza provocada pelas doenças da nossa personalidade. A maior parte das pessoas tem um conceito muito superficial de doença. Para elas, doença é apenas o intestino que não funciona bem, o coração que não bate direito ou a cabeça que dói. Mas, as doenças da nossa personalidade são mais comuns do que imaginamos. Todos nós, em menor ou menor grau, sofremos dessa doença, de um certo desajuste psíquico, de pequenas neuroses quotidianas. As pessoas que têm nos seus desajustes psíquicos a causa da sua tristeza devem ser curadas da mesma forma como se cura uma doença crônica: com um tratamento persistente, com a ajuda de especialistas, que tentam ajudar o paciente a encontrar as raízes da sua tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, por fim, uma outra forma de tristeza: aquela que se instala em nós quando amaldiçoamos, duvidamos, desprezamos e nos ensoberbecemos diante dos outros. É a tristeza que advém da desesperança diante dos outros e de nós mesmos, quando duvidamos da graça divina que permeia todas as realidades à nossa volta. É uma mistura de tristeza e tédio, uma confusão momentânea dos sentimentos que nos paralisa. O desassossegado Bernardo Soares já dizia: "Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconseqüências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É essa tristeza, a filha de Satã, a quem abrimos as portas da nossa alma todas as vezes que pecamos e nos damos conta dessa realidade. Os antigos cunharam um termo muito preciso para falar desse tipo de tristeza: acídia, um dos sete pecados capitais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A acídia é uma velha conhecida do cristianismo. Um dos textos do cristianismo primitivo que chegaram até nós, "O Pastor de Hermas", escrito por volta do ano 140, já advertia com gravidade: "Afasta, pois, de ti a tristeza (…) Não vês que a tristeza é o mais iníquo de todos os espíritos; o mais temível para os servos de Deus dentre todos os espíritos: Ela arruína o homem, contristece o espírito santo e volta a salvar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, é sobretudo com os Padres do Deserto que a acídia será dissecada em todo o seu dinamismo interno e nas suas conseqüências para aqueles que se vêem abatidos por tal mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir do ano 300, um grande número de cristãos – a maior parte homens, mas, também, mulheres – se entregaram a uma vida solitária nos lugares desérticos e ermos das regiões onde hoje se localizam o norte do Egito, Israel, Síria e Líbano. Ficaram conhecidos como Padres e Madres do Deserto - pais e mães da fé dos primeiros cristãos. A vida monástica surgida, primeiramente no oriente, e, em seguida, no ocidente, com São Bento, tem nesses padres do deserto as suas raízes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses eremitas travaram uma batalha heróica nos seus eremitérios pelo conhecimento e pelo domínio das suas próprias paixões. As paixões e os sentimentos descontrolados eram encarados como verdadeiros demônios, no sentido de roubarem a inteireza do eremita, impedindo-o de estar totalmente presente na sua ação quotidiana, seja o trabalho manual ou a oração. Verdadeiros conhecedores e terapeutas da alma e das paixões humanas, eles nos deixaram um rico legado no que diz respeito ao conhecimento dos vícios de que são acometidos todos os que se colocam no caminho de Deus. A acídia é um dos temas recorrentes nos escritos desses santos dos desertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles já nos advertiam sobre um dos perigos da acídia: a fuga do momento presente. Para os que são afetados desse mal, o futuro incerto ou o passado irremediavelmente perdido são sempre uma moradia melhor para nos recolhermos do que o momento presente. Somos acometidos por uma inquietação interior que nos impede de saborearmos e vivermos com intensidade o momento presente. Ficamos divididos, perdemos a nossa inteireza. Traçamos planos de um futuro próximo melhor, longe dos problemas e aborrecimentos atuais. Revisitamos os momentos passados, as lembranças aconchegantes, na esperança vã de recriarmos esse ambiente no momento presente. A acídia nos cega para qualquer traço de caridade presente nas pessoas com quem convivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um momento difícil de ser superado. Como a AIDS, que corrompe o elemento do nosso organismo capaz de reagir contra as enfermidades, a acídia ataca-nos justamente na nossa capacidade e desejo de reagirmos contra essa indisposição da alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezessete séculos nos separam desses heróis do deserto. Mas, quando conseguimos transpor a barreira cultural que nos separa deles e estabelecemos aquela comunhão vital com o texto que temos em mãos, constatamos, mais uma vez, o óbvio: em se tratando da natureza humana, não há nada de novo sob o sol.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-7979991701347736652?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/7979991701347736652/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/filha-de-sata.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7979991701347736652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7979991701347736652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/filha-de-sata.html' title='A FILHA DE SATÃ'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdXFvmdltI/AAAAAAAAAZw/oNnv0tjEdwg/s72-c/acidia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-8209525633573420160</id><published>2009-04-19T23:29:00.002-03:00</published><updated>2009-04-20T06:52:59.935-03:00</updated><title type='text'>JESUS CARITAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=102" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SevlM7jn5KI/AAAAAAAAALc/Tuif8OYSeig/s1600-h/Foulcaudl.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 294px; FLOAT: left; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5326602994604041378" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SevlM7jn5KI/AAAAAAAAALc/Tuif8OYSeig/s320/Foulcaudl.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;«Jesus Caritas»: com essa afirmação singela e profunda, resumo da sua própria vida, Charles de Foucauld assinava as suas cartas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No filme «Agnes de Deus», ambientado em um mosteiro feminino no Canadá, a abadessa do mosteiro desabafa com a psicóloga interpretada por Jane Fonda: “Nos nossos dias, há muitas pessoas boas no mundo. Entretanto, pessoas excepcionalmente boas…” As reticências da abadessa deixavam transparecer uma nostalgia e um desejo de presença de pessoas excepcionalmente boas no nosso meio: os santos. Nós, que vivemos neste tempo conturbado, temos necessidade, mais do que nunca, de pessoas que, com a sua vida, nos mostrem o caminho a seguir, que sejam como luz na noite escura do mundo e que despertem em nós a saudade da casa paterna-materna de Deus. Charles de Foucauld ou, simplesmente, o Irmãozinho Carlos, é uma dessas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio a tantos outros testemunhos de santidade, a vida do Irmãozinho Carlos deve ser colocada ao lado de figuras do porte de Francisco de Assis ou Madre Teresa de Calcutá: pessoas que levaram o seu testemunho cristão e a sua comunhão com Deus a um grau muito acima da média dos demais santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido numa rica família francesa em 1858, o Irmão Carlos atravessou uma vida inquieta e desregrada enquanto fez parte do exército francês. A sua vida começou a mudar quando empreendeu expedições exploratórias clandestinas pelo deserto do Marrocos. O deserto e o contato com a fé dos muçulmanos foram o início de um caminho de busca interior que o levaram a tornar-se monge trapista, uma das ordens monásticas mais austeras da Igreja. Mas, mesmo a austeridade do Mosteiro Trapista na Síria não foi suficiente para domar o fogo que ardia no coração do Irmão Carlos. Desejando seguir os mesmos passos de Jesus, ele deixou o Mosteiro Trapista em direção a Nazaré, o lugar onde Jesus viveu com seus pais a sua infância e a sua preparação para a sua missão. Pouco tempo depois, querendo ocupar o penúltimo lugar no meio dos homens – impossível desejar o último lugar, ocupado definitivamente por Jesus –, regressou ao deserto argelino em 1901 e foi viver no meio dos Tuaregues, tribo de nômades do deserto. No meio desse povo, o Irmão Carlos viveu até ser assassinado, em um ataque no ano de 1916.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante todo o seu tempo de solidão no deserto, o Irmão Carlos fez planos para uma vida comunitária com outros companheiros que desejassem viver o mesmo ideal de oração silenciosa, de adoração eucarística e presença fraterna no meio dos muçulmanos no deserto. Esses irmãos tão desejados e esperados pelo Irmão Carlos, entretanto, jamais chegaram. Com a sua morte, a sua vida parece ter sido um imenso fracasso: morreu solitário, sem fazer conversões no meio dos muçulmanos e sem ver nascer o projeto de criar uma fraternidade de oração no deserto. Como alguém já disse, o sucesso não é um dos nomes de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pequeno milagre, entretanto, começou a acontecer depois da sua morte: os seus escritos espirituais foram publicados na França e um pequeno grupo de jovens começou a se reunir em torno da sua espiritualidade. Esse pequeno grupo regressou ao deserto e, nos mesmos eremitérios erguidos pelo Irmãozinho Carlos, deram início, postumamente, à fraternidade de oração tão desejada por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último capítulo dessa «legenda» aconteceu quando os seguidores do Irmão Carlos, depois de discernirem a sua intuição fundamental – ser uma presença fraterna no meio das pessoas e grupos mais esquecidos, serem os últimos no meio dos últimos –, deixaram os eremitérios na Argélia e se espalharam pelo mundo, levando uma vida de contemplação silenciosa nos lugares mais improváveis para uma ordem de vocação contemplativa: na Favela da Mangueira, no Rio de Janeiro, no meio dos pescadores e ciganos, dentro de presídios, nas estradas junto com os peregrinos, no meio dos grupos empobrecidos dos países dos hemisférios norte e sul. Junto com essas pessoas com quem convivem, levam o mesmo estilo de vida: no trabalho assalariado nas fábricas, na moradia, nas alegrias e nas dores dos empobrecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos nos perguntar o que uma ordem religiosa, nascida no meio da solidão e da austeridade do deserto há cem anos, pode trazer de luz para nós hoje, filhos da tecnologia, do barulho e da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira grande intuição do Irmão Carlos diz respeito ao mistério da Encarnação da Palavra de Deus no meio da humanidade: o Verbo se fez carne no seio de Maria, aprendeu a ganhar a vida como carpinteiro na oficina de José e veio habitar no meio de nós, numa obscura aldeia chamada Nazaré, perdida na periferia do Império Romano. Acostumados com os relatos dos grandes milagres e da pregação de Jesus, quase nos esquecemos dessa dimensão «oculta» da sua vida. Mas, se a morte de Jesus nos salva, é porque a sua morte foi conseqüência da sua vida, dos seus gestos e palavras, da sua revelação do verdadeiro rosto de Deus. Por isso, também a vida de Jesus nos salva. Não somente os três últimos anos da sua vida, mas toda a sua vida, desde o momento da sua Encarnação, passando pela sua vida oculta em Nazaré, é salvação. A grande lição de Nazaré trazida à tona com toda a força pela vida do Irmão Carlos é que a salvação acontece no quotidiano da nossa vida, na nossa labuta por pão, em meio aos pequenos gestos de fraternidade. E, não menos importante, a salvação principia lá onde ela parece não existir: no meio dos mais esquecidos e abandonados. Num mundo cada vez mais excludente, essa é uma grande luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda grande luz que a mística do Irmão Carlos traz para a nossa vida é fazer-nos lembrar que há em nós um arquétipo que não pode ser ignorado: o deserto. O arquétipo do deserto, que habita as profundezas do nosso inconsciente coletivo, é o que nos faz, vez por outra, ter saudades da solidão e do vazio. Essa não é uma nostalgia exclusiva dos místicos e dos solitários. Todos nós a temos em diferentes graus, da mesma forma que a abafamos de diferentes maneiras. Os arquétipos não têm fronteiras culturais: são uma herança comum dos seres humanos. Na superfície, podem assumir diferentes roupagens culturais e sociais. Mas, nas profundezas, é o único e mesmo rio subterrâneo que alimenta as fontes de água na superfície. Abafar essa aspiração do espírito humano pode ser fonte de sérios desajustes na nossa personalidade. Nas periferias dos centros urbanos ou em outras periferias do mundo, os irmãozinhos e as irmãzinhas seguidores da mística do Irmão Carlos nos fazem recordar a necessária reconciliação com o silêncio e com o vazio interior, para que se estabeleça a comunhão com o Sagrado que nos envolve e com as pessoas que nos rodeiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira grande luz que os irmãozinhos e irmãzinhas de Carlos de Foulcauld trazem para nós hoje, que vivemos num mundo de crescente violência, é fazer-nos lembrar da delicadeza e da cordialidade que Deus utiliza no seu diálogo conosco. Nisso, mais uma vez, o Irmão Carlos, do deserto em Tamanrasset, se assemelha ao Irmão Francisco, da cidadezinha de Assis. A vida de Francisco de Assis é marcada por gestos de cordialidade e de ternura para com todas as criaturas, homens e mulheres que com ele conviveram. Numa noite de rigoroso jejum em que ele e os seus primeiros companheiros dormiam amontoados num exíguo espaço, um dos frades acordou e manifestou a Francisco – aos gritos, dizem as fontes franciscanas – que ele estava a morrer de fome e que o jejum era, naquele momento, demasiado. Com um dos gestos de delicadeza que é a marca característica dos santos, Francisco acordou todos os demais irmãos, apanhou o pouco de pão que havia disponível e partilhou-o com todos, para que o irmão que padecia de fome não se sentisse envergonhado por comê-lo sozinho na frente dos demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos escritos do Irmão Carlos deixa transparecer esse mesmo espírito: «Nós nos esforçamos para ter uma infinita delicadeza em nossa caridade; não nos limitamos aos grandes serviços, mas cultivamos aquela terna delicadeza capaz de cuidar dos detalhes e que sabe derramar, com gestos de nada, uma montanha de bálsamo nos corações. ‘Dai-lhes de comer’: diz Jesus. Da mesma forma nós, com aqueles que vivem ao nosso lado, entramos nos pequenos detalhes de sua saúde, de sua consolação, de suas orações, de suas necessidades: consolamos, damos alívio com as atenções mais diminutas; para com aqueles que Deus põe ao nosso lado esforçamo-nos por ter aquelas ternas, delicadas, pequenas atenções que teriam entre si dois irmãos cheios de delicadeza, e mães cheias de ternura por seus filhos.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando para essas grandes figuras do cristianismo, reaviva-se em nós a aspiração de termos o nosso espírito pacificado como eles o tiveram, bem como o desejo de nos reconciliarmos com todos os nossos demônios. À distância, olhando para Francisco de Assis e para o Irmão Carlos, é difícil não sentirmos saudades de Deus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-8209525633573420160?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/8209525633573420160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/jesus-caritas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8209525633573420160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/8209525633573420160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/jesus-caritas.html' title='JESUS CARITAS'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/SevlM7jn5KI/AAAAAAAAALc/Tuif8OYSeig/s72-c/Foulcaudl.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-7333920869096487336</id><published>2009-04-19T18:55:00.003-03:00</published><updated>2010-12-26T13:02:29.691-02:00</updated><title type='text'>SENHOR, FAZEI-NOS UM!</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdY8v39HhI/AAAAAAAAAZ0/LtzFPRkj6m0/s1600/chardin.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdY8v39HhI/AAAAAAAAAZ0/LtzFPRkj6m0/s1600/chardin.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo=105" target="_top"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-size: 85%;"&gt;Download PDF&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A comunhão, jamais a solidão, é o desejo último da nossa alma. A súplica que se eleva das profundezas do nosso ser inquieto é a mesma proferida pelo Pe. Chardin no momento da sua eucaristia cósmica no deserto de Ordos: Senhor, fazei-nos Um! Criados à imagem e semelhança de Deus-Trindade, o desejo de comunhão está inscrito no nosso código genético e impregna a nossa existência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esse desejo de comunhão cresce e se desenvolve em círculos concêntricos à nossa volta: a comunhão do filho com a mãe no seio materno, a comunhão das amizades e dos amores ao longo da vida, a comunhão do marido e da esposa que se unem numa só carne, a comunhão com os poetas que conseguem traduzir com as suas palavras as percepções e os sentimentos comuns a todos nós, a comunhão com os santos dos diferentes credos, que nos fazem ter saudades do único e mesmo Deus, a comunhão e a compaixão com os sofredores e empobrecidos do nosso mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um importante teólogo já afirmou que o cristão deste século que se iniciou ou será um místico ou não será nada. Mas, quais serão os traços desta mística que nos animará neste século, o qual já nasce marcado pelo secularismo, pela indiferença religiosa e pela separação progressiva entre norte e sul? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mística do nosso século será aquela capaz de abrir os nossos olhos simultaneamente para as pequenas dores e alegrias quotidianas da humanidade, ao mesmo tempo em que se abre para as grandes perguntas e anseios do espírito humano, colocadas diante de nós não apenas pelo homem religioso, mas, também, pelas ciências e pelos descrentes. Para nós, filhos e filhas deste tempo, não nos bastará sermos piedosos. Deveremos ser piedosos e sábios para poder dialogar com sabedoria com nossos interlocutores. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No fundo, trata-se de retomarmos com vigor renovado os dois mistérios centrais da nossa fé: a Encarnação e a Ressurreição do Filho de Deus. Com a Encarnação, Deus se faz pequeno, na medida das nossas dores e das dores de todos os que padecem. Mas, faz-se pequeno e pobre não para nos consolar nessa condição, mas para nos revelar a nossa verdadeira grandeza. Essa grandeza da nossa vocação Trinitária torna-se manifesta com a ressurreição do Filho de Deus e o seu retorno ao seio da Comunidade Trinitária. A Trindade é, ela mesma, relação dinâmica e amorosa, fonte do relacionamento que une tudo e todos no Universo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Irmãozinho Carlos de Foucauld é o testemunho mais visível, no meio de nós, desse cristianismo dos pequenos, da encarnação de Jesus nas realidades terrenas. Por sua vez, a clarividência do Pe. Teilhard de Chardin faz o nosso olhar descentrar-se da nossa pequenez para nos descobrirmos irmanados com todas as forças que regem o Universo. Pela ressurreição de Jesus, o Universo inteiro torna-se transparente a essa presença do Sagrado que se manifesta – mas não se confunde – em cada partícula subatômica ou estrela, verme ou animal, vinho e festa, pão e refeição. O Universo inteiro se converte em sacramento da presença da Trindade e permanece à espera de que eduquemos nosso olhar para enxergarmos essa presença. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há mais de 800 anos, na cidadezinha de Assis, o seu filho mais ilustre teve essas mesmas intuições: teve o mesmo trato fraterno com os leprosos do seu tempo e com o sol e as estrelas junto de si. É isso o que faz com que Francisco seja um santo sempre moderno: a capacidade da sua vida de despertar em nós desejos adormecidos de Deus e de comunhão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-7333920869096487336?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/7333920869096487336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/senhor-fazei-nos-um-comunhao-jamais.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7333920869096487336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/7333920869096487336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/senhor-fazei-nos-um-comunhao-jamais.html' title='SENHOR, FAZEI-NOS UM!'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_mYIVYligeo8/TRdY8v39HhI/AAAAAAAAAZ0/LtzFPRkj6m0/s72-c/chardin.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-197511832117253466</id><published>2009-04-19T18:52:00.002-03:00</published><updated>2009-04-19T23:25:26.640-03:00</updated><title type='text'>A GRAÇA DAS ORIGENS E A ORIGEM DE UM MAL-ESTAR</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;O status jurídico dos frades laicos nos 800 anos da Ordem Franciscana&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três ramos da Ordem dos Frades Menores preparam-se para celebrar, em 2009, o Oitavo Centenário da Fundação da Ordem. Foi em 1209 que o grupo inicial de doze frades liderados por Francisco apresentou-se na corte pontifícia para solicitar do Papa Inocêncio III a aprovação do seu projeto de vida evangélica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao confrontarmos o pedido daqueles doze frades com a situação da Igreja no período compreendido entre o fim do século XII e início do século XIII, chama a atenção a solicitude de Inocêncio III ao dar a sua aprovação verbal para o projeto de vida de Francisco e seus companheiros, centrado na pobreza evangélica, cuja Regra definitiva seria aprovada somente em 1223, pelo Papa Honório III.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse período, movimentos laicos centrados na pobreza de Jesus, de sua mãe e de seus apóstolos, multiplicavam-se na Itália e na França. Esses agrupamentos de homens e mulheres, além de uma vida de pobreza, reivindicavam a liberdade de ler os evangelhos, de interpretá-los e de pregá-los às populações. Muitas vezes, colocavam-se numa posição de clara contestação e de rejeição à Igreja oficial. Quando confrontados com a simonia e o nicolaísmo do clero de então, tais movimentos adquiriam simpatia e proteção das populações locais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projeto apresentado por Francisco a Inocêncio III em 1209 não se afastava, na sua forma, desses tantos movimentos que foram considerados heréticos pela autoridade papal. Havia precedentes perigosos recentes. Os valdenses, originários de Lyon, foram aprovados pelo papa Alexandre III trinta anos antes desse encontro de Francisco com Inocêncio III e, poucos anos depois, rebelaram-se contra a autoridade papal e foram condenados como heréticos&lt;a style="mso-endnote-id: edn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn1" name="_ednref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, graças ao espírito lúcido e à coragem de Inocêncio III – que não temia abrir espaço para essas forças de renovação, mesmo que duvidosas, no interior da Igreja – Francisco e seus companheiros tiveram o seu propósito de vida aprovado. Contribuiu para isso, também, a intervenção do cardeal João de São Paulo a quem Francisco foi apresentado pelo seu amigo Guido, bispo de Assis. Essa primeira aprovação verbal é considerada o momento constitutivo do movimento franciscano, é o evento que tornou a fraternidade canonicamente ereta, ao mesmo tempo em que Francisco recebeu a autoridade para poder guiá-la em nome do papa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre esse momento fundacional e os poucos anos que se seguiram à morte do fundador, a Ordem passou por profundas tensões e mudanças internas, principalmente no ponto que toca à observância da vida de pobreza, tão cara a Francisco. O distanciamento do ideal de pobreza evangélica vivida por Francisco e expresso na Regra veio acompanhado por outra descaracterização não menos preocupante: a rápida clericalização da Ordem e o banimento dos frades laicos das suas fileiras. Clericalizada a Ordem, aos poucos frades laicos que restaram no seu interior foi vetado o acesso aos serviços de guardiães, vigários, custódios e ministros, criando uma situação de divisão no interior da Ordem que persiste até hoje, atravessando oito séculos de história franciscana, com perspectiva de solução que pode ser remota, mas não impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra mais adequada para descrever essa realidade é discriminação. Tocar num assunto como a discriminação no interior de uma instituição religiosa é algo delicado, pelas reações que isso pode suscitar. O fato de essa discriminação dizer respeito a um impedimento ao acesso a serviços de governo e de autoridade torna a tarefa ainda mais delicada, pois pode suscitar nos espíritos mais fechados uma suspeita infundada e um erro de avaliação: vê-se uma busca de status em vez do fim de uma discriminação real, qualquer que seja ela. Um agravante adicional que torna ainda mais delicada essa tarefa é o fato de que quem escreve sofre os efeitos dessa discriminação. Mas, quando a instituição religiosa que abriga no seu seio essa realidade discriminatória é uma Ordem que teve Francisco de Assis como fundador e inspirador, o único caminho a seguir é buscar a clareza e a firmeza nas palavras para demonstrar o absurdo de tal situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco e os primeiros irmãos: laicos e clérigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento da sua conversão, Francisco era laico e, como tal, junto com seus doze companheiros, entre os quais havia um único sacerdote, obteve do papa Inocêncio III a aprovação do seu projeto de vida. Mas, a exemplo de outros movimentos pauperísticos desse período, o movimento iniciado por Francisco não foi exclusivamente laico. Desde o seu início conviveram na Ordem franciscana clérigos e laicos de todas as classes sociais, eliminando qualquer tipo de discriminação em virtude da condição social, cultural ou eclesiástica do candidato&lt;a style="mso-endnote-id: edn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn2" name="_ednref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;: “Nobres e plebeus, clérigos e leigos, dóceis todos à divina inspiração, procuravam o santo na esperança de militarem para sempre com ele, sob a sua orientação e magistério”&lt;a style="mso-endnote-id: edn3" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn3" name="_ednref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;. Na prática, a única condição para ingressar no movimento franciscano era a conversão ao Evangelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os que acorriam ao movimento inaugurado por Francisco viviam sob um único projeto expresso pelo nome que Francisco escolheu para a sua Ordem: frades menores. Sob esse título – frades, irmãos – militavam todos aqueles que se propunham a viver o ideal de minoridade evangélica. Viver como irmãos menores significava viver uma vida de máxima familiaridade e igualdade, tanto na dimensão existencial quanto teológica e jurídica. As fontes franciscanas são abundantes nos exemplos em que, nas atividades de pregação e missão às quais todos são chamados, há uma orientação comum para clérigos e laicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta fraternidade igualitária, todos têm o direito e o dever de exercer os serviços que em nada conservam o sentido de poder. A Regra definitiva aprovada em 1223, ao tratar do tema da penitência a impor aos irmãos que pecaram, instrui que “E os Ministros, se são sacerdotes, imponham-lhes a penitência, com misericórdia; mas se não são sacerdotes, mandem-nos a sacerdotes da Ordem que lhes imponham a penitência, conforme segundo Deus melhor lhes parecer”&lt;a style="mso-endnote-id: edn4" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn4" name="_ednref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;. Como tal esse texto foi aprovado pelo papa e encontrou sustentação no Direito eclesiástico de então. E, numa época que primava pelo Direito eclesiástico, depois da morte de São Francisco em 1226, seus dois primeiros sucessores foram laicos: o jurista João Parenti (1227-1232) e Elias de Assis (1232-1239).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, essa situação mudou radicalmente após o generalato de Elias de Assis. Acusado de conduzir a Ordem de maneira despótica e de favorecer de maneira escandalosa os laicos nos serviços de governo da Ordem, foi deposto no Capítulo geral de 1239, que também promulgou as primeiras Constituições gerais, que normatizaram vários aspectos relacionados com a organização interna da Ordem&lt;a style="mso-endnote-id: edn5" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn5" name="_ednref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;. Ao mesmo tempo, assistiu-se a uma transformação interna da fraternidade, que se tornou eminentemente clerical. Os leigos foram afastados dos serviços de governo, ficando-lhes reservados os serviços domésticos, uma vez que também fora proibido o trabalho manual fora das casas como maneira de sustento da fraternidade. Finalmente, restringiu-se o ingresso de frades laicos&lt;a style="mso-endnote-id: edn6" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn6" name="_ednref6"&gt;[6]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse processo de clericalização e exclusão dos irmãos, primeiro dos serviços de governo e, depois, da própria Ordem, tem seu ponto alto no generalato de São Boaventura, durante o qual são revisadas e promulgadas novas constituições: “E porque não somente para a causa de nossa salvação nos chamou Deus, mas também para a edificação dos demais mediante o exemplo, conselhos e saudáveis exortações, ordenamos que ninguém seja recebido em nossa Ordem, a não ser que seja um clérigo instruído em gramática ou lógica ou a não ser que seja um laico cujo ingresso seja célebre e sirva sua fama para edificação do povo e do clero. Se alguém é recebido fora destas normas, será para o conveniente exercício dos ofícios domésticos, e nesse caso seja recebido sem urgente necessidade e com licença especial do Ministro geral.”&lt;a style="mso-endnote-id: edn7" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn7" name="_ednref7"&gt;[7]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num breve espaço de tempo, o processo de discriminação e divisão entre clérigos e laicos na Ordem estava completo. O que hoje se pede de volta à Santa Sé - a igualdade jurídica de todos os frades na Ordem, clérigos ou laicos -, é preciso dizê-lo, não nos foi usurpado pela autoridade papal. Foi a própria Ordem que a expurgou do seu meio. E isso com a ajuda de um Ministro Geral. E santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto da situação atual&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No clima de renovação que se seguiu ao Concílio Vaticano II, o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores, realizado em Madrid em 1973, debruçou-se sobre “A vocação da Ordem hoje”, buscando discernir “o sentido da nossa vida, das nossas opções e quanto ao caráter específico da vocação da nossa Ordem nos dias de hoje”&lt;a style="mso-endnote-id: edn8" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn8" name="_ednref8"&gt;[8]&lt;/a&gt;. A declaração final desse Capítulo de 1973 foi retomada pela Ordem para estimular a reflexão em vista do Capítulo geral extraordinário que acontecerá em 2006, no contexto do oitavo centenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da lucidez e do sério exame de consciência da própria Ordem que transparece nesse documento de 1973, chama a atenção a total ausência da situação de discriminação dos laicos. Apesar do documento esclarecer que “não pretende ser uma exposição de todos os elementos da vida franciscana”, informa, mais à frente, a sua proposta de “recolher alguns dos elementos essenciais de quanto se disse acerca da vocação franciscana, exprimi-los de forma condensada e incisiva e, deste modo, apresentar como que uma afirmação de valores que nos aparecem hoje como particularmente significativos da vocação da Ordem”&lt;a style="mso-endnote-id: edn9" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn9" name="_ednref9"&gt;[9]&lt;/a&gt;. Confrontando a presença de tal afirmação com a ausência de referências à discriminação dos laicos no interior da Ordem, a única conclusão possível é que esse tema não pareceu aos frades capitulares naquela altura como sendo “particularmente significativo” da vocação da Ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O documento chega perto do tema, sem, entretanto, tratá-lo de maneira aberta. Informa que “a nossa fraternidade pretende ser a reunião de homens provenientes, sob o impulso do Espírito, de diferentes meios sociais e culturais e que se esforçam por criar entre si verdadeiros laços de amizade, de respeito, de aceitação mútua”&lt;a style="mso-endnote-id: edn10" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn10" name="_ednref10"&gt;[10]&lt;/a&gt;. Coloca lado a lado a afirmação de que “na nossa fraternidade todos são irmãos, homens iguais, se bem que diferentes, livres e co-responsáveis” e de que a fraternidade “comporta, no entanto, o necessário serviço de unidade e coesão exercido pelos ‘ministros e servidores’ da fraternidade, a quem os frades devem obedecer”&lt;a style="mso-endnote-id: edn11" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn11" name="_ednref11"&gt;[11]&lt;/a&gt;. Não dá, entretanto, o passo seguinte de explicitar a constatação óbvia de que essa suposta igualdade não é tão igual assim no que se refere ao serviço de “ministros e servidores”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único ponto em que o documento explicita a situação dos frades laicos é quando trata do tema do trabalho dos frades. Lembrando que Francisco introduziu o conceito de trabalho dos frades em ofícios fora da fraternidade, afirma que “esse trabalho era uma ocasião de contato com as pessoas e um meio de anunciar o evangelho” e que “essa novidade não sobreviveu com a evolução da Ordem e a sua inserção gradual nos quadros da vida clerical e monástica”, sobrando para os não-clérigos “o trabalho doméstico dentro dos conventos”&lt;a style="mso-endnote-id: edn12" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn12" name="_ednref12"&gt;[12]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vaticano II fora concluído havia apenas oito anos e a Ordem dava, ainda, os seus primeiros passos rumo a uma configuração interna mais próxima ao espírito das suas origens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais recentemente, a realidade da Ordem franciscana como um instituto clerical, onde ficam vedados aos laicos os serviços de governo, vem sendo debatida no interior da Ordem e, também, nos encontros da Conferência dos Ministros gerais da Primeira Ordem Franciscana e da Terceira Ordem Regular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Sínodo dos Bispos sobre a Vida Consagrada, realizado em 1994, e as respectivas intervenções dos ministros gerais, vislumbrou-se uma possibilidade de solução por parte da Santa Sé, com a criação dos assim chamados “institutos mistos”, isto é, uma nova categoria a ser acrescentada aos já existentes institutos laicais e institutos clericais. Com efeito, na exortação apostólica relacionada com o Sínodo, o papa João Paulo assim se manifestou: “Alguns Institutos religiosos, que, no projeto originário do fundador, se apresentavam como fraternidades, onde todos os membros — sacerdotes e não sacerdotes — eram considerados iguais entre si, com o passar do tempo adquiriram uma fisionomia diversa. Importa que estes Institutos chamados ‘mistos’ ponderem, na base de um aprofundamento do próprio carisma de fundação, se seria oportuno e possível voltar à inspiração original. Os Padres sinodais formularam o voto de que, em tais Institutos, seja reconhecida, a todos os religiosos, igualdade de direitos e deveres, exceto os que derivam da Ordem sacra. Para examinar e resolver os problemas conexos com esta matéria foi instituída uma específica comissão, cujas conclusões convém esperar para se fazerem depois as opções convenientes segundo aquilo que for autenticamente estabelecido.”&lt;a style="mso-endnote-id: edn13" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn13" name="_ednref13"&gt;[13]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazendo eco dessa exortação, o documento final do Capítulo Geral de 1997 da Ordem dos Frades Menores afirmou que “A reconquista de nossa identidade como Fraternidade, na qual todos são e se chamam Irmãos, deve acontecer em nível de princípios, da legislação e da conscientização”&lt;a style="mso-endnote-id: edn14" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn14" name="_ednref14"&gt;[14]&lt;/a&gt;. E continuam as resoluções do Capítulo relacionadas com este ponto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Considerando que a Congregação para os Institutos de Vida consagrada e as Sociedades de Vida apostólica admite a possibilidade de uma terceira categoria de Institutos, os ‘Institutos mistos’, e considerando que a Exortação Apostólica pós-Sinodal Vita Consecrata convida os Institutos chamados ‘mistos’ a avaliar, baseados no aprofundamento do próprio carisma fundacional, se é oportuno e possível voltar à inspiração originária, o Capítulo geral decide: A Ordem dos Frades Menores, em virtude do carisma fundacional, declara ser um Instituto religioso ‘misto’ (ou clerical e laical), constituído de irmãos clérigos e leigos.”&lt;br /&gt;-&lt;br /&gt;- “‘A Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco, é uma Fraternidade’ (Constituições Gerais): portanto, todos os frades realmente são e se chamam irmãos, com iguais deveres e direitos, também quanto à possibilidade de assumir o cargo de guardião e ministro, ficando firme o princípio que os irmãos leigos deverão exercer por meio de sacerdotes da Ordem os atos que exigem Ordem sacra (cf. Reg B 7,2)”.&lt;a style="mso-endnote-id: edn15" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn15" name="_ednref15"&gt;[15]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;-&lt;br /&gt;O Capítulo antecipou-se e votou as alterações necessárias nas Constituições Gerais para regular o acesso dos frades laicos aos serviços de superiores maiores (Ministro geral, Ministro provincial, Custódio da Terra Santa e seus respectivos Vigários), para terem efeito no caso da aprovação, por parte da Santa Sé, da Ordem dos Frades Menores como um Instituto Misto&lt;a style="mso-endnote-id: edn16" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn16" name="_ednref16"&gt;[16]&lt;/a&gt;. E, mais importante, determinou que todas as entidades da Ordem se esforçassem por promover a identidade mista da Ordem e a igualdade de todos os frades desde a promoção vocacional.&lt;a style="mso-endnote-id: edn17" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn17" name="_ednref17"&gt;[17]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim desse mesmo ano, a Conferência dos Ministros Gerais da Primeira Ordem Franciscana e da TOR criou uma comissão mista para um “Estudo da Ordem Franciscana como ‘Instituto Misto’”, cujo resultado veio à luz em 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estudo condensa de maneira precisa os principais pontos relacionados com os aspectos teológicos e jurídicos da fraternidade franciscana no momento da sua fundação, isto é, entre a aprovação do projeto de vida da fraternidade em 1209 e a aprovação da Regra de Vida definitiva em 1223.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa comissão conclui afirmando que “O acesso de todos os frades à responsabilidade do ministerium fratrum na Ordem nunca foi considerado uma simples reivindicação de direitos em nível humano ou um elemento meramente estrutural ou sociológico; foi proposto ao ‘Senhor Papa’ e vivido como necessária conseqüência da impostação evangélica da identidade dos frades menores segundo a vontade ou a intenção de Francisco Fundador”. Além do mais, “todos os cargos e ofícios na Ordem, segundo a vontade ou a intenção fundacional de Francisco, foram igualmente acessíveis a todos os irmãos, independente do seu estado clerical ou laical, conquanto conferidos em base à idoneidade de cada um”.&lt;a style="mso-endnote-id: edn18" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn18" name="_ednref18"&gt;[18]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, a comissão conclui que é possível afirmar que a Ordem franciscana, no momento da sua fundação, foi, de fato, um instituto misto, no sentido em que foi uma realidade existencial e efetiva na qual co-existiam irmãos sacerdotes (clérigos) e irmãos não-sacerdotes (laicos). Do ponto de vista do direito, entretanto, Francisco não se pronunciou formalmente sobre tal ponto.&lt;a style="mso-endnote-id: edn19" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn19" name="_ednref19"&gt;[19]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, no seu relatório ao Capítulo Geral de 2003, o Ministro geral cessante, Fr. Giacomo Bini, dava a conhecer à OFM que a questão relacionada com o reconhecimento da Ordem como um instituto misto “não foi nem vai para a frente”, frustrando, assim, a expectativa de que a declaração de princípios e a conseqüente deliberação do papa João Paulo II acerca dos institutos mistos pudesse traduzir-se em realidade, o que “ter-nos-ia permitido readiquir plenamente nossa identidade de Fraternidade por força do carisma fundacional, confirmado pelo Papa Honório”.&lt;a style="mso-endnote-id: edn20" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_edn20" name="_ednref20"&gt;[20]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A origem de um mal-estar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 2006 foi estabelecido, pela OFM, como o início do itinerário celebrativo do oitavo centenário de aprovação da Regra franciscana. Nesse contexto, seria lamentável um silêncio sobre essa discriminação que atravessa os 800 anos da nossa história franciscana. Fosse repentinamente a situação invertida – clérigos colocados debaixo dessa mesma discriminação e os laicos na situação que hoje desfrutam os clérigos – e o atual silêncio seria o mesmo? Haveria mais empenho por parte da Cúria Geral no diálogo e na insistência junto às autoridades no Vaticano?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, qual é o significado desse silêncio e da recusa do Vaticano em devolver à Ordem Franciscana algo que é constitutivo da sua identidade fundacional? Que temores não verbalizados escondem-se por trás dessa recusa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A recusa em conceder a todos os frades da Ordem, independente da sua situação jurídica, se clérigos ou laicos, o acesso aos serviços de governo na Ordem, significaria, como conseqüência lógica, a recusa à aprovação, hoje, do projeto de vida de Francisco e seus companheiros tal qual foi aprovado há 800 anos? Francisco encontraria no Papa e na Cúria Romana de hoje temores que ele não encontrou em um papa da Idade Média, com bons motivos para tê-los? E quais são esses temores?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um desses temores por parte do Vaticano diz respeito, certamente, à possibilidade de um frade laico ser o superior hierárquico de um frade sacerdote. Pode parecer uma afirmação e um juízo simplista, mas, ainda assim, é um juízo plausível. Existe, no atual contexto eclesial, algo mais impensável? Qual é o significado eclesial mais amplo de um irmão ser o superior hierárquico do número de frades, a imensa maioria sacerdotes, que compõem a Ordem hoje? E, mesmo internamente, como se comportariam os frades diante de tal realidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal temor é infundado por uma questão de mera estatística. Os frades laicos constituem, hoje, um percentual na faixa dos 18% do total de frades da Ordem. Não há indicativos de que esse percentual cresça num futuro próximo. Pelo contrário, o que se constata hoje na Ordem, é um lento avanço do percentual de frades clérigos sobre os frades laicos, embora numa ou noutra província a situação seja diferente. Ora, os serviços de animação a nível provincial e da Ordem têm por fundamento, de acordo com o projeto primitivo franciscano, a idoneidade do escolhido pela fraternidade para tal (ao que se pode acrescentar a capacidade de animação e unção para o serviço). Se encontrar tais frades hoje entre os clérigos torna-se, não poucas vezes, uma tarefa difícil, muito mais difícil será encontrá-los entre os poucos laicos, numa hipótese de poderem ser escolhidos entre uns e outros. Além do mais, é necessário dizê-lo, entre os poucos frades laicos há um percentual ainda mais reduzido de frades preparados para tais serviços do que entre os clérigos. A situação de governo nas Províncias e na Ordem, permanecerá, portanto, inalterada pelos tempos futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indo mais além, é possível conjeturar outros temores. Se o Vaticano admite revogar uma discriminação que não encontra fundamento sob quaisquer perspectivas e vai frontalmente contra o projeto proposto por Francisco e aprovado pelo papa Inocêncio III, que respostas dar às demandas pelo fim de outras formas de discriminação na Igreja? Nesse sentido, o temor não se relaciona tanto com o pedido da Ordem, mas em relação ao que pode vir a seguir no interior de outros setores da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se qualquer forma de discriminação é contrária à natureza humana e ao Evangelho, o que dizer de uma discriminação que se sustenta não em atributos naturais como o gênero ou a etnia, mas num dom do próprio Deus, qual seja, a vocação para uma determinada forma de vida evangélica, neste caso, a vida consagrada masculina laical?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como foi esclarecido anteriormente, trata-se apenas de conjecturas para fazerem face a um silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se a decisão última da constituição da Ordem franciscana como um “instituto misto” remete ao Vaticano e os seus organismos, há um trabalho doméstico a ser feito nos princípios e na conscientização da Ordem, como o expressou o Capítulo Geral de 1997. Há alguns exemplos que são esclarecedores dessa necessidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensemos na pressão velada – e, algumas vezes, explícita – dos formadores ou ministros provinciais sobre o jovem frade que manifesta a sua opção pela vida laical, no sentido de fazê-lo desistir dessa opção. O que dizer da expressão de decepção na face e na reação de um provincial quando um frade vai informá-lo da sua decisão pela vida laical? Essa pressão pode ser legítima quando tiver o objetivo de confrontar o frade com a sua opção e para verificar a solidez da mesma. Mas, quais são os ministros que fazem o mesmo confronto quando um frade submete para aprovação o seu pedido de ordenação? Pelo contrário, não é saudado com um caloroso abraço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro exemplo significativo é uma certa desconfiança que paira em alguns setores da Ordem em relação ao pequeno aumento percentual do número de frades de vocação laical em algumas províncias. Tais setores relacionam esse aumento do número de frades laicos com uma possível fragilidade dessas vocações, quando comparadas com as vocações para frades clérigos. A lógica é simples: com “apenas” a profissão solene, o frade se sentiria menos compromissado com a Ordem e mais facilmente poderia abandoná-la do que um frade ordenado. Ser um frade laico com “apenas” a profissão solene é ter um pé à frente e outro atrás. Dando prosseguimento a essa lógica, conclui-se que é a ordenação – e não a profissão – que confere o status de verdadeira pertença à Ordem. Um quadro estatístico comparativo de egressos de um e outro estado – clérigos e laicos – deveria levar em conta o período transcorrido entre a profissão e o abandono. Pois, abandonos de frades de suposta opção laical logo a seguir à profissão solene pode significar apenas uma coisa: que o frade talvez não tenha feito uma verdadeira opção pela vida franciscana, e, portanto, nem pela vida laical, nem pela vida clerical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro exemplo aparentemente trivial, mas não menos significativo, pela explicitação de uma mentalidade subjacente, é a persistência, entre alguns frades clérigos, da impostação de elementos típicos dos clérigos seculares: o clegiman e o respectivo tratamento (padre fulano). Se é a nossa identidade como frades que confere a nossa unidade vital como membros da mesma Ordem, onde convivem clérigos e laicos sob a mesma Regra de vida, o uso desses elementos por parte dos frades introduz uma linha divisória clara e desnecessária entre uns e outros. É compreensível que tais hábitos persistam na vida de frades nascidos e formados noutras épocas e mentalidades, das quais tentamos nos afastar. É uma questão de tempo. Mas, é triste – e, ao mesmo tempo, cômico – ver jovens frades, recém-saídos de casas de formação e ordenados, impostando o clegiman, numa necessidade de auto-afirmação mais pelo colarinho engomado do que pelas próprias convicções e maturidade humana e vocacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Divinópolis, no Brasil, mora Frei Antônio da Silva Rocha, frade laico que completou, em 2006, 100 anos de idade, com a mesma lucidez e jovialidade que o caracterizam. Trabalhou muito nos seus 77 anos como frade. Nos últimos anos, cuidava da pequena horta no interior do convento. Em Lisboa, Portugal, mora Frei José Luís Domingues, também laico. Trabalhou como missionário em Moçambique durante quase 40 anos. Com uma solicitude e uma atenção de mãe, como Francisco pedia de seus irmãos no trato uns para com os outros, acolheu os hóspedes e cuidou dos irmãos acometidos de inúmeras malárias em Maputo durante todos esses anos. São irmãos como esses que, no espaço de tempo que nos separa de Francisco e seus primeiros companheiros, garantiram que não se extinguisse totalmente na Ordem o espírito original da fraternidade franciscana. Eles pertencem àquela categoria de frades onde o próprio Francisco se auto-incluía: os frades simples, os iletrados. Também eles têm direito, hoje, a um mínimo de formação religiosa e franciscana, a par dos nossos candidatos clérigos. Mas, diferente dos clérigos e letrados, eles encontram espaço de formação nos nossos centros de formação franciscana ou tais centros tornaram-se por demais sofisticados, incapazes de atender essa demanda real da Ordem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses são apenas alguns exemplos triviais, aos quais outros podem ser acrescentados nas diferentes províncias da Ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, entre silêncios e discriminação, a Ordem segue nos seus preparativos para a grande celebração do Oitavo centenário. No meio do burburinho dos preparativos, entretanto, um mal-estar faz-se sentir. Apesar de pertencer a uma Província que, logo a seguir ao Vaticano II e juntamente com as demais províncias brasileiras, busca com sinceridade viver a igualdade fraterna entre os seus membros, eliminando onde é possível, dentro do quadro jurídico atual, os sinais de divisão, permanece um desagradável mal-estar de fundo, por causa dessa discriminação institucional a que frades de vocação laical como eu estão sujeitos. Há uma sensação de ser, como frade laico, um corpo estranho dentro da própria Ordem. E isso é algo difícil com que se acostumar, mesmo transcorridos oitocentos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref1" name="_edn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Cf. IRIARTE, Lázaro. Historia Franciscana. Editorial Asis: Valencia, 1979, p. 44.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref2" name="_edn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Cf. BÓRMIDA, Jerónimo. Datos históricos para una eclesiologia franciscana. p. 125.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn3" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref3" name="_edn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; 1Cel 37,4&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn4" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref4" name="_edn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; RegB 7,2&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn5" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref5" name="_edn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Cf. IRIARTE. Op. cit., p. 75.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn6" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref6" name="_edn6"&gt;[6]&lt;/a&gt; Idem, p. 76&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn7" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref7" name="_edn7"&gt;[7]&lt;/a&gt; Bougerol, J. G. – Del Zotto, C., Opere di San Bonaventura Opusculi Francescani/1, Città Nuova Editrice, 1993, p. 129. Il testo in latino nella pagina 128: “Et quia non solum propter nostram salutem vocavit nos Deus verum etiam propter aliorum aedificationem per exempla, consilia et salubria hortamenta, ordinamus quod nullus recipiatur in Ordine nostro, nisi sit talis clericus qui sit competenter instructus in grammatica vel logica, aut nisi sit talis clericus vel laicus, de cuius ingressu esset valde celebris et famosa aedificatio in populo et in clero. Si quem vero praeter hanc formam recipi oporteat propter familiaria officia exercenda, non recipiatur absque urgente necessitate, et hoc de Ministri generalis licentia speciali”.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn8" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref8" name="_edn8"&gt;[8]&lt;/a&gt; A vocação da Ordem hoje. Declaração do Capítulo Geral de 1973 da Ordem dos Frades Menores, nº 1.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn9" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref9" name="_edn9"&gt;[9]&lt;/a&gt; Idem, nº 2.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn10" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref10" name="_edn10"&gt;[10]&lt;/a&gt; Idem, nº 14.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn11" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref11" name="_edn11"&gt;[11]&lt;/a&gt; Idem&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn12" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref12" name="_edn12"&gt;[12]&lt;/a&gt; Idem, nº 26.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn13" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref13" name="_edn13"&gt;[13]&lt;/a&gt; João Paulo II. Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, nº 61.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn14" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref14" name="_edn14"&gt;[14]&lt;/a&gt; Da memória à profecia. Orientações e propostas do Capítulo Geral de 1997 da Ordem dos Frades Menores, nº 23.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn15" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref15" name="_edn15"&gt;[15]&lt;/a&gt; Idem, nº 24.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn16" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref16" name="_edn16"&gt;[16]&lt;/a&gt; Idem, nº 25.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn17" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref17" name="_edn17"&gt;[17]&lt;/a&gt; Idem, nº 27.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn18" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref18" name="_edn18"&gt;[18]&lt;/a&gt; A identidade da Ordem Franciscana no momento da sua fundação. Conferência dos Ministros Gerais da Primeira Ordem Franciscana e da TOR. Roma, 1999, p. 24 da edição em língua portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn19" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref19" name="_edn19"&gt;[19]&lt;/a&gt; Idem, p. 34.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-endnote-id: edn20" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ednref20" name="_edn20"&gt;[20]&lt;/a&gt; Relatório do Ministro Geral Fr. Giacomo Bini ao Capítulo Geral de 2003 da Ordem dos Frades Menores, nº 25.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-197511832117253466?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/197511832117253466/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/graca-das-origens-e-origem-de-um-mal_19.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/197511832117253466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/197511832117253466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/graca-das-origens-e-origem-de-um-mal_19.html' title='A GRAÇA DAS ORIGENS E A ORIGEM DE UM MAL-ESTAR'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19809912.post-2899819412702895031</id><published>2009-04-19T18:40:00.005-03:00</published><updated>2009-04-20T07:17:26.218-03:00</updated><title type='text'>DISCRIMINAÇÃO DE NEGROS NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA DO SÉCULO XXI: CONTRA OU A FAVOR?</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;Discriminação no passado e no presente da Ordem Franciscana&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta no título deste artigo é, propositadamente, provocadora e carrega duas armadilhas para as quais é necessário estarmos atentos para evitar respostas apressadas e impensadas. Embora o ponto de partida desta reflexão diga respeito à realidade da escravidão no Brasil colonial e monárquico, para somente então fazer a inflexão para a realidade da Ordem dos Frades Menores neste início de século, quando se comemora o oitavo centenário da sua aprovação pontifícia, acreditamos que alguns aspectos que aqui serão abordados possam servir de reflexão sobre a identidade da Vida Religiosa Consagrada de uma maneira mais ampla e, de uma maneira particular, sobre a identidade e o status da Vida Religiosa Consagrada masculina, principalmente naqueles institutos classificados como clericais, como é o caso da Ordem Franciscana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema da escravidão negra nas ordens religiosas no Brasil e demais países da América Latina é um assunto delicado e pouco conhecido dos próprios religiosos, como acontece algumas vezes com temas incômodos às instituições que carregam em seu passado fatos históricos constrangedores. Sobre tais temas, paira, normalmente, um silêncio nada inocente, quebrado vez ou outra pela pesquisa atenta de estudiosos dos temas relacionados, mas cujos resultados não chegam a fazer parte da memória coletiva da maioria dos religiosos.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Em relação à escravidão negra no Brasil, é significativa a atitude do Ministro da Fazenda do Governo Provisório da República, Rui Barbosa (1849-1923), que, para “apagar a mancha” do passado escravagista brasileiro, mandou queimar os arquivos referentes à escravidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma correta compreensão desse tema e das suas implicações para as antigas ordens religiosas presentes no Brasil colonial e monárquico (franciscanos, beneditinos, carmelitas, jesuítas, mercedários e clarissas), é necessária a atenção para o contexto socioeclesial desse período: a escravidão como base do sistema produtivo e a vigência do sistema de padroado colonial, substituído pelo regalismo no período monárquico, que pode ser resumido no controle civil de todos os aspectos da vida da Igreja, vista como um dos departamentos da administração estatal. Em alguns momentos do período monárquico, chegou-se à quase consumação de um cisma com a Igreja de Roma e o estabelecimento de uma Igreja nacional controlada pelo monarca brasileiro. Nesse contexto, a escravidão negra – diferente da indígena – era vista como algo estrutural. Ao pedido de um religioso italiano que, em 1691, solicitou ao rei de Portugal um capelão para ser enviado ao quilombo de Palmares, o jesuíta Pe. Antônio Vieira reagiu energicamente contra a decisão favorável do rei: “Estes negros estão em estado permanente de rebelião”, fugindo dos engenhos, caíram em “pecado mortal” e estavam excomungados. Para ele, o envio de um capelão a Palmares e o reconhecimento tácito dessa região negra livre significaria, em tese, o fim do Brasil: “Sem negros não há Pernambuco e sem Angola, não há negros”. Bem entendido: sem escravidão, não há Brasil, e como deve haver Brasil, assim deve haver escravidão, raciocinava o religioso jesuíta.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sociedade branca supostamente cristã, não faltaram argumentos e justificativas “cristãs” para a existência do regime escravocrata. Ora vistos como descendentes de Caim, o assassino de Abel, ora como descendentes da raça maldita de Cam, filho de Noé (cf. Gn 9,18-27), ora conseqüência do pecado original, que deu origem a servos e senhores, não faltavam argumentos religiosos e teológicos para a existência da escravidão. O mais sério desses argumentos parece ter sido o da “libertação espiritual”. De acordo com esse argumento, os portugueses desse período eram vistos não como os algozes dos povos africanos, mas como os seus verdadeiros libertadores: ao serem resgatados da “ignorância invencível” e da barbárie dos seus próprios povos e trazidos para a civilização na Terra de Santa Cruz, aos africanos era oferecida a oportunidade de serem introduzidos no “reino da luz”. O cativeiro e a escravidão em terras brasileiras, portanto, eram vistos como um mal menor diante da possibilidade de “ingresso” na religião cristã e a conquista da vida eterna. O batismo compulsório foi prática corrente entre os negros originários de Angola durante determinados períodos. Os negros provenientes dessa colônia portuguesa africana eram marcados com ferro em brasa antes do embarque para o Brasil, sinal do pagamento do imposto sobre a sua comercialização e, também, do seu batismo, dispensando-o de recebê-lo novamente no destino. Aos negros provenientes de outras regiões era estabelecido o prazo de um ano, a partir da chegada ao Brasil, para serem instruídos na fé cristã e batizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As primeiras informações sobre a utilização de mão-de-obra escrava entre os frades franciscanos referem-se à construção do convento de São Francisco de Vitória, em 1595. Tais escravos não eram, ainda, propriedade dos frades, tendo sido cedidos por benfeitores para a edificação do convento. A mão-de-obra escrava será a responsável pela edificação de conventos e de igrejas suntuosas, enquanto perdurou a escravidão no Brasil, misturando à argamassa dos conventos o sangue e o suor escravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Informações sobre a posse efetiva de escravos remontam a 1618 e 1624. Já no fim do século XVIII, menciona-se a compra de meninos escravos, certamente de custo mais baixo e de fácil aprendizado de algum ofício. A aquisição de crianças para o trabalho escravo e a conseqüente separação de seus pais não parece ter acarretado problemas de consciência aos frades de então. O cânon 53 das constituições do sínodo baiano desse período ordenava a separação dos pais pagãos de seus filhos a partir dos sete anos de idade, para não correrem o perigo de se perverterem.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn3" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O auge do número de escravos nos conventos franciscanos se deu por volta de 1760, que coincide com o auge da província franciscana de Santo Antônio, no Nordeste brasileiro, que chegou a contar com 470 professos. O convento da Bahia possuía, em 1773, 86 escravos para um número de 81 frades professos.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn4" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Informações sobre os conventos localizados na capitania de São Paulo nos dão conta de que, no período de 1797 a 1798, para um total de 58 membros da comunidade franciscana, havia um correspondente de 108 escravos (numa relação, portanto, de quase dois escravos para cada franciscano). O convento da Penha, na capitania do Espírito Santo, contava com 42 escravos em 1872. Mais escandalosa parece ter sido a situação do mosteiro do Desterro, das Clarissas na Bahia. Para um total de 81 professas, havia um número de 298 escravas, 290 delas oferecidas como dote das irmãs que ingressaram no mosteiro.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn5" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Esses escravos e escravas desempenhavam as mais diversas atividades, desde o trabalho de alvenaria, marcenaria, cozinha, trabalho agrícola nas propriedades rurais e, até mesmo, o serviço de acompanhar os frades na recolha de esmolas, coisa que alguns escravos faziam sozinhos a mando dos frades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida na senzala dos conventos não era menos dura do que a vida nas senzalas das casas-grandes. Mesmo com o cuidado dispensado à instrução religiosa e aos escravos enfermos e idosos, o tronco para o açoite dos escravos fugitivos e o cárcere estavam presentes no meio das senzalas conventuais, pelo menos nos conventos do Nordeste.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn6" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;[6]&lt;/a&gt; Os frades também se utilizavam dos serviços dos odiados “capitães-do-mato”, responsáveis pela recaptura de escravos fugitivos. Várias despesas relacionadas com esses capitães constam no Livro de Contas da Receita e Despesas do Convento de São Francisco da Bahia (1790-1821). A função de recapturar escravos fugitivos também foi confiada ao santo restituidor de coisas perdidas: Santo Antônio. Um frade cronista da Província de Santo Antônio, Frei Jaboatão, chega a narrar o “milagre”, ocorrido na capitania de Sergipe del-Rei, de um negro fugitivo juntamente com duas escravas, recapturados graças à diligência do santo lisboeta, reduzido a “capitão-de-mato”.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn7" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;[7]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Província de Santo Antônio de Portugal, sob cuja dependência estavam os frades franciscanos no Nordeste do Brasil, vetava o ingresso na Ordem aos descendentes de judeus e de mouros (muçulmanos), mesmo que convertidos, aos hereges mesmo remotos, aos gentios “modernos” e aos mulatos “no quarto grau inclusive”. Após a autonomia da Província de Santo Antônio, a entidade autônoma no Brasil “herdou” a legislação e a prática discriminatória da matriz lusitana. Nesse contexto, é única a história de Frei Francisco de Santo Antônio, o Pretinho, por ser “negro por natureza”, que buscou o seu ingresso na Ordem Franciscana na qualidade de irmão laico (pois não era possível ser sacerdote). Vendo que os frades não satisfaziam ao seu desejo de ingresso na Ordem, encontrou quem o introduzisse na presença do monarca D. Pedro II (1648-1706), em Portugal. Esse monarca ordenou aos frades no Brasil que o aceitassem na Ordem, vindo a professar no convento de Olinda em 2 de agosto de 1689, quando já contava com oitenta anos de idade.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn8" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn8" name="_ftnref8"&gt;[8]&lt;/a&gt; Infelizmente, tal prática discriminatória nessa Província Franciscana do Nordeste perdurou até o ano de 1951, quando foi promulgada a “Lei Afonso Arinos”&lt;a style="mso-footnote-id: ftn9" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn9" name="_ftnref9"&gt;[9]&lt;/a&gt;, que passou a incluir entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro desse contexto de escravidão e discriminação pode ser entendido o papel das confrarias e irmandades sob a proteção de São Benedito, que abrigavam os escravos. São Francisco, diferente de São Benedito, não era visto como “irmão dos escravos”, pois era o santo dos brancos. Significativo é o fato de haver no candomblé afro-brasileiro um orixá associado a São Benedito (Ossain) e nenhum a São Francisco. Os próprios escravos dos conventos eram conhecidos como escravos “do santo”, mais do que escravos “dos frades”. Um jornal baiano da causa abolicionista chegou a denunciar: “até os santos têm escravos: os escravos de S. Francisco...” “Fazer do pobrezinho de Assis um ‘senhor de escravos’ foi como que a culminância do contra-testemunho franciscano”.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn10" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn10" name="_ftnref10"&gt;[10]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escravidão foi oficialmente abolida no Brasil em 1888, mais como conseqüência lógica de um sistema de produção que se mostrou anacrônico e dispendioso e menos como causa de pressões generalizadas da sociedade brasileira. Doze anos antes, em 1876, os franciscanos passaram carta de alforria aos seus últimos escravos,&lt;a style="mso-footnote-id: ftn11" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn11" name="_ftnref11"&gt;[11]&lt;/a&gt; um tempo demasiado tarde e muito próximo da data em que a causa abolicionista tomou conta da consciência da sociedade civil, mas não da consciência religiosa dos frades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante desse quadro histórico, são necessárias algumas perguntas. A vida nas senzalas franciscanas era menos dura que nas demais senzalas, como argumentam alguns? A escravidão no interior dos conventos franciscanos no Brasil colonial e monárquico é algo que pode ser justificável no contexto histórico desse período? Se não for justificável, pode ao menos ser compreensível dentro da mentalidade possível dessa época?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece-nos que, sob qualquer prisma que se analise a questão, dificilmente poderão ser encontrados argumentos que justifiquem ou tornem menos dramática a presença da mão-de-obra escrava dentro dos conventos e mosteiros, a serviço do bem-estar dos frades e freiras. E há um fato objetivo que torna isso claro. No fim do século XIX, já havia uma consciência “liberal” favorável à abolição da escravatura. Mais importante, o próprio papado posicionou-se contra a escravatura em 1839. Através da Carta Apostólica In supremo apostolatus fastigio, Gregório XVI condenou radicalmente a escravatura e o tráfico de africanos. No Brasil, bispos como Dom Romualdo Antônio de Seixas (1827-1860), Dom Antônio Ferreira Viçoso (1844-1875) e Dom Antônio Maria Correia de Sá e Benevides (1877-1896) posicionaram-se publicamente contra a escravidão. Os frades, entretanto, parecem ter ficado alheios a essas vozes. É certo que houve posicionamentos isolados de frades, como o custódio do Maranhão Frei Cristóvão de Lisboa, que em 1647 condenou tanto a escravatura dos nossos indígenas como o tráfico de africanos.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn12" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn12" name="_ftnref12"&gt;[12]&lt;/a&gt; Na última década do século XVIII, dois capuchinhos italianos, Frei José de Bolonha e Frei José Barbarola também assumiram a causa abolicionista, tendo sido o primeiro suspenso pelo bispo da Bahia.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn13" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn13" name="_ftnref13"&gt;[13]&lt;/a&gt; Entretanto, como já dissemos, são vozes que parecem não ter afetado a consciência da maioria dos frades, que permaneceram alheios à questão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dando um passo adiante na nossa argumentação, uma outra pergunta se apresenta: uma vez que a escravatura não mais subsiste nas ordens religiosas, existe alguma forma de discriminação mais ou menos implícita contra negros que possa, porventura, perdurar no nosso meio? Seria aceitável uma situação hipotética de um religioso não poder assumir serviços de governo no seu instituto pelo fato de ser negro? Mais uma vez, é necessário cautela nas respostas. A argumentação de que o simples fato de as leis civis condenarem qualquer forma de discriminação étnica tornam-na inexistente nos institutos religiosos é falha. Não é preciso lembrar de que a Igreja possui uma legislação interna própria, codificada no Direito Canônico, e que, em alguns aspectos, essa legislação contraria a lei civil das diversas nações. Basta citar o exemplo da demissão ipso facto do seu instituto de um religioso que contrai matrimônio. Existe uma lei civil que forneça embasamento para tal prática, ou seja, a exclusão de um cidadão de uma instituição devido ao seu estado civil? Portanto, embora condenada civilmente, o Direito Canônico poderia fornecer, em teoria, legislação que justificasse prática discriminatória sob alguma forma. E isso acontece de fato, se não em relação aos negros, pelo menos em relação a um grupo muito concreto: os religiosos laicos no interior dos institutos clericais masculinos, como é o caso dos três ramos da Ordem Franciscana: Conventuais, Menores e Capuchinhos.&lt;a style="mso-footnote-id: ftn14" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftn14" name="_ftnref14"&gt;[14]&lt;/a&gt; Os frades laicos desses institutos e também os religiosos laicos de qualquer instituto masculino clerical estão impossibilitados de assumir serviços de governo, devido ao fato de terem vocação laical no interior desses institutos, o que constitui uma clara violação a um dos aspectos fundamentais da identidade da vida religiosa consagrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ponto, ficam formuladas as perguntas centrais desta reflexão: quais seriam as justificações válidas (uma vez que pode haver justificações falaciosas e ideológicas) para discriminações contra negros na vida religiosa consagrada masculina? Quais seriam as reações e os posicionamentos do conjunto da Vida Consagrada contra tal prática discriminatória se ela se mostrasse presente? E aqui reside a primeira armadilha contida na pergunta que intitula este artigo: por que determinada discriminação é vista como inaceitável sob qualquer ponto de vista – por exemplo, a discriminação étnica – e outra forma de discriminação – como a praticada contra frades laicos na Ordem Franciscana e demais institutos masculinos clericais – torna-se justificável e tolerável?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais são as justificações válidas para a discriminação contra os frades laicos no interior de uma Ordem, como a Franciscana, que tem, na sua identidade fundacional, a vivência da fraternidade e da igualdade evangélica entre frades clérigos e frades laicos? Mais importante: se é previsível uma reação generalizada e contrária a qualquer forma de discriminação contra negros no interior da Ordem Franciscana, por que se assiste a tamanha passividade, da cúpula à base da Ordem dos Frades Menores, em relação à discriminação real e institucional contra os frades laicos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a primeira pergunta no parágrafo anterior remete aos organismos do Estado do Vaticano, que se recusa a conceder um status próprio à Ordem dos Frades Menores para que ela possa viver, de direito e de fato, a igualdade institucional entre os seus membros, a segunda pergunta remete ao interior da própria Ordem e ao seu silêncio em relação a este tema, quebrado, uma vez ou outra, por ocasião de Capítulos Gerais, cujas orientações a respeito recaem no silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o enfoque dessas duas questões, é necessário apontar uma segunda e sutil armadilha presente no título deste artigo: o que significa posicionar-se “contrária” ou “favoravelmente” a determinada discriminação? Basta uma simples afirmação impensada? Ser contrário a uma discriminação e cruzar os braços diante da mesma é realmente ser contrário? É possível ser contrário a uma discriminação e, simultaneamente, fechar os olhos aos mecanismos subjacentes à mesma? O silêncio, a omissão e a passividade diante de uma discriminação real não configuram uma concordância tácita com a mesma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas celebrações dos oitocentos anos da Ordem Franciscana, há um silêncio no ar. Nas diferentes esferas da Ordem, há um silêncio em relação ao status jurídico dos frades laicos no interior da Ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um acontecimento recente e aparentemente insignificante, mas revelador de determinadas posturas e mentalidades, exemplifica esse silêncio. No contexto das comemorações do oitavo centenário da Ordem, o Governo geral convocou um capítulo destinado a reunir jovens frades da Ordem com até dez anos de votos solenes. Esse capítulo foi realizado no mês de julho de 2007, em Jerusalém. Na celebração eucarística de abertura do capítulo, aos poucos frades laicos presentes foi impedido o acesso ao altar eucarístico, onde os frades clérigos tomavam a sagrada comunhão (um frade se encarregou de separar os irmãos na fila de comunhão). Aos frades laicos foi impedido o acesso ao altar para a comunhão, sendo-lhes destinado um sacerdote para servir a eucaristia, separados dos demais frades clérigos. Acontecimentos como esse remetem a um passado recente, ainda vivo em alguns frades da Ordem, em que aos frades laicos eram destinados um noviciado separado, acomodações separadas, refeitórios separados e proibição de contato com os candidatos clérigos. Se, num capítulo destinado a reunir aquela que é considerada a vanguarda da Ordem, tais fatos se fazem presentes, justamente no momento da “comunhão”, que grau de esperança nos resta? E tudo isso diante do silêncio dos membros do Governo geral da Ordem presentes ao Capítulo, o que, ao nosso olhar, torna o fato ainda mais grave. Felizmente, no dia seguinte, essa situação vexatória foi denunciada por um pequeno grupo de frades, que recebeu o apoio dos demais, e a situação foi corrigida, para contragosto de um ou outro frade, mais atento às rubricas e às tradições presentes na Terra Santa do que aos aspectos fundamentais da identidade franciscana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A graça de vivermos num período que coincide com o oitavo centenário do início do carisma franciscano e da aprovação pontifícia do nosso propósito de vida exige de nós um esforço de reavivar a memória dos oitocentos anos de nossa caminhada: um tempo de graça, mas, também, de sombras pouco conhecidas em sua real dimensão. Basta citar o exemplo da participação dos frades franciscanos na inquisição e o seu uso contra elementos externos e internos à Ordem, o anti-semitismo teórico e prático dos frades em momentos da nossa história, a violência física entre diferentes grupos no interior da Ordem, em nome da “autêntica” vivência da Regra franciscana, a presença do trabalho escravo no interior de uma Ordem em que seu fundador declarava que “eu trabalhava com as minhas mãos e quero que todos os outros irmãos se ocupem num trabalho honesto. E os que não sabem o aprendam, não por interesse de receber o salário do trabalho, mas por causa do bom exemplo e para afastar a ociosidade.” Esses são apenas alguns breves exemplos de sombras dos nossos antepassados na Ordem. Mais graves são as nossas próprias sombras, diante das quais não parece haver um esforço sério de superação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O empenho pelo fim da discriminação institucional na Ordem Franciscana contra frades laicos imposta pelo Estado do Vaticano (com o apoio de frades) é, a nosso ver, um dom à Igreja e à vida consagrada de uma maneira geral, pois aproxima-nos mais do evangelho de Jesus e da intuição fundamental de Francisco de Assis e de seus primeiros companheiros: somos todos irmãos, de fato e de direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 2009 foi determinado, pelo Governo geral da Ordem, como o ano em que culminará a comemoração do oitavo centenário da aprovação pontifícia do propósito de vida franciscana pelo papa Inocêncio III, em 1209. Entretanto, na forma como vem se desenrolando, é imprescindível combater o silêncio que se tem feito em referência a temas centrais da nossa identidade franciscana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Sobre o tema da Igreja católica e a escravidão negra no Brasil colonial e monárquico, há o trabalho abrangente e, ao mesmo tempo, sintético, de autoria de MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa história: 500 anos de presença da Igreja Católica no Brasil. Tomo 2: Período imperial e transição republicana. São Paulo: Paulinas, 2002.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a escravidão na Ordem Franciscana, verificar WILLEKE, Venâncio. Senzalas de Conventos in Separata da Revista de História, nº 106. São Paulo, 1976.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação à escravidão na Província de Santo Antônio, há um texto de FRAGOSO, Hugo. Uma dívida que a Província de Santo Antônio ainda não pagou (pro manuscripto), generosamente colocado à nossa disposição. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Cf. DUSSEL, Enrique. História Geral da Igreja na América Latina. Tomo II. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 262-263.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn3" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Cf. WILLEKE, Venâncio, p. 356.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn4" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Idem, p. 359&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn5" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Cf. WILLEKE, p. 359-360.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn6" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Idem, p. 361.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn7" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; FRAGOSO, Hugo, p. 12.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn8" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref8" name="_ftn8"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[8]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Idem, p.6.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn9" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref9" name="_ftn9"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[9]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Art 1º: Constitui contravenção penal, punida nos termos desta Lei, a recusa, por parte de estabelecimento comercial ou de ensino de qualquer natureza, de hospedar, servir, atender ou receber cliente, comprador ou aluno, por preconceito de raça ou de cor. Parágrafo único. Será considerado agente da contravenção o diretor, gerente ou responsável pelo estabelecimento.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn10" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref10" name="_ftn10"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[10]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Idem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn11" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref11" name="_ftn11"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[11]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Cf. WILLEKE, p. 355.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn12" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref12" name="_ftn12"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[12]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Idem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn13" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref13" name="_ftn13"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[13]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Cf. MATOS, Henrique Cristiano José, p. 170-171.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn14" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=19809912#_ftnref14" name="_ftn14"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[14]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Sobre as especificidades desse tema, consultar “A graça das origens e a origem de um mal-estar” em &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.enilcfmb.blogspot.com/"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.enilcfmb.blogspot.com/&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19809912-2899819412702895031?l=freifabiano.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://freifabiano.blogspot.com/feeds/2899819412702895031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/discriminacao-de-negros-na-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/2899819412702895031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19809912/posts/default/2899819412702895031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://freifabiano.blogspot.com/2009/04/discriminacao-de-negros-na-vida.html' title='DISCRIMINAÇÃO DE NEGROS NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA DO SÉCULO XXI: CONTRA OU A FAVOR?'/><author><name>Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
